Listamos as melhores séries estreantes, as melhores produções televisivas e do streaming mundial lançadas em 2019. São 13 ótimas séries, nos mais diferentes formatos e gêneros, abordando os mais diferentes temas. Mais um bom ano para as produções seriadas mundo afora. Confere aí!

There’s no space for sitcons here!

1 – After Life (Netflix)

Bonita, sincera, romântica, sarcástica e até mesmo triste. Características de uma das melhores comédias dos últimos anos. Sim, mesmo com todas essas características, acima de tudo, uma ótima comédia. After Life acompanha Tony (Rick Gervais) um jornalista que perdeu sua esposa para um câncer e agora vive em depressão, com pensamentos constantes de suicídio, que despreza a sociedade e que mudou completamente seu modo de vida. Estamos falando de uma comédia, por isso ela é tão genial. O novo olhar de Tony para o mundo e a forma como agora ele lida com seu dia a dia são os grandes responsáveis pelo humor sagaz da série. Ele antes era feliz e engraçado, agora ele é engraçado de forma ácida, é engraçado por não mais se importar com nada nem ninguém além de sua cadela de estimação. Todas as interações pessoais de Tony levam ao humor sarcástico e por vezes vil da série. Ponto alto da linguagem humorística da produção. Tony faz o espectador sorrir interagindo rápido com o carteiro, com uma “sex worker” que acaba virando sua faxineira e potencialmente uma nova amiga, com os colegas de trabalho, com seu sobrinho, com seu pai. Qualquer interação do personagem principal que permita que ele derrame seu divertido sarcasmo, vira uma ótima piada. E são vários desses momentos. Um óbvio destaque para a atuação de Ricky e também para a ótima trilha sonora.

Tony sempre se encontra no cemitério com Anne (Penelope Wilton) uma viúva que está frequentemente visitando o túmulo de seu esposo que está enterrado ao lado de Julian, esposa de Tony. E esses diálogos são os principais motivos para a serie também carregar o adjetivo de bonita. São apenas seis episódios com menos de 30 minutos. Primeira temporada divertida, com um formato dinâmico, repleta de ensinamentos, de questões contemplativas, repleta de um sarcasmo divertido e muito humor.

O “sorridente” Tony vivido por Ricky Gervais em After Life.
Fonte: Netflix/Divulgação


2 – The Boys (Amazon Prime Video)

Definitivamente um grande ano para o streaming da Amazon. Junto com a consolidação e premiação de produções iniciadas em anos anteriores, veio o lançamento de ótimas primeiras temporadas e um grande número de novos assinantes. Uma das mais comentadas foi The Boys. E se falou muito nela com razão, bela temporada. Adaptação dos quadrinhos de Garth Ennis, foi idealizada e trazida as telas por um time de peso. Seth Rogen e Evan Goldberg, que já haviam trabalhado juntos em Preacher, outra adaptação de Ennis para tv, se juntaram a Erick Kripke, de Supernatural, para conceber The Boys. A trama acompanha Hughie Campbell (Jack Quaid), um jovem que perde sua namorada em um atropelamento bizarro envolvendo um herói velocista. Hughie não encontra meios legais de justiça, pois o sistema protege os heróis, e por isso se junta a Billy Butcher (Karl Urban), que também odeia os heróis e oferece parceria em busca de vingança.

A produção é a distopia brutal do universo de super-heróis como conhecemos, por isso ela se destaca. A série de certa forma desmascara os heróis os colocando como seres que são secretamente desprezíveis, viciados em poder, drogas e prostituição, machistas e que abusam de seus poderes e influência apenas para o ganho pessoal, nada altruísta como historicamente é contado. Ou no caso aqui, apenas sendo produtos de uma grande corporação, a Vough, empresa que agencia os principais heróis, a espécie de liga da justiça da história, e que com eles faturam trilhões por ano, com marketing e venda de produtos, e por isso usam de seu dinheiro e influência para desmascarar a verdade sobre eles.

Outro ponto alto da produção é a quantidade e qualidade na violência gráfica explícita. Efeitos impecáveis. Com o mundo sob mando e desmando das indústrias Vough e seus heróis, Hughie e Butcher, injustiçados no sistema, formam uma equipe para fazer justiça, junto a eles o Francês (Tomer Capon), a “Fêmea” (Karen Fukuhara), uma moça com poderes que eles encontram em uma de suas empreitadas, e um antigo conhecido de Butcher, Mother’s Milk (Laz Alonso) e rapidamente a trama ganha força e se faz envolvente. Da improvável união dos cinco, formam-se “The Boys”. A trama evolui em um ritmo muito acertado e desenvolve nesse bom ritmo seus personagens e arcos secundários. Como a relação de Hughie com a Starligth, ou Ennie, a mais nova heroína da Vough, brilhantemente interpretada por Eryn Moriaty, a confusa e simpática relação entre a Fêmea e o Francês, os dramas de Queen Maeve (Dominique McElligott) ou o passado de Butcher que alimenta o ódio dele pelos heróis, além de todas as histórias pessoais dos heróis Vough, principalmente a de Homelander (Antony Starr). História original, a figura do super-herói desmistificada, ótimos efeitos, bons plot twists, e sim, muita brutalidade e violência sem perder o foco na narrativa envolvente. Grande temporada.

O quinteto excêntrico que forma The Boys
Fonte: Amazon/Divulgação


3 – Chernobyl – minissérie (HBO)

Chuva (ácida ou não) de indicações nas mais diversas premiações mundo afora, ótima repercussão, e tudo isso, lógico, graças à um ótimo produto. Não por acaso a melhor minissérie do ano. Chernobyl narra com primor os eventos que antecederam e a continuidade dos fatos após a explosão em um dos reatores da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. O faz com a tensão e o drama necessários. Traz a luz e dá face a personagens importantes nessa história sobre os quais pouco se fala ou mesmo se sabe. O primeiro resgate, o combate as primeiras chamas, a noite dos operadores da usina no momento da explosão, os trabalhadores atingidos pela radiação e suas famílias. Um drama denso, e infelizmente verdadeiro demais. A minissérie personifica a tragédia como nunca antes se havia feito. E essa é a sua principal qualidade. E detalha muito bem o desastre, mas ganha força principalmente ao detalhar como foram os dias seguintes, com foco na solução do caos instaurado e nas investigações dos verdadeiros culpados.

A produção carrega três grandes e principais méritos. O primeiro vem da forma com que se apresentam os personagens principais e como eles se desenvolvem, pois não faz de forma caricata a representação soviética da época apesar de ser uma produção americana, narrando a história daquele que foi o maior evento ocorrido durante os anos de guerra fria e, no fim das contas, apresenta de forma mais iluminada os heróis na tragédia que os vilões responsáveis por ela. O segundo vem das atuações, irretocáveis. Especialmente da dupla de detetives Boris Shcherbina e Valery Legasov, vividos por Stellan Skarsgard e Jared Harris e da astuciosa cientista Ulana Khomyuk, personagem de Emily Watson. Por fim, aquele que talvez seja o maior mérito da produção, o formato. São apenas cinco episódios com quase uma hora cada, e nesse formato o roteiro é desenhado para que a cada novo episódio novos fatos e eventos sejam descobertos e a história por trás destes se desenrole, avançando na narrativa em um ritmo didático e nada cansativo, para que no último episódio um círculo perfeito se feche, se conectando com o primeiro ao detalhar as ações de cada um dos indivíduos presentes na usina na noite da explosão. Cinco episódios e uma obra completa, capaz de receber com razão todos os superlativos positivos dirigidos a ela.

Boris (Stellan), Valery (Jared) e Ulana (Emily) em Chernobyl
Fonte: HBO/Divulgação


4 – Raising Dion (Netflix)

Adaptação do HQ de Dennis Liu, Raising Dion acompanha o jovem Dion (Ja’Siah Young) que de forma misteriosa adquiriu uma série de poderes que, além de não saber de onde vem, ele não sabe como controlar. Ele vive com sua mãe Nicole (Alisha Wainwright) que passa por um momento de turbulência, mudando de cidade, a procura de um novo emprego, tudo devido morte de seu marido e pai de Dion, o cientista Mark (Michael B. Jordan). Com a já conturbada vida dos dois, o surgimento dos poderes de Dion, atribulam mais ainda suas vidas. Na forma de uma figura paternal, Pat (Jason Ritter) ex companheiro de trabalho de Mark, tenta ajudar os dois como pode, inclusive tentado saber mais sobre os poderes de Dion. A trama ganha força quando um vilão entra em cena, uma figura humana formada por raios começa aparecer e aterrorizar Dion. Além do “homem-raio”, a organização científica onde Mark trabalhava e Pat ainda trabalha surge como mais um possível perigo a Dion.

Um personagem principal infantil gera boas e divertidas cenas, seja se divertindo com seus novos poderes, como fazendo levitar biscoitos e os levando para o seu quarto, mas especialmente quando interage com sua amiga Esperanza (Sammi Haney). Nicole tem seus próprios dramas, a falta de Mark, um emprego novo, a relação conturbada com Pat, as dificuldades de uma mãe solteira de um filho negro e que agora tem que lidar também com os superpoderes dele. Apesar de alguns pontos frágeis no roteiro e um plot twist previsível, aspectos que podem ser facilmente melhorados nas próximas temporadas, a temporada de estreia se destaca fugindo da obviedade provocada pela avalanche de produções nos temas herói/super-herói. É algo diferente, capaz de entreter e de prender facilmente o espectador.

Dion (Ja’Siah) diante de seu aterrorizante vilão
Fonte: Netflix/Divulgação


5 – Pico da Neblina (HBO Latin America)

Produção brasileira para a HBO Latin America é um espanto de qualidade. Já falamos dela aqui. Pico da Neblina se passa em um Brasil ficcional onde a maconha agora é legalizada e acompanha Biriba (Luis Navarro) um traficante que trabalha de forma diferente, mais cuidadosa com seus clientes e seu produto, e que agora se junta a um desses clientes, Vini (Daniel Furlan) para abrirem uma loja onde se comercializa produtos relacionados ao consumo de maconha, incluindo a própria erva. Biriba então deixa a biqueira de onde ele pegava seu estoque, deixa de trabalhar com seu amigo Salim (Henrique Santana) para então entrar para o mundo legal do comércio canábico, enquanto Salim permanece no tráfico. Antes de sair da ilegalidade Biriba é convencido por Salim a fazer um certo serviço para o tráfico, mas as coisas fogem do seu controle e então a trama começa ganhar camadas de tensão e suspense. A produção carrega méritos diversos, desde atuações sinceras e bons efeitos, passando por um ótimo texto, roteiro e montagem dinâmicas e perspicazes, além da direção de Quico Meirelles. Mas tem um principal mérito na originalidade, no tema central que ela aborda, um tema a atual sobre o qual a discussão é necessária. Deixando claro a necessidade de se discutir o assunto, mas sem tomar partido na discussão.

A série faz muito bem a caracterização de um traficante afastada de todos os clichês que essa caracterização já apresentou em outras produções nacionais, ela o faz de forma mais leve, tocando em suas questões pessoais e sociais, longe de tudo que já vimos quando se trata de jovem negro que convive com o tráfico e com a violência. Uma ótima trama, com personagens secundários bem desenvolvidos e bem conectados a trama central, com bons momentos de humor e muita informação. Os dez episódios da temporada foram ao ar esse ano entre agosto e outubro, sendo transmitidos para mais de 70 países entre EUA, América Latina e Caribe, e alguns países de Europa e África.

Biriba (Luis Navarro) e Salim (Henrique Santana) em Pico da Neblina
Fonte: HBO/Divulgação

6 – Shippados (Globoplay)

A promessa de produções originais de qualidade para o streaming da rede globo começou cedo, mas as principais produções da emissora, aquelas com potencial de emmy, bons roteiros e ótimas atuações, continuaram indo para a TV, tudo bem, até porque essa promessa começou a ser cumprida. Shippados acompanha história de Rita (Tatá Werneck) e Enzo (Eduardo Sterblitch) uma dupla que vive de desencantos amorosos tentando se relacionar com pessoas que encontram em aplicativos de namoro. Até que um dia lhes é sugerido que os dois tentem ficar juntos, algo em comum eles já têm, os desencantos amorosos causados pelo mesmo aplicativo. Tatá é uma das maiores comediantes da sua geração e Edu um dos melhores atores dessa mesma geração, originalmente um ator de teatro que sempre vai bem em outros formatos. É impressionante a facilidade dele para provocar o riso. E assim, os dois são o ponto alto da série. Que se desenrola através deles, mas também conta com um ótimo elenco ao seu lado, especialmente através dos outros dois casais da trama. Brita (Clarisse Falcão) e Valdir (Luis Lobianco) um casal naturalista, que vivem pelados, cheios de pensamentos ensandecidos e que moram com Enzo, e Suzete (Júlia Rabello) e Hélio (Rafael Queiroga), casal clichê que são colegas de trabalho de Rita e Enzo e que eles ajudam a formar. Em meio as questões amorosas do casal principal, sua relação carregada de elementos de uma relação padrão pós-moderna, Rita ainda tenta encontrar seu pai, uma história que agrega muito a atrama e a ajuda a caminhar bem. A série é acima de tudo divertida com vários momentos de romantismo. As tramas se conectam facilmente e o riso vem fácil. Uma ótima produção original brasileira. Que assim continue.

Há que se destacar a maravilhosa trilha sonora, toda nacional. Com Maglore, Céu, Cascadura, O Terno, Thiago Petit, Far From Alaska, Elza Soares, Attoxxa, Ava Rocha, Dingo Bells, clássicos do Los Hermanos e várias outras bandas. O tema de abertura, por exemplo, é a música “Estive” da banda mato-grossense Vanguart, que possui outras sete músicas na temporada.

Enzo (Sterblitch) e Rita (Tatá) literalmente Shippados
Fonte: TV Globo/Divulgação


7 – Good Omens (Amazon Prime Video/BBC)

David Tennant é um dos maiores atores britânicos a aparecer para o mundo nos últimos anos. É o responsável por dar vida ao maior vilão do streaming mundial, o Killgrave de Jessica Jones. E ele mais uma vez acerta. A série é fundamentalmente David, ele é a cara e o espírito da produção. Ele e Michael Sheen, claro. Juntos eles são o demônio Crowley e o anjo Aziraphale. A série é baseada no romance de mesmo nome de Neil Gaiman e Terry Pratchett. Crowley, é a serpente que tentou Eva a saborear a maçã no Eden, e Aziraphale é o anjo responsável por guardar os portões orientais do Paraíso. Eles são amigos de milhares de anos, atuando em vários momentos da história como lhes convém, alguns bem divertidos, existindo em formas humanas e descobrindo que a vida na terra pode sim ser muito boa. Estão juntos desde o início dos tempos, coexistindo em equilíbrio em formas humanas como representantes terrenos das forças do bem e do mal como a bíblia descreve. Crowley é um demônio inconsequente, com atitude rock n’ roll, malandro e que só ouve o Queen, enquanto seu parceiro anjo é apresentado como um ser dócil, inocente, quase infantil. Aí está o principal mérito da produção, a intensa e dinâmica interação entre os dois.

Na série eles tentam juntos impedir o Armagedon, com o eminente florescer e desabrochar do anticristo e a chegada dos quatro cavaleiros do apocalipse. O anticristo por sua vez é apenas um garoto que vive em uma pequena cidade no interior da Inglaterra, lugar para o qual ele não era destinado, um erro no seu nascimento o trocou de lugar e agora a parceria inusitada de Crowley e Aziraphale tentam o encontrar para impedir a destruição total. Além de David e Michael, um elenco estrelado dá vida a obra. A ganhadora do Oscar, Frances McDormand, é a narradora da história através da voz de Deus e Benedict Cumberbatch faz a voz de Satan. Jon Hamm é o burocrata irritante Arcanjo Gabriel. A série consegue levantar de forma bem-humorada e simples questões sobre nossa moral e as consequências do livre arbítrio. São apenas seis episódios de quase uma hora cada. Dinâmica, divertida, empolgante, fácil de se prender.

Aziraphale (Sheen) e Crowley (Tennant), sorvetes e conspirações universais
Fonte: Amazon/Divulgação


8 – Irmãos Freitas (Space)

Podemos dizer facilmente: Uma das melhores produções nacionais seriadas já produzidas. É impressionante como a série não deixa em nada a desejar tecnicamente quando comparada a outras produções dramáticas feitas mundo afora. A série conta a história do começo da carreira de Acelino “Popó” Freitas e de seu irmão Luis Freitas, desde o começo da sua vida como pugilista, quando seu irmão já era um grande campeão, até o primeiro título mundial de Popó. O drama da vida na favela do Ipiranga em Salvador, treinando em uma academia precária, com um pai alcoólatra e uma mãe que foi fundamental na formação pessoal dos dois. A série é principalmente dramática, a ascensão de Popó, que ganha vida a partir da ótima atuação de Daniel Rocha, acontece em paralelo ao começo do definhar como pugilista de seu irmão Luís, que ganha vida de forma brilhante por Rômulo Braga. Além disso, a mãe, dona Zuleica (Edvana Carvalho) vive atormentada por um possível despejo além de ter que lidar com Bibinha (Claudio Jaborandy), seu marido viciado. Problemas físicos de Luís começam a aparecer logo após a separação da dupla “Freitas Brothers”, que já havia feito sucesso internacional, sendo agora só Popó patrocinado por um empresário local. Além de todas as questões ligadas a vida em favelas no Brasil. Nenhuma infraestrutura, amigos envolvidos com os chefes do morro, repressão policial, pobreza. O mote para a trama é a história de amor e rivalidade criada entre os dois irmãos, um já campeão e primeiro pugilista da família, o outro ganhando seu espaço, tendo sido praticamente criado como lutador por seu irmão mais velho e rumo aos seis títulos mundiais que Popó veio a conquistar.

Uma montagem dinâmica especialmente nas cenas de luta, por vezes colocando os irmãos em contraponto na mesma cena, conferem um caráter dramático mesmo em momentos de ação. Fotografia impecável em uma Salvador maravilhosa. A série também teve locações em São Paulo, Liverpool em Miami e na França. Ótima trilha sonora, cheia de sons da Bahia e muita Baianasystem. Atuações irrepreensíveis, efeitos acertados, roteiro eficaz e uma produção nacional que eleva o nível das produções tupiniquins e que muito merece ser apreciada.

Os irmãos Freitas, Popó (Daniel) e Luis (Rômulo) em um enfrentamento tenso
Fonte: Gullane e Space/Divulgação

9 – Euphoria (HBO)

Não iremos falar sobre a maquiagem. Ela é muito mais que isso. Porém, Euphoria é sim mais um drama adolescente e por isso não foge dos temas clichês inerentes a qualquer produção do tipo: sexo, drogas, gravidez, aborto, bullyng, descoberta de sexualidade, conflitos familiares. Por isso, por exemplo, o paralelo com Skins não é difícil de ser feito. O sobressalto da obra está na parte técnica fundamental para a produção, que sabe ser sombria e colorida na medida, por ser muito mais enfática e profunda nas questões que lhe são inerentes citadas acima e nas atuações teatrais fenomenais. Especialmente em Zendaya, que dá vida de forma visceral a personagem principal Rue, uma adolescente problemática, viciada, antissocial e que acaba de sair de uma clínica reabilitação após sofrer uma overdose. Cada episódio foca em um personagem a partir da contribuição deste para a trama central, todas boas histórias, que contribuem geral para a obra no seu todo. Seja através do arco narrativo surpreendente e bonito de Cassie (Sidney Sweeney), das descobertas sexuais de Kat (Barbie Ferreira, atriz que é filha de brasileiros), na bonita complexidade de uma das mais interessantes personagens, Jules (Hunter Schafer) com a qual Rue se relaciona de forma cativante porém endurecida, quase que na forma de um novo vício, ou mesmo no arco sombrio que envolve Maddy (Alexa Demie) e Nate (Jacob Elordi). Todos eles convergindo de alguma forma no arco central da narrativa que é o de Rue.

A obra aqui se distancia de apenas mais um retrato possivelmente irônico e hiper-realista da modernidade juvenil na forma de geração do milênio, coloca os holofotes de forma nuviosa nessa geração sem perder a mão, trata de temas adolescentes, cotidianos e modernos com o linguajar que se espera, com o uso de um aplicativo, violência, banalização da nudez e das relações afetivas cada vez mais efêmeras e irresponsáveis. Diante de todo esse fluxo informação e velocidade com a qual se relaciona, a série é um retrato honesto e tecnicamente poético do jeito que se espera, com a euforia que se faz necessário.

Zendaya brilhantemente dando vida a Rue
Fonte: HBO/Divulgação


10 – Russian Doll (Netflix)

Trama crescente e envolvente, ótimas linhas de piadas e uma excelente atuação de Natasha Lyonne como a personagem principal Nadia Vulvokov. Os principais elementos que nos fazem colocar a série na lista. Essa que segundo a crítica americana é a melhor série do ano. Natasha é também uma das criadoras da série em parceria com Leslye Headland e Amy Phoeler. A obra conta a narra de Nadia a partir da sua festa de aniversário de 36 anos. Ela é uma programadora desbocada, grossa e levemente radical. “Nobody love drugs more than me”. Ao sair da festa ela é atropelada e morre… Pela primeira vez. E é transportada de volta a primeira cena, no lindo banheiro da casa de sua amiga Maxine (Greta Lee) onde sua festa estava acontecendo. Ao tentar lidar com sua morte e o porquê de estar de volta, ele morre outras vezes, nas mais diversas situações e assim o looping começa. Lidar com um tema batido como looping temporal, repetições de cenas e situações de forma não cansativa e maçante para o expectador é sim o desafio. Vencido com louvor por Russian Doll. Lidando com suas primeiras mortes, Nadia apresenta momentos divertidos, e conduz a trama de uma forma hilária, com o humor espinhoso da sua personagem principal, se aproximando do que se espera de uma comédia no tema feitiço temporal. Mas a partir da reviravolta que acontece no terceiro episódio, envolvendo Nadia e Allan (Charlie Barnett) a obra cresce e se mostra muito mais do que se podia esperar até então. Mostra que no fundo ela fala sobre encarar seus medos, enfrentar traumas do passado e que ninguém está sozinho.

Perspicaz trilha sonora, com ótimas canções muito bem colocadas, aclimatando bem as cenas quando assim é necessário. As interações de Nadia são muito eficazes, seja com Allan, com suas amigas Maxine e Lizzy (Rebecca Henderson) ou com seu traficante, gerando boas cenas de comédia, seja com Ruth (Elizabeth Ashley), terapeuta e amiga de Nadia, quando se criam momentos de paz e lucidez dentro de toda essa insanidade. Todos os oito episódios da temporada são dirigidos por mulheres, que trabalham de forma muito consistente. Uma divertida série dramática, que parece ser mais do mesmo, mas tem muito mais poesia e mensagem do que se pode ver logo de cara.

Natasha Lyonne impecável renascendo a todo momento como Nadia Vulvokov
Fonte: Netflix/Divulgação


11 – Years and Years (BBC/HBO)

A narrativa começa em 2019, onde a política é assunto atual e mais relevante que nunca, acompanha personagens de uma família inglesa, os Lyons. Um grupo familiar diverso e peculiar. Tem o irmão gay que se apaixona por um refugiado, a irmã ativista que viaja o mundo em prol de causas sociais, um irmão branco casado com uma negra e que tem uma filha que sonha em ser “trasumana”, a irmã cadeirante que cria sozinha seus filhos um deles de um pai chinês, a mãe desses irmãos já faleceu e o pai há muito deixou a mãe deles para formar outra família, eles sempre estão em contato com sua carinhosa e ao mesmo tempo rabugenta avó. A série avança rápido no tempo fazendo previsões para um futuro distópico, tão catastrófico quando possível. Acompanhando a caminhada na vida política da controversa e polêmica Vivienne Rook, um retrato caricato ainda que real de diversos líderes políticos mundo afora. Como os de França, Brasil, Estados Unidos e Hungria por exemplo. Através da trama a série passa por uma reeleição de Trump em 2020 com um ato de guerra horrendo no final do seu segundo mandato, pela morte de Angela Merkel em 2022, pelo crescente aumento de forças armadas tomando o poder em diversos países, a crescente onda de protestos e manifestações, a disseminação de notícias falsas, o consumo exagerado de internet, resseção econômica em escala global, falência de grandes companhias, o aumento de refugiados.

Os episódios caminham rápido por anos e anos através de diversos temas ligados a geopolítica mundial com algumas previsões pessimistas, mas facilmente visualizáveis a partir do que temos hoje. Sempre acompanhando a família na qual a narrativa se centraliza, que possui seus dramas pessoais, e é através deles que a trama aproxima o expectador de uma ideia de como toda essa mudança no mundo impactaria cidadãos comuns de forma pessoal e individual. Até mesmo o estúpido conceito de terra plana é assunto, simbolizando o contemporâneo processo de imbecilização da raça humana. Tecnicamente é bem concebida, como a maioria dos produtos HBO, que aqui faz parceria com a BBC. Destaque para a trilha que confere o drama necessário nos momentos certos. Em um misto palpável entre ficção e previsões que podem ser aterrorizantes para um futuro não muito distante da nossa história, Years and Years aterroriza sem monstros ou mortes sanguinárias, o terror é real, pois todas as previsões que a série faz, mesmo as mais pessimistas e calamitosas, são sim possíveis. É fato que o mundo não tem dado certo. E o raciocínio da avó no último episódio apontando os culpados por todas as tragédias que aconteceram com a humanidade no últimos anos é absolutamente maravilhoso, pertinente e verdadeiro. O ser humano é passivo diante do caos, ainda que o afete diretamente.

“the human race is getting more stupid right in front our eyes”

Família Lyon reunida, celebrações em meio ao caos e inúmeras tragédias
Fonte: BBC/Divulgação


12 – Undone (Amazon Prime)

Dos mesmos criadores de Bojack Horseman, Katy Purdy e Raphael Bob-Waksberg, Undone é uma comédia dramática feita no estilo de animação. A produção usa a técnica da rotoscopia, que basicamente é o ato de tracejar quadro por quadro as filmagens live-action, com captura de movimentos. A produção também se utiliza de cenários pintados à mão. O que faz com que o visual seja único, especialmente por ser feito com a delicadeza suficiente para não perder as expressões dos atores. A trama tem sua narrativa centrada em Alma (Rosa Salazar), ela leva uma vida simples, com uma cansativa rotina, que envolve seu trabalho, a relação com seu namorado, obrigações familiares, e chega ao ponto de questionar tudo, sua existência e todo esse marasmo. Após uma discussão com sua irmã Becca (Angelique Cabral), Alma sofre um grave acidente automobilístico, causado pelo avistamento de seu pai, Jacob (Bob Odenkirk), falecido há anos. Bob, o controverso advogado Saul, de Better Caul Saul e Breaking Bad, é também um dos produtores da série. Em meio sua crise existencial e saindo de um coma, Jacob passa então a acompanhar Alma, como uma espécie de fantasma, ou um guia nessa nova jornada, pois ela agora adquiriu habilidades peculiares, a capacidade de controlar as barreiras do tempo e sua relatividade. E seu pai agora tenta lhe ensinar como controlar esses poderes, para que ela possa lhe ajudar a solucionar sua morte, ou até mesmo impedi-la.

A trama caminha rapidamente pelo que parecia ser apenas uma crise existencial, passa por um drama familiar, tudo isso flertando com a ficção científica, e que se encerra com uma sutil abordagem psicológica sobre o que é de fato a realidade. Um florescer de bonitas surpresas através de oito episódios de cerca de vinte minutos. A dualidade na interpretação da trama é o que faz dela uma das grandes narrativas do ano. A reconexão de Alma e Jacob, e também de Alma e seu namorado Sam (Siddharth Dhananjay) além de todos os dramas familiares, envolvendo Alma, a irmã e a mãe, levantam o questionamento sobre até que ponto é saudável se deixar vulnerável por conta de amar alguém. Paralelo a isso, a produção também pode ser vista como um drama sobre saúde mental. Sobre como se pode criar sua percepção de realidade e se aprisionar nela, sobre como abrir mão de um equivocado controle que temos sobre nossas vidas, para ser quem realmente é, aceitando ajuda quando preciso, amando sempre que possível e saudável for. Para além disso tudo, ainda fica o maior questionamento sobre o que esta acontecendo com Alma, se ela realmente adquiriu poderes, ou se ela esta doente, fabricando em sua mente tudo o que ela agora vê. História envolvente, com diversas linhas de pensamentos e percepções possíveis sobre a mesma narrativa ampla, bonitas descobertas em uma série que acima de tudo é bonita, seja por conta da técnica de animação escolhida e muito bem empregada, por ótimas atuações, mas acima de tudo por sua abordagem.

Alma (Rosa Salazar) relativizando a realidade em Undone
Fonte: Amazon/Divulgação


13 – When They See Us – minissérie (Netflix)

“They will lie on us, will lock us up. They will kill us!”

Através de apenas quatro episódios de pouco mais de uma hora, a minissérie demonstra como negros não podiam, e ainda hoje não podem estar no lugar errado, na hora errada, quando estão e algo caótico acontece, a culpa é do negro, sem mais. Escrita e dirigida por Ava DuVernay, conhecida por produções que abordam a temática do sistema prisional racista e neopunitivisa americano, como Selma: A Marcha da Liberdade (2014) e o documentário indicado ao Oscar, 13ª Emenda (2016), When They See Us talvez seja o maior feito de Ava. A trama, baseada em fatos reais narra a história conhecida como: O caso dos cinco do Harlem. Em 19 de abril de 1989, Trisha Meili, uma jovem branca, é agredida e violada durante a madrugada no Central Park, o brutal ataque a deixou em coma por doze dias. Essa mesma noite é marcada por vários pequenos delitos de menor expressão causados por cerca de trinta jovens negros arruaceiros nos arredores do parque. Para a polícia e o para o sistema racista, a coisa então ficou simples, escolheram cinco destes e a eles foi atribuído a culpa pelo ataque a Trisha. Antony McCray, Kevin Richardson, Raymond Santana, Yusef Salaam e Korey Wise, negros e latinos com idades entre 14 e 16 anos, são os “escolhidos”, os Central Park Five. A polícia então constrói uma narrativa forçada, após coagir e manipular de forma descabida os cinco jovens, sem a presença de advogados, ou mesmo de seus pais nesses absurdos interrogatórios que duraram mais de quarenta horas. Eles são acusados e quase que instantaneamente condenados sem nenhuma matéria de prova, nenhuma evidência que sequer coloque os jovens no parque na mesma hora do ataque, em uma ode a coerção policial descarada responsável pela montagem do caso e condenação dos garotos. O DNA encontrado no corpo da garota não batia com o de nenhum dos jovens, seus depoimentos foram tomados em um interrogatório exaustivo e irreal, por isso mesmo cheio de furos na história. Eles sequer se conheciam, em comum apenas sua cor. Foi o suficiente.

Os cinco passaram anos presos, uns mais que outros, pois apenas mais de uma década depois o caso só foi desvendado, quando o verdadeiro culpado se confessou. Uma história sobre um caso que está longe de ser uma exceção, cheio de abuso de poder policial, sensacionalismo midiático, violência e racismo. Uma história real que só poderia mesmo acontecer em uma sociedade adoecida por séculos de preconceito. O caso chegou a ser pisado pelo atual esquizofrênico e racista presidente americano, que em maio de 1989 chegou a comprar uma página inteira no Daily News defendendo a volta da pena de morte. Anos mais tarde com a verdade vindo à tona, Trump se recusou a pedir desculpas mantendo a ideia de que os cinco não eram inocentes. Três décadas de fake news por parte dele, aparentemente. Uma trama emocional, dramática e profunda como haveria de ser, com um episódio final que é sem dúvidas um dos melhores do ano, quase todo dedicado ao drama de Korey, vivido de forma impactante por Jharrel Jerome, vencedor do Emmy. Desperta um sentimento de impotência e indignação, ao mesmo tempo que se agarra na bondade e na esperança, mesmo que muitas vezes não haja muito como se ter esses sentimentos. Um balde de água fria, um tapa na cara, que só mesmo um produto, que infelizmente é um retrato hiper-realista, com grandes atuações, ótima montagem e uma narrativa exemplar, é capaz de causar nessa sociedade podre e preconceituosa. Em um mundo justo, seria uma chuva de prêmios para a produção. Mas que ela sirva para mais, sirva para chocar, que sirva de lição e When They See Us é capaz sim disso tudo. Os olhos que condenam estão por toda parte. No Harlem, aqui, em 1989, hoje.

Jharrel brilhando ao interpretar Korey
Fonte: Deadline/Netflix

Menções honrosas: The Family Man (Amazon), See (Apple+), Quicksand (Netflix), The Act (Hulu) e Watchmen (HBO)