Terra de Raimundo Fagner, Belchior, Patativa do Assaré, Mastruz com Leite, Aviões do Forró, Falcão, e de vários outros nomes de peso da música popular brasileira, e de ritmos regionais, especialmente o forró. Um Estado que é arte. Listamos então onze nomes, entre bandas e artistas que tem representado musicalmente muito bem o Ceará nos últimos anos. E no fim, juntamos tudo em uma playlist de respeito com os nomes aqui citados e alguns outros nomes da atual cena cearense.

Projeto Rivera

O Projeto foi citado recentemente aqui no site como representante do Ceará no nosso post com uma banda de cada Estado do país. (Leia aqui). A banda surgiu em 2013 como um sexteto, hoje um quarteto. Lançou de forma independente o primeiro disco em 2015, o Eu Vim Te Trazer Sol, ensolarado como ele propõe.

Entre lançamentos de singles e shows em festivais importantes no Brasil, a banda se manteve fiel a sua conceituação sonora inicial, misturar suas influências de rock e MPB com ritmos regionais como o baião, propondo uma sonoridade orgânica e fluida. Organicidade construída especialmente por conta das excelentes linhas de baixo. A banda também faz com sabedoria o uso de elementos eletrônicos. Em 2018 veio o mais recente disco, o saboroso Eu Vejo Você (Independente).

Ilya

Uma das grandes artistas cearenses na cena atual. Ela é cantora, compositora, performer, formada em música e teatro, e é reconhecida pelos seus trabalhos como figurinista para espetáculos de música e dança. Despontou na cena independente de Fortaleza em 2014, com a banda Tripulantes da Sabiabarca. Se iniciou como compositora em 2016. Começou então a fazer shows em importantes festivais nacionais e fora do país. Ano passado se apresentou no Brasil Summerfest, em Nova Iorque, e gravou o belo clipe da música “Á Vontade” no outono de Barcelona.

A sonoridade é uma sopa de referências muito bem temperada. Apesar de ter uma ancoragem sonora no pop e na MPB, sua sonoridade flerta com o rock e com regionalidades, como o coco e o maracatu. O primeiro disco veio em 2018, o sensível e perspicaz Doces Náufragos (2018, Índigo Azul), uma ode ao afeto, a leveza e a empatia.

Mad Monkees

Uma jovem banda formada em 2015 em Fortaleza. E que chegou para balançar a cena do rock no Estado. O quarteto é formado por Felipe Cazaux (guitarra e voz), Hamilton de Castro (baixo), Capoo Polacco (guitarra) e PH Barcellos (bateria). Eles cruzam influências do rock clássico com o melhor das influências modernas, passando pela música alternativa dos anos 90. Uma mescla muito bem executada e madura. O som é firme, potente e certeiro. Em 2015 veio o primeiro registro, um EP homônimo com quatro faixas.

Passaram a participar de importantes festivais, no Ceará e fora do Estado. Em 2016 começaram uma parceria com o saudoso produtor Carlos Eduardo Miranda, para a criação do primeiro disco. Veio então no ano seguinte o disco, também homônimo (Ressaca Records), com participações de Anderson Kratsch e Emmily Barreto. Uma banda que fez bastante em um curto espaço de tempo, que assim continue. Vida eterna ao rock cearense!

Plastique Noir

Chegando aos 15 anos de existência esse ano, a banda formada na capital cearense é o principal nome do pós-punk/rock gótico no país há anos. Nessa década e meia de vida, a banda passou por algumas mudanças de formação, e hoje atacam como um trio, formado por Airton S. (vocal e eletrônicos), Danyel Fernandes (guitarra e synths) e Deivyson Teixeira (baixo). A banda já tocou por todo o território nacional além de turnê pela América latina, tocando inclusive no Wave Summer Festival, maior festival gótico da América do Sul.

A excelente discografia é composta por alguns singles, um EP e quatro discos, incluindo o maravilhoso Affects (2011, Wave Records), e o ótimo 24 Hours Awake (2015, Wave Records), mais recente lançamento da banda. A sonoridade é especial, mesmo sendo um gênero pouco conhecido para muitos, tende a agradar os ouvidos atentos, pela qualidade musical que é entregue. São beats contundentes e até mesmo dançantes, um baixo sensual, guitarras esvoaçantes, bateria limpa e consistente e um vocal certeiro.

Selvagens á Procura de Lei

A banda surgiu em 2009 na capital Fortaleza, formada por Gabriel Aragão (Voz, Guitarra e Teclado), Rafael Martins (Guitarra e Voz), Caio Evangelista (Baixo e Voz) e Nicholas Magalhães (Bateria e Vocais). Em 2010 lançaram seus primeiros trabalhos, dois EPs. No segundo, veio a faixa “Mucambo Cafundó”, a primeira da banda a ganhar destaque. O quarteto mistura influências do rock dos anos 80 com indie rock desse século, adicionando sotaques regionais. O primeiro disco veio em 2011, o excelente Aprendendo a Mentir (Independente).

Em 2013 a banda lançou o disco homônimo (Universal), o disco que realmente projetou a banda à um nível nacional, um disco maravilhoso, completo enquanto obra e de um timming de lançamento incrível. O disco trás letras com uma abordagem social e política, principalmente no single “Brasileiro”, e seu lançamento coincide com a onda de protestos no Brasil, alavancando a música, o clipe, e o próprio disco. No ano seguinte a banda tocou no Lollapaloza em São Paulo, e se manteve presente nos line ups dos melhores festivais nacionais. Depois disso vieram vários shows internacionais, alguns singles e outros dois discos lançados de forma independente, o Praiero (2016) e Paraíso Portátil (2019).

Edley INC.

O quarteto surgiu em Fortaleza no ano de 2013, quando Giorgio Perci (vocal) e Erik Gandhi (bateria), brincavam em estúdio, fazendo jam’s e improvisando. Juntaram-se à eles, Efraim Quezede (guitarra) e Luccas Aragão (baixo). Suas várias referências e sua criatividade, geram uma sonoridade especial e peculiar. Com os pés no pop, mas fazendo com sabedoria uma fusão de pop progressivo e trip hop, com clara influências de gêneros como trap e R&B.

Esse caldeirão de referências e influências, de fato funciona. As letras tocam em temas sociais, sentimentais e contemplativos. Já tendo lançado alguns singles através dos anos, no último mês de julho veio o primeiro disco, o ótimo Mozi Tapes (Independente). Um disco para colocar definitivamente a banda como uma das mais promissoras do pop alternativo nacional, é para ficar de olho.

RAPdura

Francisco Igor Almeida dos Santos nasceu em Lagoa Seca, uma vila perto de Fortaleza. Mas ele é radicado em Brasília, cidade para onde se mudou aos 13 anos. Sua base sonora é o rap, no seu caso, adicionando sotaques regionais, com uma linguagem poética-popular, que gera uma identificação com o povo, sem deixar de ser poesia. Simples, ligada as origens, e poética. Aos 14 ele já compunha.

São letras que no geral falam sobre a mulher rendeira, da seca, do agricultor, mesclando com temas da cidade moderna, como os processos de urbanização. Mescla que também é percebida nas suas influências rítmicas diretas, é maracatu, embolada, baião, repente e forró, misturadas com temas urbanos, como soul, jazz e samba-rock. São vários singles, em 2016 o ótimo “Expurgo”, pela Rab Box, em parceria com Diomedes Chinaski, Nissin e Baco, e os mais recentes, “Meu Ceará” e “O Amargo do Doce”, lançados esse ano. Além de três discos: Amor Popular, mixtape (2008, Independente), Fita Embolada do Engenho, Vol. 1 – Na Boca do Povo, mixtape (2010, 1/4 D’Engenho Produções), e o recente e maravilhoso Universo do Canto Falado (2020, Nibiru Recordz), que conta com uma parceria com a BaianaSystem no single “Olho de Boi”.

Getúlio Abelha

Getúlio nasceu em Teresina-PI, onde morou até os 19 anos, quando foi para Fortaleza estudar teatro. Como ele mesmo diz, ele é um teresinense enquanto pessoa, mas um cearense enquanto artista, pois foi no Ceará que ele realmente conseguiu construir sua carreira. Um ser inventivo, artisticamente permissivo, performático, inquieto, um representante do delírio que a arte causa. Por isso mesmo, toda a mistura que compõe a musicalidade de Getúlio é muito difícil de ser rotulada. Pois é feita de forma que não se enquadre dentro de conceitos rígidos, mas sim para ser fluida e surpreendente a cada novo lançamento.

Mas é possível sim dizer que a base sonora de Getúlio é o forró, uma espécie de forró eletrônico. Ele rebusca com um vocal mais grave a estética do forró dos anos 2000, adicionando elementos modernos a essa mistura audaciosa. É surpreendente e funciona, mas pode assustar aqueles menos dispostos à novas e ousadas experiências musicais. Pois é um som elétrico, provocante, esvoaçante e extremamente inventivo. São apenas pouco mais de dois anos desde o seu début, e desde então ele é visto como uma grande promessa, mas que já vem pavimentando um caminho muito interessante musicalmente.

Jonnata Doll e os Garotos Solventes

Uma das bandas de rock mais barulhentas dessa nova cena do Ceará. Barulhenta no sentido de projeção, já tendo um alcance em nível nacional, e barulhenta também pelo som que faz. Barulho do bom. A banda ancora suas bases no punk rock, mas fazem um som que vai do postopunk ao melhor do rock nacional dos anos 80, passeando com sabedoria pelo hardcore. Na genética de Doll e seus garotos, temos traços de Clash, Stooges, Legião e Iggy Pop.

Desde 2009 na cena, tendo lançado alguns singles e três discos, o quinteto lançou ano passado um dos melhores discos do ano, o poderoso e muito bem intitulado, Alienígena (2019, Tratore). Um registro potente do começo ao fim, são ótimas dez faixas com destaque para o hit “TRABALHO TRABALHO TRABALHO”, “Matou a Mãe” e “Edifício Joelma”. O alienígena Jonnata e seus garotos tem tudo para continuar a fazer o seu “brazilian postopunk”, o seu barulho qualificado, por muito tempo, e que assim seja.

Indigo Mood

Com uma sonoridade que outrora foi descrita como “triste e gostosinha”, a Indigo faz um indie pop melancólico e sensual, com pitadas de psicodelia e soul. Músicas para se ouvir deitado, relaxado, em um momento reflexivo ou mesmo triste. É uma espécie de tristeza tropical, ou uma melancolia praiana. As influências diretas vêm de coisas como Mac Demarco, Erykah Badu, The Neighbourhood, Connan Mockasin e Homeshake. A banda surgiu em 2017, como ideia de Leonardo Mendes (Voz e Guitarra), fazendo sua estreia no festival Garage Sounds daquele ano. Após algumas mudanças na formação, hoje o quarteto conta ainda com, João Victor Fidanza (guitarra e backing vocals), Théo Fonseca (baixo), e PH Barcelos (bateria).

O primeiros singles foram lançados em 2018. “Going Home Whitout You” veio primeiro, seguido de “As You Go”. Esse par de singles anteciparam o lançamento do primeiro EP da banda, o pacífico e saboroso Good Friend, Bad Lover (Fiasco Records) lançado no mesmo ano. Ano passado, lançaram dois singles, e esse ano lançaram o single “Time Bomb”, triste e gostosinho. Esse trio deve anteceder o lançamento do segundo EP da banda. Soturna, sensual, triste, uma inventiva banda criando a partir de deliciosas texturas melancólicas, gostamos.

Astronauta Marinho

O oposto ao mergulhador intergaláctico, um astronauta dos mares, que aqui, batiza o quarteto de música instrumental de Fortaleza. Este Astronauta também já possui certa projeção nacional, sendo um dos grandes destaques da música instrumental no país atualmente. A banda foi formada em 2011, vieram dois EPs e shows em importantes festivais pelo país, para em 2015 lançarem seu primeiro disco, Menino Sereia (Tratore), manso e instigante, como a própria banda.

O quarteto de amigos faz música a partir de suas próprias experiências, seu cotidiano, flutuando entre o post-hardcore e o indie com muita perspicácia. Em 2018 veio o segundo disco, o sábio Perspecta (DaFne Music/Mercúrio Música). Cordas afiadas, belas linhas de piano e baixo, e até voz, na faixa “Só”, um disco para ser degustado, uma caminhada confortável por paisagem instrumentais lindamente concebidas. Que este Astronauta continue a explorar a vastidão do universo onde está, nos levando por mais tempo nesse passeio muito bem oxigenado pelo seu mar de texturas criativas.