Listamos sete preciosidades, sete grandes produtos da tv e do streaming mundial que pelos nossos cálculos e pelos cálculos de audiência mundo afora, não foram apreciadas por tanta gente como elas mereciam, especialmente por aqui. Por serem de canais menores, estarem em horários que conflitavam com produções mais populares, ou por serem produtos de menor orçamento e por isso menor divulgação. Ou por apenas não terem caído no gosto do grande público, mesmo que no caso de algumas, tenham agradado a crítica. A verdade é que elas tem sim a capacidade de fazer sorrir, chorar, de chocar e envolver o espectador na trama, além da qualidade técnica, claro. São séries envolventes e ótimas para maratonar, especialmente nos dias atuais.

RED OAKS

Comédia. Três temporadas (2014-2017) – Amazon Prime Video

Red Oaks foi um dos primeiros produtos originais Prime Video, antes da popularização do streaming da Amazon. A série se passa no subúrbio de New Jersey nos anos 80 e acompanha David Meyers (Craig Roberts), um jovem e frustrado universitário que tenta seguir seus sonho de se tornar diretor enquanto seu pai o tenta fazer seguir seu caminho como contador. 

David então consegue um emprego de assistente de tênis durante suas férias de verão de 1985 no Red Oaks Country Club, e sua vida muda. Novas amizades, novos relacionamentos e novas possibilidades surgem. A série toca em temas ligados à transição da fase de adolescente para a vida adulta, como a necessidade de ter um bom emprego e ser bem sucedido, relacionamentos amorosos, a relação com os pais e a saída de casa, e a difícil manutenção de algumas relações nessa fase de transição.

A série é lindamente bem ambientada nos anos 80, todos os elementos estéticos que remetem à década são colocados com sabedoria e muitas vezes são fundamentais para a trama. O humor é uma constante, mesmo na menor das situações cotidianas, especialmente quando acontecem no clube. Apesar da narrativa fluir através dos nichos da vida de David, família, amigos, namoros, emprego, alguns personagens secundários ganham força com o caminhar dos episódios, o que faz com que a trama cresça.. Red Oaks é comédia, mas com sutis doses de drama, levantando algumas questões realmente importantes.

LOUIE

Comédia. Cinco temporadas (2010-2014) – FX

Comédia para quem adora um humor mais ácido, sem pudor, feita por quem não usa de limites para fazer piada, para quem entende que a vida é a grande piada. E assim, sem rodeios, Louis CK, um dos maiores nomes da comédia americana e um dos nomes históricos na comédia stand up, construiu sua série. E é de fato a série de Louis, ele escreveu, atuou, roteirizou, dirigiu e até mesmo editou alguns episódios em seu computador pessoal. Na série, ele interpreta uma versão ficcional de si mesmo, um comediante nova-iorquino divorciado, pai de duas filhas, e com alguns problemas, muitas vezes graves, mas que são contados de forma sempre muito divertidas.

A série utiliza um formato fora dos padrões convencionais para a televisão, fazendo uso de vinhetas prolongadas, que consiste em diversas narrativas e segmentos diferentes sobre situações da vida de Louie, aparentemente desconexas, mas que são conectadas através de trechos das suas apresentações ao vivo nos shows de stand-up. Como exemplo, diversas situações divertidas acontecem quando Louie passa um tempo com suas filhas, em seguida, temos um trecho dele no palco fazendo piada sobre tais situações.

Um formato surpreendente, inventivo, hilário e funcional, contando a vida de um personagem da vida real, igualmente hilário. Nem Louie, nem o Louis, possuem algum pudor, tudo é motivo para piada, por isso mesmo é uma comédia que funciona, porque o riso é certo.

BETTER THINGS

Comédia/Drama. Quatro temporadas (2016-2020) – FX

Better Things é o tipo de coisa que a gente não imagina que seja necessária, até assistir. Tudo é preciso, todas as sutilezas e detalhes por menores que sejam, são colocados na medida, e são fundamentais. A série acompanha a vida de Sam (Pamela Adlon), como atriz, profissional dedicada, como filha, irmã, amiga, mas principalmente como mãe. Incluindo na bela narrativa suas três filhas, Max (Mikey Madison), a mais velha, típica adolescente mimada, Frankie (Hannah Alligood), a mais interessante das três, politizada e afrontosa, por isso mesmo é a mais difícil de lidar, e Duke (Olivia Edward), a doce filha mais nova que ainda não possui os vícios da adolescência. Além delas, Sam ainda tem que lidar com a excentricidade de sua mãe, Phyllis (Celia Imrie).

Sam é uma atriz veterana, e é o pilar da casa, âncora de um lar sem uma figura masculina, um lar onde essa figura não faz nenhuma falta. Em alguns momentos é possível sentir uma antipatia por alguma de suas filhas ao ver Sam se esforçando e só recebendo ingratidão. Mas Better Things acerta também aí, ao dizer que o amadurecimento é um processo, por vezes longo, e a série não se limita tentando apressar esse processo. E aqui é nos detalhes que percebemos esse desenvolvimento.

Better Things emociona na medida certa, principalmente na interação de Sam com suas filhas (o episódio do falso velório é uma das coisas mais lindas que a TV mundial produziu ultimamente), mas também em algumas tentativas mal sucedidas de se relacionar. Sam carrega o peso da maternidade e talvez o sinta ainda mais imaginando que precisa deixar as filhas prontas para o mundo, deixando elas o descobrirem, mas acima de tudo cuidando e educando. 

Pamela Adlon é sensacional, duas vezes indicada ao Emmy, ele deu sobrevida a série passando também a comandar a direção a partir da terceira temporada. E o seu tato e sensibilidade são percebidos também nos textos, cheios de discussões sobre machismo, desigualdade salarial entre homens e mulheres, e até abuso sexual.

Uma série sobre a vida real, sobre mãe e filhas, que emociona sem apelar para o melodrama, sobre como transformar certas adversidades em experiências gratificantes. Uma aula de humanidade, e não há nenhum produto seriado que se faça tão humano de forma tão brilhante como Better Things. Há quem diga que o FX alcançou o status de obra-prima para a tv com Better Things, e é difícil provar o contrário.

RECTIFY

Drama. Quatro temporadas (2013-2016) – Sundance TV

Expoente na categoria “grandes séries que quase ninguém viu”, essa é a série que nos levou a fazer essa lista. Muito provavelmente pouca gente viu por conta do canal, o Sundance não é dos mais populares nos EUA, mais difícil ainda é que um de seus produtos se torne popular por aqui. Ainda assim, Rectify teve bons índices para o canal, principalmente pelo horário em que ela ia ao ar, competindo com grandes e populares produtos.

A série centra sua narrativa em Daniel Holden (Aden Young), a partir do momento em que ele sai da cadeia após passar dezenove anos no corredor da morte por confessar estupro e assassinato da sua namorada da época de escola. A grande questão é que apesar de ter confessado, Daniel sai da cadeia depois de quase duas décadas por conta do surgimento de evidências que o inocentam.

Contudo, a inocência ou não de Daniel só é abordada de verdade na temporada derradeira. A série foca na readaptação do protagonista  à vida em liberdade e todos os problemas que ele enfrenta para ter uma vida normal. Seu pai morreu, sua mãe casou novamente e constituiu nova família e sua irmã passou a vida tentando provar sua inocência. Ele então tem problemas para se relacionar, para encontrar um emprego, problemas com os novos membros da família, e com parte da população que o vê como criminoso. Tudo isso ancorado na delicada, sutil e irretocável atuação de Aden. Uma série com um tato e uma delicadeza que pouco se vê.

FLAKED

Comédia/Drama. Duas temporadas (2016-2017) – Netflix

Criada por Mark Chapell e Will Arnett, essa é a série do Will. A produção acompanha a vida de Chip, personagem de Will. Ele é um ex-alcoólatra em processo de reabilitação, que dez anos atrás atropelou e matou uma pessoa enquanto dirigia embriagado, o que o fez procurar ajuda. O drama com o alcoolismo foi vivido pelo próprio Will na vida real. Curiosamente, no mesmo dia em que as gravações começaram, o ator completava 15 anos sóbrio. Chip é um personagem que brinca com as expectativas da audiência, sempre se espera por uma ação redentora dele, uma mudança de atitude, mas apesar de não ser alguém essencialmente mau, ele não parece se esforçar para ser realmente bom.

Chip vive de pequenos e nada profundos romances, parece viver uma boa vida apesar de ser um marceneiro que não recebe praticamente nenhum cliente em sua loja, e seu único bem ser a sua bicicleta. Ele mora na casa do amigo Dennis (David Sullivan), alguém que ele ajudou a superar o alcoolismo e no processo se tornou seu melhor amigo. Juntam-se aos dois o ótimo Robert Wisdom, no papel do policial George, também um ex-alcoólatra sempre de olho na dupla para evitar que eles tenham uma recaída.

Os personagens vão chegando a história como se por acaso, e acabam se desenvolvendo no enredo  forma suave e precisa. Temos o ótimo Cooler (George Basil), uma espécie de amigo hippie que funciona de forma brilhante como o alívio cômico, Kara (Lina Esco), que toca em uma banda indie e também tem problemas com a bebida e finalmente London (Ruth Kearney), uma bela mulher que se torna um interesse especial de Chip, e que com sua chegada coloca na trama o plot twist delicioso e fundamental.

O caráter falho do protagonista, entregue de forma brilhante pela atuação crua e simplista de Will, vai transparecendo com o caminhar da série, e está aí o fator mais fascinante aqui, os porquês. Por que ele é essa espécie de oportunista barato? Quais são os traumas não superados? Em algum momento Chip irá finalmente encontrar sua paz? Sua redenção?

A série se passa na ensolarada Venice, na costa da Califórnia, o que ajuda a conferir a ela sua fotografia irretocável, os cenários se destacam a ponto de se descolarem do roteiro, que, por sua vez, é simples, realista e funciona. A trilha sonora é sublime, com as faixas muito bem colocadas conferindo alguma profundidade as cenas, sendo capaz de divertir e seduzir o espectador. Flaked é daquelas que recebeu algumas críticas veementes, talvez muita gente tenha as lido antes de assistir, e por isso a deixou de lado, mas Flaked é uma série simples, simpática, ensolarada, com drama e comédia na medida, além de ser curta, tudo isso a faz ser tão fácil de ser degustada.

BANSHEE

Ação. Quatro Temporadas (2013-2016) – Cinemax

Sempre que falamos de Banshee por aqui, a gente diz: Um dos melhores produtos seriados já concebidos. Grandes atuações, efeitos especiais e visuais impecáveis, violência gráfica perspicaz, roteiro surpreendente e personagens profundos e intrigantes, imersos em uma trama densa e cheia de reviravoltas, surpresas, percalços, sangue e mortes.

A trama é centrada no xerife Lucas Hood (Antony Star), da pequena cidade de Bnashee, na Pensilvânia, mas que na verdade não é Lucas Hood, muito menos xerife. Ele é na verdade o maior ladrão dos Estados Unidos, que, ao participar de uma briga em um bar da cidade, presencia a morte do verdadeiro xerife e resolve assumir sua identidade. Após passar quinze anos na cadeia, Hood estava na cidade para reencontrar sua antiga parceira de crime e de vida, Ana (Ivana Milicevic), por quem ele foi preso, mas descobre que ela agora vive sob a alcunha de Carrie e constituiu família. 

Ele resolve ficar na cidade ainda assim, como xerife, mas também como ladrão. E por lá ele encontra absolutamente tudo: Uma comunidade indígena problemática, Kai Proctor (Ulrich Thomsen), um empresário Amish que na verdade é o chefe do crime na região, máfia ucraniana, para quem ele um dia prestou serviços e que agora o persegue, um núcleo neonazista, militares corruptos, relações e relacionamentos improváveis e sangrentos. São quatro temporadas intensas e suficientes. Uma série que soube a hora de parar, com personagens cativantes e outros odiosos, uma surpresa atrás da outra e uma trama profundamente envolvente. É assim que se faz uma série de ação. 

MOZART IN THE JUNGLE

Comédia/Drama. Quatro Temporadas (2014-2018) – Amazon Prime Video

Baseada no livro do oboísta Blair Tindall chamado “Sex, Drugs and Classical Music”, onde ele como um bem sucedido músico de Nova Iorque relata suas memórias durante sua carreira profissional. Mozart in the Jungle é o humor que perverte de forma saborosa a imagem de pompa e elegância que os praticantes de música clássica transmitem. Por isso mesmo, ela é tão fascinante. Ela vem para derrubar a imponência e a suntuosidade do meio da música clássica, adicionando sexo, drogas, traição e dramas da vida real a personagens desse meio.

A trama acompanha a orquestra filarmônica de Nova Iorque, em especial o maestro Rodrigo de Sousa, que ganha vida a partir da premiada e brilhante interpretação de Gael Garcia Bernal. Ele é um jovem prodígio de hábitos peculiares, que é tido como o melhor nome para assumir a regência da orquestra após a aposentadoria do querido maestro Thomas Penbridge (Malcolm McDowell). Em paralelo, temos a jovem Hailey Rutlege (Lola Kirke), uma jovem oboísta que sonha em tocar na orquestra. Após um teste fracassado, Hailey tenta ficar na orquestra trabalhando como assistente de Rodrigo.

Mas as práticas de Rodrigo logo conflitam com as normas conservadoras da instituição. Ele leva seu papagaio para os ensaios, é casado com uma violonista que ele não vê a mais de dois anos, se envolve com outras mulheres e sempre acaba colocando a orquestra em situações peculiares e sempre muito divertidas. Situações hilárias que jamais se espera ver acontecendo com membros de uma orquestra. Atuações incríveis de Gael e Lola, fotografia sensacional, um roteiro que parece estar sempre em crescente e um texto divertido e provocativo, um produto singular, fora da curva. Em uma das ótimas cenas da primeira temporada, Rodrigo tem uma conversa alucinógena com o Mozart em pessoa. Adicionando um pouco de loucura da vida real a música clássica temos um resultado adorável, temos Mozart in the Jungle.