A verdade é que a música está em todo lugar, por toda parte, sendo feita por todo tipo de gente. Nesse nosso Brasil gigantesco a música não para, as influências diversas, os regionalismos, as mais diferentes peculiaridades de um país tão grande conferem essa nossa especial e única pluralidade. Desbravando o país, literalmente do Oiapoque ao Chuí, listamos uma banda de cada Estado, um representante de cada canto do país que ajudam a conferir essa vastidão de possibilidades musicais que só o Brasil possui. No final tem uma faixa de cada banda em uma playlist incrivelmente bem temperada.

Acre – Los Porongas

Não só existe como está apenas duas horas atrás do restante do Brasil por conta do seu fuso horário e por lá também se faz música de qualidade. Como representante do Estado listamos o quarteto de Rio Branco, Los Porongas. Fundada em 2005, a banda mistura MPB com boas doses de indie rock. Possuem três discos, os três sempre aparecendo nas mais importantes listas de melhores do ano. Rock alternativo acriano, bonito e qualificado.

Alagoas – Milkshakes

Pode se dizer que o som é delicioso como um bom milk-shake. Nessa mistura sonora cremosa os ingredientes são dreampop, pop rock, pós-punk, psicodelia, distorções tanto coloridas quanto introspectivas, brilho e cor. O quinteto de Maceió lançou pela primeira vez em 2015, o EP Techinicolor (Independente) e ano passado lançaram o sensacional Wanderlust (Independente), um disco que é um verdadeiro passeio, guiado por sintetizadores iluminados e vocais espaciais. Milkshakes é sabor, é uma experiência sonora deliciosa.

Amapá – O Sósia

Do extremo norte temos um quinteto de Macapá. Com uma sonoridade à base de bonitos solos, letras espertas, backing vocals divertidíssimos e uma base de teclado incessante. Resultando em uma adição perspicaz de brega a uma boa dose de folk e indie. Possuem dois EPs, Instiga (2015, Redhead Records) e o ótimo Suave na Nave (2017, Redhead Records).

Amazonas – Supercolisor

O quarteto manauara faz um mix perfeito de rock alternativo e MPB. A sujeira nas guitarras aclimata o bonito lirismo da banda, aquele característico dos grandes nomes da música popular brasileira. Desde o primeiro lançamento em 2009, são três discos, com destaque para o ótimo Zen Total do Ocidente (Invern Records), de 2015, e dois singles, “Incêndios” lançada ano passado, e a linda e leve “Um e Meio”, feito em parceria com a Tuyo.

Bahia – Giovani Cidreira

Giovani é o tipo de artista que faz música com uma sonoridade difícil de explicar, por ser tão complexa e tão bem construída. Indie rock, MPB, rock alternativo, uma mistura de Mac DeMarco e Caetano Veloso com um incrível naipe de metais. Cada segundo é um experimento, uma nova descoberta. É um dos jovens mais criativos e inventivos da poderosa cena baiana, responsável por um dos melhores discos nacionais, não só de 2017, mas dos últimos anos nesse país, o Japanese Food (Balaclava/Natura Musical). Há poucos dias lançou em conjunto com a também baiana Josyara o forte e sentimental disco, Estreite. Giovani é o que chamamos de audição necessária.

Ceará – Projeto Rivera

Nome conhecido nos festivais brasileiros, o Projeto surgiu em 2013 em Fortaleza como um sexteto, e com a premissa de misturar o alternativo com o regional. O hoje quarteto cearense se matem fiel a sua ideia inicial, cruzando influências de MPB, rock e baião, em uma sonoridade orgânica e marcante. São letras pessoais, viradas sutis e fundamentais, com ótimas linhas de baixo, pesando pontualmente, além do uso de elementos eletrônicos. O mais recente trabalho da banda é o forte disco Eu Vejo Você (Independente), de 2018.

Distrito Federal – Joe Silhueta

Um dos lares do rock nacional, terra de Legião, Raimundos, Capital e Scalene, é aqui representado pelo mega grupo Joe Silhueta. Composto por oito grandes artistas, foi formado há menos de cinco anos e já fizeram turnê por grande parte do país e tocaram em importantes festivais. Após três EPs a banda lançou em 2018 seu primeiro disco cheio, Trilhas do Sol (Independente), e são donos de um dos mais enérgicos shows do país atualmente. O grupo ancora suas bases sonoras em boas doses de rock nacional setentista, psicodelia e folk rock.

Espírito Santo – My Magical Glowing Lens

Epifania, meditação, viagem interplanetária, paz e caos. Esse é o MMGL, projeto solo da multi-instrumentista e produtora de Vitória, Gabriela Deptulski. Um dos preciosos nomes da nova cena psicodélica nacional. Brilho, cores, velocidade em um ritmo próprio, devaneios e inventividade. Seu disco de estreia, e único até aqui, o Cosmos (2017, Honey Bomb/Subtrópico/PWR), foi muito bem recebido pela crítica, adicionando dreampop a psicodelia, proporcionando assim uma viagem única por um universo místico e colorido.

Goiás – Cambriana

É difícil falar da Cambriana sem exagerar nos superlativos, pois é uma banda genial. Ponto de ressalto na cena goiana, uma das mais qualificadas e pulsantes do país, sobre a qual já falamos aqui. A banda foi formada no final de 2010 em Goiânia, fazem um som que passeia por indie pop e freak folk resultando em um delicioso pop psicodélico. Depois de dois EPs veio o absurdo, House of Tolerance (Independente), um dos maiores discos brasileiros lançados nesse século. Feito inteiramente pela banda, gravado, produzido e mixado, sem nenhuma ajuda externa. A banda entrou em hiato, do qual só saiu em 2017, voltando a lançar no ano seguinte seu segundo disco cheio, o Manaus Vidaloka (Independente). Cambriana é um abraço de uma sonoridade peculiar, capaz de causar as mais diversas emoções, de um jeito que poucos artistas e bandas conseguem.

Maranhão – Criolina

A dupla maranhense é formada pelo casal Alê Muniz e Luciana Simões, juntos na carreira fonográfica há mais de uma década sendo dois dos mais relevantes artistas do Maranhão. A Criolina mistura reggae, rock, ragga, elementos regionais e tambores vindo de alguma parte da África. E o faz com graciosidade, o último disco da dupla é a maior prova disso. Radiola em Transe (2017, Sete Sois/Tratore) é a cara do Maranhão. Colorido e dançante em algum lugar entre Jamaica e Brasil setentista, ponto alto da discografia da dupla.

Mato Grosso – Macaco Bong

Com sotaques de jazz, blues, post-rock e stoner rock, a banda de Cuiabá se tornou um dos grandes e mais preciosos nomes do rock instrumental nacional. Formada em 2004 como quarteto, passou a ser um power trio no ano seguinte e voltaram a ser quarteto em 2017. Sempre colocando seus discos nas listas de melhores do ano. São quatro, além de um EP. Todos igualmente furiosos. A última vez que lançaram foi em 2017, o disco Deixa Quieto (Sinewave), bem mais calmo que seus antecessores e que é uma releitura divertida da obra-prima do Nirvana, o Nevermind. Sinta o peso e a transformação.

Mato Grosso do Sul – Codinome Winchester

Diretamente da capital sul mato-grossense, um quinteto que mistura bons trechos do bom e velho rock n roll com sotaques de indie rock e traços culturais do Estado. E o faz com muita sabedoria e perspicácia, resultando em uma estética peculiar. São andamentos inventivos, tempos quebrados e grandes e poderosos riffs. Após alguns singles e EPs, a banda lançou seu primeiro disco cheio em 2018, o bom Reunião Entre Céu e Inferno (Toca Discos).

Minas Gerais – Pense

Um dos Estados de maior relevância histórica para a música brasileira, de Clube da Esquina a Skank, Minas sempre foi incrível. Incrível e plural, por isso mesmo vem de lá um dos mais importantes nomes da cena atual do hardcore brasileiro, a Pense. Duas guitarras nervosas, cozinha firme, vocal contundente, ótimas e profundas letras, e uma banda poderosa. Formada em 2007 em Belo Horizonte, a banda possui quatro discos, o mais recente, Realidade, Vida e Fé (Independente), foi merecidamente muito elogiado, e figurou em todas as mais importantes listas de melhores discos nacionais de 2018.

Pará – Guitarrada das Manas

Um dos Estados mais musicais desse país, de Dona Onete, Calypso e das guitarras dos Cordeiro. Lar do carimbó, lambada, guitarrada, tecnobrega, bandas de rock, de forró… O Pará é tudo. Como representante desse caldeirão temos a Guitarrada das Manas. Projeto da dupla de multi-instrumentistas de Belém, Beá e Renata Beckman. O som é um experimentalismo instrumental das guitarradas, gênero que historicamente é praticado apenas por homens, adicionando sotaques de world music oitentista pesando nos synths e gêneros paraenses, como brega e lambada em uma alquimia perfeita. Ano passado o duo lançou seu primeiro disco, o incrível Guamaense (Tratore). A Guitarrada das Manas é um verdadeiro caldeirão sonoro, como o próprio Pará.

Paraíba – Glue Trip

Tendo surgido em João Pessoa em 2012, a banda adiciona consideráveis doses de psicodelia eletrônica a bons momentos da música brasileira dos anos 60 e 70. Como certa vez disse Lucas Moura, vocal e guitarra da banda, é como se o Clube da Esquina se encontrasse com o Daft Punk. O projeto começou como duo e hoje é um quinteto. A mudança na formação impactou na construção da sonoridade da banda, contada através da sua discografia, no início, soando mais orgânica e solar, levada pelo violão, no seu último e melhor registro, o Sea at Night (2018, Independente), soa mais soturna, como um luau na praia, muito mais eletrônica. A Glue Trip é uma viagem, é um infinito de possibilidades, psicodélica, criativa, lisérgica.

Paraná – Machete Bomb

De Curitiba vem uma das bandas mais criativas da atualidade. Por sua sonoridade singular, não há nada que soe como Machete Bomb. Como eles mesmos dizem: “Um soco reto no senso comum”. Tudo isso porque fazem um som que contém percussão, baixo, bateria, letras cruas e diretas, falando sobre questões sociais e políticas, e um cavaquinho com distorções diabólicas de heavy metal. É samba, hip hop, rock e chorinho, é a inventividade da música brasileira guiada por um cavaco que é capaz de coisas impensáveis. É como se o Rage Against the Machine tivesse tido um filho com a Estação Primeira de Mangueira. O Machete Bomb é um passo largo dentro do universo criativo infinito que é música brasileira.

Pernambuco – Torre

Uma das mais jovens da nossa lista, a banda Torre surgiu em 2017, lançando o primeiro disco em 2018, o rua i (Independente). Um registro de lembranças, um canto sobre a vida no subúrbio recifense. Fazem um som orgânico que adiciona camadas eletrônicas ao pop rock. O segundo registro do quarteto veio no final do ano passado. O disco Pág. 72 (Independente) muda a linguagem de seu antecessor, são letras mais abstratas e certeiras sobre aquelas primeiras lembranças. Uma banda que canta sobre a cidade, fala das suas origens através de misturas, colagens, e viagens sonoras sutis, bonitas e coesas.

Piauí – Validuaté

Diretamente de Teresina, uma banda que surgiu em 2004 e desde então faz um mix impecável de parte dos melhores ritmos e elementos da música essencialmente brasileira como, brega, samba e baião com pop, indie, reggae e heavy metal. Cantam sobre o amor, seja em sua eternidade ou em seus desalentos, através de belas e poéticas narrativas. A Validuaté mostra, através dos anos, que seu pop inventivo, criativo e belo, não tem data de validade.

Rio de Janeiro – El Efecto

O Rio possui hoje uma das cenas mais movimentadas no que diz respeito a bandas de rock e seus subgêneros, especialmente surgindo nos últimos 10 anos. Mas como representante escolhemos uma não tão jovem assim, que surgiu em 2002, mas por ser tão inventiva, criativa e eclética, consegue representar o movimento e a cena com muita sagacidade. O El Efecto é mais uma daquelas que soa apenas como ela mesma. São baixos, guitarras, clarinetes, bateria, viola e violão, flauta, trompete, cavaquinho, percussão e algumas vozes, em um mega grupo atualmente com sete integrantes. Cozinhando um combo de post-hardcore com MPB, rock alternativo com sotaques regionais brasileiros, em letras que costumeiramente abordam temas políticos e sociais. É um plural, é Brasil, é invenção, é tudo.

Rio Grande do Norte – Mahmed

A cena potiguar é incrível, já falamos especialmente dela aqui. Diante de tantos artistas e bandas preciosos, escolhemos a inventividade como representante. Dream pop e rock alternativo feito por um quarteto que é um dos grandes nome da nova música instrumental do país e que não precisa de palavras para transmitir todo tipo de emoção. Da euforia a melancolia, da mansidão à desordem. O Mahmed é um quebra-cabeças de milhares de peças prestes a ser concluído, um processo, manso, pacífico e contemplativo. É poesia sem palavras.

Rio Grande do Sul – Dingo Bells

O trio porto-alegrense despontou em 2015 com o lançamento do elogiadíssimo disco Maravilhas da Vida Moderna (Independente). Em 2018 veio a certeza que a música brasileira havia ganhado um presente vindo de terras gaúchas, quando a banda entregou o maravilhoso Tudo Vai Mudar (Independente). Indie/pop rock à brasileira perspicaz, falando sobre a vida moderna, relacionamentos humanos, do dia-a-dia, incertezas, pequenas alegrias e pequenos conflitos. Um afago, um presente. Esse é o Dingo Bells.

Rondônia – KALI

De Porto Velho vêm KALI, dentro do conceito da MPBéra. A Música Popular Beradêra é uma vertente da MPB, criado com a intenção de definir a sonoridade e cultura do Estado de Rondônia. “Beradêro” é como costumeiramente se chamam os nativos de Porto-Velho, por nascerem às margens do Rio Madeira. KALI é um vocal adocicado, bonitas letras, ótimos arranjos, riffs espertos, distorções, efeitos e melodias inspiradas, tudo muito sutil e delicado, transitando com cuidado por ritmos característicos brasileiros. Um mel do Norte.

Roraima – Dr. Yoko

Da fronteira Brasil/Venezuela vem o rock amazônico da Dr. Yoko. E da Amazônia no geral, inclusive pulando a fronteira. O vocalista e guitarrista da banda é venezuelano, a banda canta também em espanhol e faz um rock alternativo que mistura as culturas dos dois países, flertando também com ritmos como o reggae e country rock. Um power trio latino, amazônico com fortes riffs e bateria contundente.

Santa Catarina – Wolken

Caos calmo de um delicioso drem pop catarinense. O quarteto da cidade de Benedito Novo constrói estruturas harmoniosas e pacíficas, como uma brisa leve praiana. Com bonitos arranjos, guitarras limpas, baixo cativante, bateria precisa e um vocal distante, tudo com muita tranquilidade, muita calma. Uma sonoridade capaz de causar bonitas sensações, em canções que se pode ouvir por horas, quase que encontrando beleza na melancolia e calmaria no caos.

São Paulo – Aláfia

“São Paulo não é Sopa”, canta a Aláfia, e não é, não qualquer sopa, é a mais temperada de todas, um caldeirão de referências, de influências, de pessoas, de pessoas fazendo música. Assim é a Aláfia, uma perfeita alquimia sonora feita por uma mega banda que atualmente conta com doze integrantes. Nessa sopa tem jazz, funk, mpb, hip hop, eletrônica, reggae, samba, soul, jongo, batuques do candomblé e ritmos de matriz africana. São letras cheias de motivo, com temáticas sociais, políticas e raciais. Com uma sonoridade particular a banda conta histórias, faz refletir e faz dançar, o batuque não para. Uma banda grande, plural, criando sob as mais diversas influências, temperada, como São Paulo.

Sergipe – The Baggios

De São Cristóvão, interior do Sergipe, a banda que tem seu nome inspirado em um artista de rua local, surgiu em 2004 como um duo e hoje é um power trio, se colocando como uma das grandes bandas brasileiras de blues-rock da atualidade, com direito a duas indicações ao grammy. O trio cruza influências de ritmos brasileiros com grandes riffs de blues e rock setentista. A maior prova dessa saborosa mistura é o último registro da banda. Vulcão (2018, Toca Discos) tem pandeiro, generosas pitadas de ritmos regionais e até uma marchinha rock n’ roll, sem deixar de lado o característico blues tropical do trio. Inventividade e descoberta a cada novo riff, produto que só poderia mesmo vir de uma banda de rock nordestina.

Tocantins – Imaginário Mundo

Imagine um mundo onde a arte proposta pode ser entregue a todo e qualquer tipo de público e pessoa. Essa é a ideia central conceitual da grupo. Que, por isso mesmo, não é apenas música. Suas apresentações também contam com espetáculo de dança e uma intérprete de libras, entregando arte a todos. A banda possui alguns singles e tocou nos principais festivais da região. Uma das bandas mais criativas da renovada e pulsante cena tocantinense.