Continuando nosso passeio pelas cenas regionais do país, saímos de Goiás e atracamos em terras norte-rio-grandenses. A cena do Rio Grande do Norte é hoje, e já é há algum tempo, uma das mais pulsantes e movimentadas do Brasil. Com bandas que se conectam com os sons regionais, bandas de rock, música eletrônica e vários outros subgêneros em um universo musical particular potiguar que cada vez mais se espalha pelo país. Aqui listamos dez, a nossa primeira parte, vem mais por aí.

Camarones Orquestra Guitarrística

Por aqui a gente costuma dizer que o Camarones é atualmente a melhor banda de rock instrumental do país. Formado por Anderson Foca (guitarra e sintetizadores), Ana Morena (baixo), Yves Fernandes (bateria) e Alexandre Capilé (guitarra), faz um rock cremoso, dançante, pulsante e feroz. O quarteto mistura elementos de ska, pop e surf music para construir uma sonoridade peculiar, em lugares diversos, por vezes mais enérgica e vibrante, por vezes mais pesada e forte e mesmo contemplativa em alguns momentos, mas sempre com muita energia. Seus integrantes são nomes importantes na cena potiguar e brasileira, por isso, para além de uma banda que segue se reinventando e sendo relevante, eles também ajudam a difundir e a espalhar a palavra da música do Rio Grande do Norte. Uma banda com doze anos de vida, sete discos em sua discografia, o mais recente lançado esse ano, o ótimo Surfers (DoSol) e que tocou em importantes palcos no Brasil e mundo afora. Por aqui em festivais como Bananada, CoMA, DoSol, Abril Pro Rock e no próprio Rock in Rio, além de shows por diversos países da Europa tocando, por exemplo, em festivais como o Liverpool Sound City, em Liverpool, e no Primavera Sounds em Barcelona. Camarones é Feeexta, é Ritymus Alucynantis, e que assim siga, derramando energia por onde passa, fazendo sempre impressionantes apresentações ao vivo, sendo relevante musicalmente e difundindo o melhor da música potiguar.

Luísa e os Alquimistas

Luísa Nascim é daqueles seres preciosos da nova música brasileira, daqueles que nós temos certeza que ainda trará muita coisa boa à musica tupiniquim. Junto com sua trupe, os alquimistas de Luísa, começaram a aquecer a cena com seu primeiro lançamento, Cobra Coral (2016, DoSol) fizeram uma fogueira com o ótimo Vekanandra (2017, Independente) e esse ano incendiaram a música brasileira com a maravilha de disco chamado Jaguatirica Print (Independente) melhor momento musical da banda. Listado pelo Alouatta como um dos melhores da música brasileira em 2019. Talvez por conseguir colocar em um registro tudo aquilo que por eles era desejado, toda a doce eletricidade dançante que se apresenta como uma jaguatirica prestes a dar o bote. E o bote veio. Disco completo, uma alquimia perfeita que leva na sua receita muito brega, pop, eletrônica, pitadas de reggaeton resultando em uma colagem criativa de gêneros como raramente é visto, ao menos assim, com essa inventividade. Uma banda que mistura ritmos com muita sabedoria sob a liderança perspicaz de Luísa. Banda que há muito já não é mais apenas uma das delícias musicais do Rio Grande do Norte, o Brasil foi agraciado com Jaguatirica e por ele se espera muito mais de Luísa e seus Alquimistas a partir de agora. Sabendo que sim, um felino ainda maior pode vir nos próximos anos.

Far From Alaska

Provavelmente a maior banda de rock do Brasil no momento, uma das mais cultuadas na cena independente underground do país, presentes nos maiores festivais do país há algum tempo e uma das que mais fazem sucesso no exterior. O Far From Alaska é a maior banda da riquíssima cena potiguar. É impressionante como o Far From Alaska parece surgir como um fenômeno. A banda nasceu em 2012 e no mesmo ano lançaram o EP Stereochrome (Independente), e em 2014 gritou alto na cena quando lançaram o competente e potente modeHuman (Deck), disco presente nas mais diversas listas de melhores daquele ano, que traz o single “Dino vs Dino” e que apresentava o Far From Alaska para o mundo. Em 2017 lançaram um dos mais poderosos discos de rock nacional do século, o Unlikely (Elemess), uma fábrica de hits e de grandes faixas de rock, como a impecável “Cobra”, single que abre o registro. Mas o disco é encorpado do início ao fim, peso nas cordas e cozinha furiosa. Foi gravado nos EUA sob a tutela de respeito da renomada produtora Sylvia Massy, e que representou uma evidente elevação de nível do quinteto em relação aos registros anteriores. A banda é um tornado ao vivo, liderados pela maior vocalista de rock do país na atualidade, Emilly Barreto. Além dela, Cris Batorelli nos sintetizadores, lap steel e backing vocals e Rafa Brasil na guitarra. Em 2018 o baixista Edu Filgueira deixou a banda, que seguiu como quarteto, e em agosto desse ano o baterista Lauro Kirsch anunciou sua saída, a banda ainda não anunciou seu substituto. Que a fúria do Far From Alaska siga por muitos anos, o rock nacional agradece.

Plutão Já Foi Planeta

A banda alcançou mais ouvintes e pisou no mainstream quando em 2016 participaram do programa Superstar, da rede Globo, onde terminaram como vice-campeã. Mas Plutão já era planeta antes de tocar em tv aberta. Se formou em 2013 como banda cover, agregou novos membros aquele ano mesmo, inclusive a vocalista Natália Noronha e então começaram a criar músicas autorais, para em 2014 lançarem seu primeiro registro, Daqui Pra Lá (DoSol) sete faixas e a transparência deliciosa do indie pop sutil, romântico e dançante característico da banda. Através dos anos algumas mudanças na formação, até chegarem à forma de quarteto na qual se encontram hoje. Com Natalia, Gustavo Arruda, Sampulha Campos e Renato Lelis. Após o superstar a banda passou a fazer parte do selo alternativo da Som Livre, o SLAP, e por ele lançaram em 2017 seu segundo e mais recente disco, A Última Palavra Feche a Porta, produzido pelo vencedor do grammy latino Gustavo Ruiz. Depois disso foram mais três singles, “Estrondo” (2018), “Pra Gente Ser Feliz” (2019) e “Lua em Rita Lee” “(2019). Banda indicada e premiada em diversos prêmios nacionais, indie pop sincero, de uma banda que muito bem faz aquilo a que se propõe. Com dobras e contrapontos vocais espertos, riffs marcantes e toda a inventividade de uma banda que não perde o tom e faz música com sinceridade. No Brasil Plutão ainda é um importante planeta nada gelado que segue exalando ondas sofisticadas ondas de indie.

Joseph Little Drop

Se no Brasil a paralisia infantil pudesse ser curada por música, mais especificamente por punk, óbvio que o remédio viria através da banda que carrega o nome do mais icônico mascote da saúde nacional, o Zé Gotinha. Que batiza a banda em uma irônica tradução de seu nome para o inglês. Mais uma que comprova que o punk nacional segue firme e segue pulsante. O quinteto norte-rio-grandense faz punk como se espera e como gostamos, com o peso necessário e com composições divertidas. Após alguns singles a banda lançou o primeiro registro cheio em 2016, um ótimo homônimo. Mas começaram a se assanhar mesmo na cena a partir do seu segundo registro, o divertido e poderoso Punk José (2017, Frika Records). Composto por alguns singles já lançados e várias inéditas, traz algumas das mais celebradas faixas da banda. Como “Meu Pai é Milionário e Sua Mãe é José Rico”, “Cachaça e Responsabilidade” e “Jhonny Boy”. No ano seguinte lançaram seu mais recente trabalho, o maravilhoso Clube Secreto do Corte de Cabelo (2018, DoSol) mantendo a pegada e a selvageria que lhes são característicos, mas em um notório ganho de maturidade. Trazendo grandes composições como “Psychomotoqueiro”, “Foda-se, Ninguém Vai Me Amar” e “Richard Ramirez”. A banda tocou em grandes festivais independentes nacionais como o DoSol e o Bananada e segue sujando de forma divertida e qualificada a cena punk alternativa nacional. Seguimos todos vacinados com o punk José. Vida longa ao punk potiguar, vida eterna ao punk nacional.

Fetuttines

O duo potiguar possui dois discos de estúdio, Vinho (2018, DoSol) e o belo Impossível Só (2016, DoSol), registro da capacidade e abrangência musical dessa dupla, presente em várias listas de melhores do ano em 2016, inclusive na nossa. Dupla formada por Anderson Foca, líder da DoSol e também membro da espetacular Camarones Orquestra Guitarristica, citada acima, e Luis Gadelha, musico excepcional que entre outros trabalhos é membro do Talma & Gadelha. O Fetuttines traz um som identificado, minimalista e eletrônico, moderno e lindo. As composições são sutis e ao mesmo tempo rebuscadas, as partes de música eletrônica são colocadas com cuidado, compondo com letras fáceis e tocantes excelentes canções. Esperamos que o Fetuttines volte a surpreender positivamente como em Impossível Só, disco de uma sutileza, suavidade e inventividade que pouco se vê. Um duo com uma identidade musical fenomenal, característica e que foge da normalidade.

Talma & Gadelha

Dizer que Talma & Gadelha só fala de amor é diminuir o que a banda faz, ela faz poesia, onde o maior assunto é sim o amor. Mas ele vem de diversas formas, sob diversos subtemas inerentes ao amor. Em uma ida a praia, em histórias de relacionamentos duradouros ou mesmo que não deram certo, como uma criança e seu brinquedo preferido, mas sempre transcendendo o seu maior sentimento ali, o tal do amor. Seja versando sobre sua morte, como no seu primeiro disco, Matando o Amor (2015), seja com a sutileza e bela sobre o qual ele é cantado através de fabulas cotidianescas nos dois trabalhos seguintes e melhores registro da banda, Maiô (2013) e Mira (2015), ou como um poderoso ato contemporâneo de resistir e ressurgir no mais recente registro, Marfim (2018). Todos os discos lançados pelo selo DoSol. A banda surgiu como quinteto, liderada por dois dos mais incansáveis nomes da cena potiguar, Luis Gadelha e Simona Talma. Junto deles hoje, após algumas mudanças na formação, estão outros três músicos inquietos e grandes nomes da cena, Ana Morena, Thiago Andrade e Yves Fernandes. Da morte ao ressurgimento, de um jeito ou de outro, é possível que no fim, tudo o que tenhamos ou o que essencialmente nos falte, seja o amor. E por isso Talma & Gadelha faz música, por amor, ou pela falta dele.

Bex

Bex é o álter ego musical de Rebeca Gibson, cantora e multi-instrumentista carioca radicada em Natal. Ela lançou esse ano o seu primeiro disco, o maravilhoso Clocking Days (Independente) facilmente um dos melhores discos nacionais do ano, que também está na nossa lista de melhores de 2019. Bex faz um som cheio de camadas, eletrônico experimental alternativo, com um vocal melódico, arrastado, por vezes melancólico, sempre muito correto e bonito. Um eletrônico moderno que carrega na sua estética subgêneros da própria música eletrônica, como house e dub, e de hip hop e urban jazz. No disco Rebeca é responsável por todos os instrumentos e vocal. Uma joia a surgir no Rio Grande, artista inventiva e nada comum, com um som moderno, que traz consigo a dualidade de ser complexo e simples ao mesmo tempo, pessoal e contemplativo, repleto de alternâncias espertas e possíveis leituras. Se de cara ela já fez assim, a gente pode sim esperar por muito mais.

Koogu

O Koogu é uma das experiências sonoras mais criativas dentro da potente cena potiguar. O trio de Natal é formado por Henrique Geladeira, Daniel Graça e Gustavo Rocha. Juntos eles fazem um som difícil de rotular. Rock instrumental cheio de nuances e com várias camadas inventivas que conferem a personalidade e originalidade sonora à banda. Aliados a baixo, bateria e guitarra, eles usam sintetizadores, órgão, samples enérgicos, pads eletrônicos e muita euforia. Assim fazem música que nos leva convidativamente em um passeio por paisagens sonoras construídas em saturno ou na chapada diamantina, onde gravaram esse ano o clipe de “A Espera da Shuva”, seu maior single, lançada no ótimo EP de mesmo nome em 2015. A banda também lançou esse ano o disco Telesterion (Tratore), cinco músicas que explodem o horizonte musical do trio. Com beats graciosos, tempos tortos e absurdas distorções. Nele, colaboram nomes como Luísa Nascim, Teago Oliveira e Felipe Cordeiro. Uma banda que com menos de cinco anos de vida já faz coisas tão grandiosas e originais. Mais uma preciosidade da música potiguar, mais um grande trio da música brazuca.

Mahmed

Responsável por um dos grandes discos da música brasileira nos últimos anos, o manso e reflexivo Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava Records), a banda é como eles mesmos dizem: “quatro caras fazendo música”, mas sim, é muito mais que isso. É mais um grande nome da música instrumental (ou quase instrumental) desse país, mas sem ser apenas mais um. O quarteto formado por Dimetrius Ferreira (guitarra e violão), Walter Nazário (guitarra, violão e sintetizadores), Ian Medeiros (bateria) e Leandro Menezes (baixo), encontrou paz ao fazer seu som e transmite essa paz na forma de um som dedicado, delicado e espiritual. O já citado primeiro disco da banda é um recital, inspirador pois é feito por seres inspirados que através de alguns riffs honestos, uma bateria aconchegante e melodias com gosto de chuva transparecem sentimentos diversos onde a conexão se faz de forma imediata. No seu segundo e mais recente produto, uma mudança de direção estética assume o comando. Sinto Muito (2018, Balaclava Records) é um verdadeiro labirinto musical que se constrói a cada novo segundo e fica maior e mais complexo a cada nova faixa. Post-rock/dream-pop jazzístico alternativo que parece caminhar por um bosque no outono. Um disco que é um passeio por curtas curvas sonoras, cheio de recortes que se montam em um quebra-cabeças instrumental de dez mil peças. O Mahmed é para ouvidos atentos e corações abertos, é para gente disposta ou que precisa de disposição, é a calmaria que muitas vezes se busca dentro da nossa, quase sempre, superficial vida em comunidade pós-moderna, pela qual sentimos muito. É tomar um sorvete sem sujar as mãos ao olhar para o horizonte. É a prova de que música é sentimento, de que música é poesia, ainda que para isso pouquíssimas palavras precisem ser ditas, e quando ditas, são ditas com uma inacreditável sutileza.