“Farda, Fardão, Camisola de Dormir” necessita uma atenção esmerosa, não pelo fato de que seja a leitura sugerida pelo desafortunado escritor dessa prosa, mas é que ela tem algo que pode nos alimentar em épocas tais como a dos tresloucados anos que vieram desde 2013 até esses pandêmicos 2020, em que se carece de vitaminas para lucidez. Ou se pensar com mais cuidado, talvez não seja 2013, mas 1964 ou 1937, em que se legitimara o fascismo, talvez seja até em outra época mais antiga.

O livro se passa no período da segunda guerra mundial em que se tem no Brasil a ditadura do Estado Novo de Vargas e na Europa, o fascismo se entumecendo e fazendo com que Vargas flerte com ele e, aqui, começa a surgir os Integralistas, aparecem passeatas ao som de Heil Hitler nas bocas dos sulistas, dos que se sentem arianos puríssimos. O fascismo então começou a se entumecer até na Academia Brasileira de Letras.

No livro se tem exatamente isso como temática, a realidade sendo governada por tiranos dos que buscam a todo tempo, encontrar um modo de dominar ideologicamente a sociedade para garantir o seu conforto e dos seus amiguinhos fascistinhas. A realidade nos ensina que quando isso acontece é quando ele pode iludir os que o apoiam tal como um cafajeste galanteador o faz, só para conseguir um noite de um deleite vazio como se ele estivesse perdidamente apaixonado e depois descartar a moça vilipendiada.

O livro nos dá um personagem cômico de um coronel todo estourado que quer falar o que pensa e tudo na palma da mão. É declaradamente fascista, glorifica Hitler e o eleva como salvador da pátria e faz de seu ideal o salvador de todas as outras pátrias, quem não estiver de acordo, que seja devidamente punido. Ele é um dos muitos que se sentem impotentes e inferiores que querem provar a si mesmos que não o são, dos que necessitam de autoafirmação e rebaixar alguém que pareça merecedor de desprezo ou algo assim. Então decide entrar para Academia de Letras.

Essas pessoas como ele, são muito tristes. Sofreram e têm, com certeza, algo não resolvido psicologicamente e não buscam resolver os seus problemas, acumulando-os até que algo apareça como a oportunidade de externalizar isso tudo que carregam.

Alguns procuram os livros como algo para serem dignos da nobreza que lhes faltam, quando começam a ler tornam-se esnobes com a sensação de serem cultos. Esnobe é um indivíduo desprovido de nobreza e por não a ter, refugia-se naquilo que o faça transparecer que seja nobre e quer chamar a atenção dos que lhe aprouver, mostrando que são superiores. O problema é que a nobreza deixa de ser algo como uma virtude grandiosa e passa a ser tirania, então se é possível ver esnobes tratando todo mundo como vassalo, com exceção aos outros nobres, é claro.

Esse personagem do livro é exatamente assim, ele começou a ler e viu que há de fato uma imagem de alguém culto, a imagem do erudito que é superior a todos, essa imagem é a que os conservadores alimentam. A fantasia culta desses esnobes, ele começou a adotar para si. Começou a escrever no fulgor da vaidade e a crítica foi como que unanime, ao dizer que aqueles escritos eram um desperdício de folhas, tamanha era porcaria nas páginas. No entanto, tinha outros esnobes como ele que gostavam. Daí morre um grandioso poeta (não é spoiler, juro), de fato culto porque quem o de fato é, não precisa ficar mostrando para toda gente. Esse poeta era boêmio e gozava a vida na tranquilidade dele, até que começou a entender a dimensão do fascismo e fez um canto exaltando esperança humanística e foi morto com a invasão da Alemanha na cidade de Paris, cidade que louvava e morreu o fazendo.

É um livro danado que ao mesmo tempo que é tão cômico, é tristemente pesado, tamanha são as elucidações do fascismo. Ele escreveu na década de 70. O Brasil estava em uma ditadura sanguinária, que tirou incontáveis vidas, no cadafalso das praias brasileiras, despejando-as em alto mar e entre outros modos. Deixando desaparecidos vários pais, irmãos, filhos, maridos, das famílias brasileiras, e tem muita gente na grande ilusão de que era uma maravilha aquela época em que não se tinha liberdade de expressão, a economia e a política era uma bagunça que até hodiernamente é engazopadora. O Brasil é o país das quimeras!

Em plena ditadura Jorge Amado teve a coragem de escrever um livro sobre uma ditadura que também torturou, perseguiu e calou. A coragem fica ainda maior se lembrarmos que Jorge viu seus livros serem queimados pelo governo militar brasileiro.

Por fim, se seja dito que se louve as artes, como é feita com a literatura nesse livro de que vos falo, já dizendo que a literatura não é lugar para reinar o fascismo e que não se reine em algures também.