Não dá mais para odiar sertanejo universitário como odiávamos antigamente. Isto é fato. O mundo mudou e a patrulha moral da época dos nossos pais e avós – que antigamente tentava proibir a mini-saia e a guitarra elétrica, respectivamente – agora voltou com tudo e com novos problemas. 

Por conta disso é que criticar sertanejo (vejam só, logo o ritmo bolsonarista!) se tornou sinônimo de preconceito musical. Então, já que sou brasileiro, como diz o Lenine, vou tentar fazer a coisa bem embasada e explicar tintim por tintim porque considero que o  tal do sertanejo universitário é um ritmo que oferece muito pouco a música brasileira.

Não vou entrar na seara do ad hominem para falar de música. Gosto é subjetivo, mas qualidade definitivamente não é. Neste momento em que as lives dos cantores sertanejos explodiram na internet é ainda mais importante deixar bem claro a construção social, cultural e industrial em torno deste ritmo.

É importante explorar seus significados e seus efeitos. Mas criticar sem entrar na onda de argumentos reducionistas. Argumentos que colocam o “eu” ouvinte de MPB ou rock superior ao “outro” ouvinte de sertanejo universitário. A questão aqui é diferente. 

Sertanejo Kroton

Primeiro vamos definir o que é o sertanejo que ouvimos hoje. Pois bem: o sertanejo universitário é um subproduto do sertanejo romântico que nasceu e se proliferou nas metrópoles regionais do Brasil central, em meados de 2003. Nasceu nos barzinhos frequentados pela juventude. Uma juventude que era diversa e que tinha de um lado membros provenientes da classe média e de outro lado integrantes que são netos ou filhos de ex-moradores do campo exilados pelo latifúndio. 

A melhor forma de entender o sertanejo universitário é usar a mesma figura de linguagem que utilizaram para denominá-lo. Afinal, o que seria este universitário? Do ponto de vista da qualidade, este sertanejo é muito próximo do subproduto de ensino produzido pelos grandes conglomerados educacionais de grupos como Kroton, uma rede de universidades que vende educação superior como quem vende alface. Para entender o sertanejo é preciso admitir que ele é também algo econômico e social. É preciso entender classes mais baixas que tiveram acesso a uma sub-educação ao mesmo tempo e proporção em que tiveram acesso a esta subcultura.

Os fiadores e produtores do sertanejo Kroton são muito espertos. São iguaizinhos aos ruralistas que dizem que produzem “alimento” para justificar a produção massiva de ração e outros produtos inúteis para o brasileiro que vive no Cerrado. E pior: dizem que são raiz. Nunca foram raiz. São resultados de uma urbanização e de uma roça que foi transformada em grandes desertos verdes de lavoura e de soja. Os aviões pulverizadores e as colheitadeiras nos tiraram Tonico e Tinoco e nos deram, em troca,  Fernando e Sorocaba.

Fernando (ou Sorocaba?) tentando laçar um cavalo em pose para lançar o álbum “Sou do Interior”. Foto: Divulgação.

Vejam bem: não quero expressar, com isso, nenhuma nostalgia pelo passado que não vivi (que aliás é exatamente isso o que os amantes do sertanejo kroton fazem quando evocam todo um inventário cultural contido em expressões como “modão”). Quero dizer, na verdade, que saímos de uma cultura sertaneja elaborada, bela e extremamente subjetiva para chegarmos a um ritmo que, para alcançar o máximo de pessoas, destrói toda a beleza do que é peculiar ao sertanejo.

Chico César já sabia disso e foi muito certeiro quando cantou, na música “Odeio Rodeio”, os seguintes versos: “É bom pro mercado de disco e de gado, laranja e trator/Mas quem corta a cana não pega na grana, não vê nem a cor”. Ele foi exato! Chico só errou quando admitiu que o sentimento de ódio pelo sertanejo Kroton seja fruto de “preconceito”. Não é. E seus próprios versos explicam o porquê. 

Incluídos da pior forma possível

Alguns estudiosos dizem que a música sertaneja tem quatro fases: de 1929 a 1944 é o período da música caipira (ou sertanejo raiz); do pós-guerra até a década de 1980 funciona como uma evolução da velha música raiz para o gênero sertanejo menos tradicional; e deste período até o início dos anos 2000 como música “sertaneja romântica”. Não há dúvida que deste sertanejo romântico chegamos ao atual “universitário”. É evolução, mas no sentido biológico. Porque há evolução que nos leva a extinção também. 

Este desenvolvimento é estranho  porque a medida que o sertanejo universitário vai crescendo ele apaga e monopliza tudo que é diversidade, tudo que é real, popular, vivo, feroz, pujante. Exemplo disso é que em 2009 o cantor e compositor tocantinense Juraildes da Cruz, meu conterrâneo, ganhou o Prêmio da Música Brasileira. Mas a maior referência musical para muitos tocantinenses é a dupla Henrique e Juliano. 

Tem gente que insiste em dizer que criticar sertanejo universitário é ser preconceituoso musicalmente e menosprezar classes mais baixas. Muito pelo contrário: odeio sertanejo justamente porque desejo que estas classes não sejam submetidas a um processo de inclusão social e cultural que tem como base justamente o preconceito. Ora, a indústria cultural e os grandes conglomerados de mídia só aceitaram o sertanejo quando ele deixou de ser caipira e, portanto, deixou de ser sertanejo.

O pesquisador Walter de Souza conta no livro “Música Inviolada” que o sertanejo romântico, pai do universitário, foi utilizado por adolescentes nascidos no êxodo rural como forma de integração social e, por conta disso, associaram elementos do Country norte-americano. 

O caipira Quim (Adilson Barros), em A Marvada Carne, ruma para São Paulo para realizar seu sonho: comer carne de boi.

“No panorama da globalização os elementos da cultura são apropriados pela classe de excluídos, que veem neles uma possibilidade de socialização”, diz o autor. É muito interessante, aliás, pensar que os produtores do sertanejo Kroton foram muito inteligentes quando aplicaram o sobrenome “universitário” no título do ritmo.

Forçaram com isso o mesmo processo de distanciamento do sertanejo romântico, descrito por Walter de Souza. O simbolismo do ato de classificar como “universitário” corresponde a dizer para o público: “Olha lá, gente, eles agora têm ensino superior, vestem-se bem, conhecem frutos do mar e não são como o caipira de A Marvada Carne”.  

Monocultura

O sertanejo universitário se faz de popular para ter sua estultícia aceita. Ele sabe que, se não apelar pelo gosto do público, não vai conseguir ser admitido como ideia ou conceito porque é artificial. E isso tem dado certo, cada dia menos pessoas criticam o ritmo: Lulu Santos, Nelson Motta e Zuza Homem de Mello foram se calando ou pararam de falar aos poucos e a medida que eram criticados quando falavam. 

Mas o sertanejo Kroton nunca foi popular. Ele cobra caro por ingressos em shows de baixíssima qualidade e ainda por cima toma o lugar de muitos ritmos regionais. Seu discurso é de riqueza, mas de uma riqueza bolsonarista: burra, latifundiária e de extremo mal gosto. 

A falácia de que é “popular” permite que este ritmo tome o lugar de tudo aquilo que até sua chegada era realmente popular. No Pará o sertanejo universitário vai arrancando o palco da Guitarrada. Em Cuiabá as rádios não tocam mais Lambadão ou Rasqueado. No nordeste o Forró vai se transformando em cópia do ritmo krotoniano. 

O sertanejo Kroton é a Bossa Nova dos tolos. Eu explico: a Bossa Nova, quando nasceu, passou a ser o coqueluche dos brasileiros que adoravam como eram vistos no exterior por conta do ritmo. Era a música da elite, do brasileiro cordial. Replico aqui críticas do rockeiro Lobão: 

“O problema do brasileiro é achar que ser brocha é ser brasileiro, nós somos o povo mais violento do mundo…”, dizia. A crítica pode ser naturalmente aplicada no sertanejo, meus amigos. Não estou falando aqui do desempenho sexual de nenhum cantor – apesar de que, a julgar pela narrativa de tantas traições – é bem provável que um diagnóstico de ejaculação precoce ou disfunção erétil nos livraria de ter que ouvir muita letra de música merda.

Falo da forma como o sertanejo e a Bossa Nova gostavam de ser vistos. Vejam que desde Michel Teló no exterior o ritmo passou a ser também um produto de exportação, como a Bossa Nova. E, também como a Bossa Nova, é uma constante exaltação da fraqueza do espírito. Versos de dar arrepios em Nietzsche, que tanto adorava o “sujeito ativo” e que, pelo menos na arte, não poderia ser substituído por um perfil de sofrimento do cidadão médio que acabou de descobrir que é corno. 

Tom Zé ironizou a reação a Bossa Nova na música “Vaia de bêbado não vale”. Nela o músico baiano zomba do fato de que o ritmo mudou a forma como estrangeiros viam o país, que antes só “exportava matéria-prima”. 

“Com a bossa nova, exportava arte

O grau mais alto da capacidade humana

E a Europa, assombrada:

‘Que povinho audacioso’

‘Que povo civilizado’”

Qualquer comparação com a reação do sudeste diante da música sertaneja é puro paralelismo tosco e anacronismo da minha parte. Mas eu faço mesmo assim: tal qual João Gilberto, Zezé di Camargo fez parecer que havia vida e seres humanos nesta porção de Brasil até então negligenciada pelas emissoras de rádio e TV. Havia gente e não só gado. 

Vejam só: o título da canção de Tom Zé é uma referência a reação de João Gilberto a vaias durante um show em 1999. No mesmo show, Caetano Veloso intercedeu para defender o mestre. Mas a verdade é que, ao contrário do que diz o “mestre”, vaia de bêbado vale sim. Vai de bêbado vale para a Bossa Nova, para o sertanejo, para qualquer músico ou cantor que insista no irreal.  

Faço essa comparação admitidamente tosca com a Bossa Nova (não gosto do ritmo, mas reconheço a qualidade artística de todos que o integram, sem poder dizer o mesmo da música krotoniana) porque, ao que parece, qualquer um que ouse criticar sertanejo recebe o adesivo de cult.

É uma estratégia muito útil porque, como dizia Mamonas, é uma faca de dois legumes: de um lado, exime o criticado de se sentir menos burro consigo mesmo e de outro eleva o oponente a um patamar de arrogância.

O problema é que a raiz dessa ideia é justamente a raiz do preconceito. A ideia de que o erudito e o popular não combinam (alô Nelson Cavaquinho, alô Mercedes Sosa, alô Belchior…) é o que tira do popular o peso de oferecer qualidade, de ser artístico, de ser belo e não só de ser algo que grude nos ouvidos.

Por uma música do Cerrado

Parece complexo substituir o sertanejo e encontrar alternativas ao monoritmo e a monocultura que avança sobre o Cerrado brasileiro. Quem faz música que não seja sertaneja em lugares como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e outros estados sabe bem como é.

E, além disso, ritmos regionais foram verdadeiramente engolidos, como já disse. Fazendo um exercício de resgate é possível dizer que, se o contexto fosse outro, se a pressão da indústria musical não existisse, teríamos encontrado maneiras de dialogar com o tradicional da mesma forma que o Manguebeat conseguiu em Pernambuco.

E aí então teríamos inventado linguagens musicais profundamente inteligentes e populares, capazes de dialogar com o rasqueado, a catira, o cururu e outros ritmos do Cerrado tal qual Chico Science e sua turma souberam dialogar com o maracatu.

Em algum momento vamos nos debruçar sobre todas estas ideias e pensar: que música queremos? De qual arte musical gostaríamos de nos orgulhar?