Goiânia rock city! Sim! Musicalmente, a capital goiana e o estado de Goiás são muito mais que primeiras e segundas vozes, por lá acontece muito mais que isso. Goiás, e principalmente sua capital, possuem uma das mais ricas e agitadas cenas de  música independente desse país. Indie, MPB, Hard Rock, Pop Rock, Stoner Rock, Rock alternativo, de quase tudo se encontra por lá e com muita qualidade e relevância dentro do cenário nacional. Por isso, o estado de Goiás foi o escolhido para abrir essa série dentro da coluna de musica aqui no site, onde vamos falar sobre as cenas de vários estados brasileiros. Aqui, nós tentamos levar parte do que é essa forte cena, falando sobre artistas goianos da cena atual, gente que você com certeza deve conhecer antes de ouvir mais um hit sertanejo, pra variar. A cena é tão enérgica e rica que iremos dividir nossa lista em duas partes com direito a playlist. Aqui vai a primeira.

1- Cambriana

A Cambriana é uma das bandas mais queridas por este site. Banda inventiva e criativa das composições aos mais singelos solos. O House of Tolerance (Independente), disco de estreia da banda, que, sem exageros, é um dos discos mais bonitos e instigantes lançados no Brasil nesse século, começou a ser concebido no final de 2010 e teve seu primeiro single lançado no começo de 2012. A recepção ao single foi super positiva por público e crítica e alcançou milhares de ouvintes. No fim do mesmo mês de lançamento do single, o disco inteiro foi disponibilizado para download. Logo, diversos veículos começaram a falar sobre o excelente primeiro disco da banda de Goiânia. A banda, hoje um sexteto, lançou em 2013 o EP Worker (Independente) e depois entrou em hiato. Em 2018 a banda finalmente voltou a ativa e lançou o deliciosamente complexo Manaus Vidaloka (Independente), que chegou antes de tudo como um abraço, para aliviar a saudade causada pela ausência da Cambriana. Um disco que demonstra crescimento e maturidade, de uma banda que mistura com muito cuidado os mais diferentes ritmos em uma combustão incessante de sagacidade musical e referências bem aplicadas. Um disco de uma grande e querida banda. Há poucos dias, a banda anunciou que irá lançar ainda esse ano, uma versão repaginada do House of Tolerance, uma versão 2.0. Inclusive dois singles do disco já foram disponibilizados pela banda com essa nova roupagem. Que eles sigam, a gente só deseja vida longa e próspera à Cambriana.

2 – Violins

Nascida em 2001, a banda lançou ano passado, depois de seis anos em silêncio, o seu oitavo disco, o consistente A Era do Vacilo (Monstro Discos). Um disco que chega para tirar do hiato o Violins, para aumentar com qualidade a excelente discografia da banda, e para confirmar, que o Violins é sim hoje uma das maiores referências do cenário independente do centro-oeste brasileiro. Liderada por Betto Cupertino, historicamente um dos grandes nomes da música goiana, a banda é hoje um quarteto. O Violins faz um rock contemporâneo carregado de referências de música brasileira, passeando entre o pacífico e o caótico, fazendo refletir com letras concisas e conscientes, carregadas de ironias e metáforas, e com um trabalho e uma preocupação ímpar no instrumental. O Violins é audição necessária.

3 – Hellbenders

Considerada por muita gente por algum tempo como a maior banda de rock em atividade no país. Um “semi título” talvez inquestionável em algum momento. A Hellbenders fez e faz sim grandes coisas. O quarteto mistura punk, hard rock e stoner com uma qualidade que raramente se vê. A banda começou a alcançar notoriedade em 2013 com o lançamento do seu primeiro disco, a pedrada chamada Brand New Fear (Independente). Com singles como “Hurricane” e “Whorehouse Murder”, que foram lançados anteriormente em um EP. Em 2014 a banda tocou no South by Southwest, um dos maiores festivais de música independente do mundo e depois desse show foram convidados pelo próprio Dave Cacthing, do Eagles of Death Metal, para gravar no lendário estúdio Rancho de La Luna, na Califórnia. O resultado foi o Peyote (HBB Records) ótimo segundo disco cheio da banda, lançado em 2016. A Hellbenders segue fazendo barulho por onde passa, em casa de shows e em festivais com apresentações sempre muito elétricas, e segue sendo uma das maiores referências do stoner/hard no país.

4 – Melodizzy

O Melodizzy é um daqueles casos em que uma banda nacional que canta em inglês acaba alcançando alguma notoriedade no exterior antes de ser reconhecida em casa. Após lançar em 2017 seu disco de estreia, o A Letter to the World (Independente) a banda apareceu em uma entrevista na revista britânica especializada, a Fireworks Megazine. Até outro dia Londres era a cidade que mais os ouvia nas plataformas de streaming. O quarteto faz rock simples, puro e sem muitos enfeites, se a busca é por uma simplicidade qualificada do bom e velho rock and roll, aqui está uma que assim o faz, e faz muito bem.

5 – Overfuzz

Como a própria banda diz: “Power trio de Goiânia que faz rock barulhento e bem trabalhado, sem rótulos e sem pudor”. É isso, rock barulhento de qualidade. O show da Overfuzz é um espetáculo, sem nenhum rótulo ou pudor e com uma energia incrível. A discografia da banda é composta por dois EP’s, um compacto e um disco, o maravilhoso Bastards Sons of Rock’n’Roll (Independente). Lançado em 2015, figura nas principais listas de melhores discos daquele ano. Carrega a identidade da banda aliada a fortes referências setentistas e oitentistas. Um disco firme, consistente, enérgico, um grande disco de rock. Aliás, a Overfuzz é isso, rock and roll. Se existe uma banda em Goiás que sintetiza musicalmente o que esperamos de uma banda de rock, essa banda é a Overfuzz.

6 – Caffeine Lulabies

O quinteto iniciou suas atividades em 2015 e no mesmo ano lançou seu disco de estreia através de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo. The Closest Thing to Death (Independente) chamou atenção, principalmente por ancorar seu som em lugar muito distante do lugar sonoro dos artistas conterrâneos. O Caffeine chega com uma estética noventista notoriamente presente, com referências que passeiam entre emo, pos-punk, rock alternativo e indie rock. Mas a banda não chega a soar melancólica ou nostálgica. Apesar desse emaranhado de referências, os caras fazem rejuvenescer com energia tudo que poderia soar nostálgico na sua música. Eles lançaram ano passado o single “Grief” e algumas semanas depois um EP, o Blueprints for a New Ocean (Milo Recs) que pôs fim a uma pausa de três anos sem novidades. O Caffeine Lulabies é uma das bandas a surgir nos últimos anos das mais interessantes e inventivas, não só de Goiás, mas de toda a cena brasileira alternativa atual. É uma surpresa a cada riff.

7 – Two Wolves

A banda nasceu como duo em 2011 na cidade de Senador Canedo. Em 2014, quando lançaram seu primeiro disco, o ótimo Just Listen To (Monstro Discos), o grupo já era era um quarteto. A Two Wolves faz um indie rock/pop rock com finas camadas de alguns outros estilos, mas bebem principalmente da fonte do indie rock mundial feito nos últimos vinte anos. O resultado é uma sonoridade possível de agradar os fãs que consomem apenas o undeground, mas também fazem canções com enorme potencial radiofônico, que tocariam tranquilamente na novela. Uma banda com um vocal sublime, dobras de guitarras lindas, preocupação com os arranjos, teclado certeiro e linhas de baixo e bateria belas e fundamentais. Um dos grandes nomes do indie rock nacional contemporâneo. Lançaram esse ano com direito a videoclipe a faixa “Wasting Time”, com uma sátira política esperta em uma faixa dançante e bonita. Percorrendo seu caminho para a consolidação, os dois lobos agora são seis, e seguem crescendo também musicalmente.

8 – Boogarins

O Boogarins é o rock psicodélico tropical, a psicodelia do cerrado. Por suas peculiaridades, singularidades e também sua qualidade musical evidente, a banda fez tanto barulho rapidamente na cena, e segue fazendo a cada novo trabalho. O quarteto formado na capital goiana em 2012 faz seu som passear pelo rock progressivo, pelos subgêneros da psicodelia adicionando a tropicalidade brasileira a essa mistura. O resultado é uma identidade musical peculiar e original. O Boogarins já tocou mundo afora e nos palcos dos maiores festivais deste planeta, como no Coachella, na California, no Rock in Rio em Lisboa, no South by Southwest no Texas, no Primavera Sound em Barcelona e no Lollapaloza por aqui. Além dos grandes festivais independentes nacionais, como no Bananada em Goiânia, no Porão do rock em Brasília, no Coquetel Molotov em Recife e em vários outros. O Boogarins é uma banda que surgiu falando muito alto, gerando expectativas, mas que tem entregado muita qualidade a julgar por essas expectativas criadas, e que ainda tem muito por entregar.

9 – Desert Crows

Uma das bandas mais promissoras da cena, um dos fenômenos recentes do stoner rock goiano e nacional, fazendo muito barulho e chamando atenção logo nos primeiros anos de existência. Seu disco de estreia foi lançado em abril deste ano, Age of Despair (Monstro Discos) chega com a força necessária para colocar uma banda tão nova entre os bons nomes da cena. Riffs que transitam entre o sombrio e o enérgico, entre o obscuro e o iluminado, passeando entre o tranquilo e o urgente, fazendo por muita vezes essa transição de forma muito rápida. Acompanhados de batidas firmes e assertivas vindas de uma bateria consistente. Não é preciso ouvir por muito tempo para saber que esse power trio sabe o que faz. Se apresentaram na edição deste ano do festival Bananada, em Goiânia, e há pouco os vimos no festival Bem Ali, em Palmas. Uma banda que chama muita atenção por ter tão pouco tempo de estrada, poucos material lançado e essa qualidade absurda. Um trio que já é uma realidade, mas que promete muito mais para o futuro.

10 – BRVNKS

Quando Bruna Guimarães se lançou como BRVNKS, a banda de uma garota só, seu aclamado EP de estreia, o Lanches (Dull Dog Records) com quatro faixas e pouco mais de onze minutos, ela se fez ouvir e foi mais do que suficiente para chamar muita atenção de público e mídia, de quem recebeu diversas críticas positivas, sendo colocada como um dos nomes mais promissores para os próximos anos. Desde então não decepciona, trilha um caminho consistente pavimentado no seu doce indie lo-fi referenciado no melhor do indie e da alternatividade dos anos 90. A banda lançou singles entre 2018 e 2019 para então esse ano lançar seu primeiro disco cheio, um dos melhores do ano até aqui. Morri de Raiva, lançado em maio pela Sony, possui dez músicas onde se pode perceber o amadurecimento musical da banda. Atenção para as assertivas linhas de guitarra. Indie lo-fi com pitadas de surf music, agridoce e sutil. Falando sobre temas cotidianos, angustiado, sem carinho ou amor, Bruna quase morre de raiva. BRVNKS talvez seja hoje a maior comprovação da efervescência da cena goiana. É ouvir e se deliciar.

11 – Black Drawing Chalks

Por muito tempo o Black Drawing Chalks foi mais conhecido no exterior do que no Brasil. Parte pelas letras em inglês, parte pela não valorização do público compatriota para com o stoner rock nacional e parte por conta de que essa cena de stoner nacional ainda não ser tão cultuada no país há alguns anos atrás. Ideia que o próprio quarteto ajudou a derrubar. De qualquer forma, a banda grita, fala alto e faz com que seja uma enorme referência para novas bandas no estilo. Surgida em 2005, lançaram em 2007 seu trabalho de estreia, o Big Deal (Monstro Discos). Depois dele, foram vários shows pelo Brasil e logo começaram os shows pelo mundo. Em 2009, a banda lançou o espetacular Life is a Big Holiday for Us (Monstro Discos), disco que entre outras faixas importantes, traz consigo o hit “My Favourite Way”, eleita a melhor faixa do ano em 2009 pela Rolling Stone Brasil. Em 2010 tocaram na primeira edição do extinto SWU, em 2012 tocaram no mesmo palco que Arctic Monkeys e Janes Adiction no Lollapaloza. Nesse mesmo ano lançaram o que é ainda seu mais recente trabalho, o impecável No Dust Stuck on You (Crânio). Stoner rock de muito peso, de muita qualidade, como raramente se faz, no Brasil e no mundo.