Um festival de música independente realizado em Palmas que se tornou um dos mais relevantes da região Norte e que seja também responsável por dar espaço para bandas e artistas locais. Pensar nisso há alguns anos atrás talvez fosse apenas utópico por diversos motivos, mas esse festival existe, e chegou a essa sexta edição no último sábado (19).

O Bem Ali é resultado do trabalho da produtora Árvore Seca, idealizadora e organizadora do evento. Essa foi sem dúvidas uma das melhores edições do festival, que segue na missão de ser um dos principais eventos anuais responsáveis pelo (re)surgimento da cada vez mais efervescente e qualificada cena musical tocantinense. Essa efervescência se comprova pelo line up em si e mais ainda pelos ótimos shows das bandas locais no evento. Desejamos que o Bem Ali siga crescendo com saúde. O festival está no nosso mapa de festivais independentes do Brasil. (leia aqui)

Em uma de suas maiores e mais completas edições, o festival trouxe atividades diversas acontecendo em paralelo aos apresentações musicais durante todo o evento, e claro, muita música.

As atividades

De circo a flash tatto, teve de quase tudo. A companhia de circo Os Kaco, que ficou responsável pela abertura cultural do festival, além das apresentações nos intervalos de cada show. Teve circo a noite toda e eles foram novamente um dos felizes destaques do evento. A praça de alimentação funcionou desde a abertura dos portões com boa diversidade de bebidas e comidas e opções que atenderam todo tipo de opção alimentar. Uma feirinha de produtos de pequenos comerciantes locais estava presente mais uma vez, produtos de arte e vestuário foram expostos. As flashs tattos feitas por tatuadores de Palmas também começaram logo no início do evento e chamaram muita atenção, muita gente esteve na fila para tatuar durante o evento. Um painel de graffite foi produzido pela zero 63 crew, principal coletivo de graffite do estado, e aconteceu em um ponto de grande circulação, que gerou uma bela interação entre os artistas e o público.

Música

Em 2019 o Bem Ali contou com nove bandas nacionais, destas, quatro bandas tocantinenses, responsáveis inclusive por abrir e fechar o evento. Em um dos line ups mais interessantes dentre as seis edições do festival, diversidade de gêneros, bandas de cinco Estados e belos shows. Talvez esse seja inclusive o destaque maior dessa edição: grandes apresentações, bandas muito empenhadas em fazer um espetáculo, interagindo com o público, e o resultado foi o melhor possível. As bandas saíram satisfeitas com seus shows e o público parecia realizado, em vários momentos impressionado.

Além das bandas, o espaço para a discotecagem também marcou a noite, com as apresentações das DJs Dellanoche e Fran. Esse espaço sempre esteve lotado desde que começou a funcionar. O atrativo dos DJs locais funcionou bem e trouxe um pouco mais de diversidade musical ao festival.

SOPPRÜ

Banda de Palmas que mistura rock alternativo e MPB, abriram o palco do festival com muita identidade. Destaque para os instrumentos de sopro da banda que fazem um belo e importante contraponto em relação as duas guitarras, que aliás são outro destaque e outro ponto fundamental na sonoridade da banda. O show da Soppü foi uma bonita e agradável surpresa, parte do público estava ali por eles e conheciam as músicas, fazendo com que a interação acontecesse fácil. Uma banda com menos de uma ano de existência demonstrando toda essa qualidade. Por aqui ficamos muitos satisfeitos em ver uma banda de casa com muita capacidade fazendo um show tão bonito assim.

Sopprü abrindo lindamente os trabalhos no Bem Ali

BIG MARIAS

Certa vez a The Hellacopters disse que seu novo disco soaria como uma manada de rinocerontes. Foi esse o paralelo que fizemos, um show que soou como essa manada de rinocerontes, barulhento, forte e potente. Barulho do bom. Dobra de vocais femininos ajustados, guitarra e bateria fortes e certeiras e um baixo importantíssimo. A banda é formada por três moças e um rapaz, segundo elas mesmas, todas Marias, somos todas Marias. Durante o show com certeza quem esteve ali foi, tocado pela apresentação poderosa do quarteto tocantinense. Mais uma que chamou muita atenção, mais uma para continuarmos acompanhando. A banda também levou seu público fiel que junto com os que não conheciam o som das Marias ficou feliz com o que viu. As grandes Marias fizeram um show como o nome da banda sugere.

DESERT CROWS

Sabemos que Goiânia é celeiro de grandes bandas de stoner rock, que o Estado de Goiás tem uma das melhores cenas alternativas/underground do país há anos, é por isso mesmo que essa cena naturalmente cresce e se renova. Um importante nome nessa renovação é a Desert Crows. Um dos shows que mais queríamos ver, pelo potencial, e por terem lançado esse ano seu primeiro e excelente disco, um dos melhores do país no ano. O show foi como a gente esperava, com pegada, com energia, com a cara de uma jovem e já poderosa banda de stoner, no repertório músicas do seu único e recém lançado disco, o endiabrado Age of Despair (Monstro Discos). Por esse disco, e por esse belo show e por acreditarmos que esse trio é uma das bandas com mais potencial na nova cena de stoner do país, esperamos a Desert Crows muitas outras vezes em terras tocantinenses.

“Even the Devil Cries” com a Desert Crows

ALMIRANTE SHIVA

Um dos grandes nomes da atual e rica cena independente brasiliense, e também da renovada cena psicodélica brasileira, a banda Almirante Shiva também não decepcionou, muito pelo contrário. Mais um elogiado show do trio em Palmas. Um show com a cara da banda, energia, diversão, brilho, e a psicodelia que lhes é peculiar. Em uma apresentação que contou com alguns dos hits, eles interagiram com o público os levando todo mundo para o caminho que o grupo queria trilhar durante o show. Destaque para vocal e violão que carregam a sonoridade da banda. Quem viu adorou e se divertiu.

WIZENED TREE

No final do show, em meio ao burburinho das pessoas saindo de perto do palco, eu ouvi alguém dizendo: “essa banda não sabe a importância dela, mas eles são muito importantes”. Entendi que essa importância é atribuída a Wizened por quem talvez acompanhe a banda há algum tempo, por serem uma banda que já tem uma cara, uma identidade musical, e por hoje serem os principais responsáveis por levar o rock n roll from do Tocantins para além dos nossos limites geográficos. O show do festival foi parte da turnê atual da banda. E que grande show! Mais uma apresentação em alto nível das bandas caseiras e da Wizened, que também já conta com seu público fiel, e ele lá estava. Que possui membros que são parte da produtora que organiza o Bem Ali, que sabem da importância do evento, e que por isso tudo fizeram um espetáculo. A cada vez que vemos uma apresentação da banda, faz a gente acreditar que esse é o padrão de apresentações do quarteto, enérgico, firme, pé na porta. Com a presença de hits, como “Give me Alcohol”, uma apresentação potente, para que quem ainda não os conhecia ser apresentado em grande estilo, e quem já os conhecia sair do show ressaltando a importância da banda tocantinense.

Rock n Roll From TOCANTINS

JOE SILHUETA

Tivemos o prazer de ver o Joe Silhueta na sua casa esse ano, em Brasília no festival CoMA, em um show impressionante de diversas formas, por diversos motivos, que contou com a participação do mítico Odair José. Agora vimos na nossa casa, no Tocantins, e a felicidade com o resultado foi parecida. Trazendo sua fusão de gêneros como folk, pop, psicodelia e regionalismos, que resultam em uma identidade ímpar, a banda que já se apresentou no palco de importantes festivais nacionais, fez por aqui um show que é parte da turnê do seu mais recente trabalho, o Trilhas do Sol (2018, Quadrado Mágico/Cena Cerrado). E o fez com a cara da banda, com luz, com riqueza e atenção aos detalhes, com brilho e sombra, com som, com sua estética visual e musical e com a furiosa presença de sua frontwoman Gaivota Naves.

STOLEN BYRDS

Durante a terceira música do show, um desconhecido chegou do meu lado e aos gritos disse: “cara que som f**a!!!”. Essa é uma sincera e boa definição, do que é o som da banda, e do que foi esse show. Aquela que é hoje a melhor banda de rock do Paraná já havia tocado no Tocantins em uma apresentação bastante elogiada, portanto parte do público já os conhecia, quem não conhecia se surpreendeu e talvez tenha ficado também com a mesma sensação do desconhecido citado acima. Há que se destacar a capacidade vocal de Edwardes que também faz o teclado da banda que soa muito bonito em meio a cozinha potente e duas guitarras ferozes. Que o quinteto de Maringá continue voltando ao Tocantins, a julgar por suas apresentações recentes por aqui, serão sempre elogiados e muito bem-vindos. Que show f**a!

O desfile de sabedoria e peso da Stolen Byrds

MOLHO NEGRO

Para nós o melhor show dentre os grandes shows dessa edição do festival. Foi a terceira vez que vimos o Molho Negro em Palmas e a sensação que fica no final é sempre a mesma, êxtase. E assim estava a maior parte do público ao final da apresentação do power trio paraense, vidrado. Não era para menos, eleitos como um dos dez shows mais imperdíveis do Brasil e tendo sua apresentação no Lollapalooza desse ano elogiada pela grande imprensa, era esperado muita potência e energia, e foi assim. Em uma apresentação cheia de hits da banda como “SUV”, “Sousa Cruz” e “Você é Muito Foda”, a banda fez a interação com o público como lhes é peculiar, e encantou quem ainda não tinha os visto ao vivo. Raony passeou com seu baixo pelo meio da plateia, João rolou no chão no meio do público com sua guitarra e chamou duas grandes rodas, e no final, kit de bateria no meio do povo, banda inteira no meio da plateia, liberando o palco para o público ocupar e um show irretocável. Como sempre, o Molho Negro não decepciona ao vivo não, pelo contrário, diverte, encanta e deixa a plateia extasiada. Que voltem muitas outras vezes ao Tocantins.

Encontrando Jesus e dando lucro pra Sousa Cruz

INDXXR

Encerrando o festival, uma banda de casa. A INDXXR, que foi escolhida pelo público como a mais votada nas seletivas do festival, fechou a noite da sexta edição do evento. Antes como uma banda com influências de reggae, a Reggae Indoor, o grupo já havia se apresentado duas vezes no festival, esse ano foi a primeira vez que se apresentaram como INDXXR, que é hoje o principal nome do trap tocantinense. Trap com toques de black music. Nome já conhecido na cena da cidade, sem mais ser estreante no festival, a INDXXR levou o seu público, que cantou junto com o trio tocantinense. A banda fez um show com algumas releituras e também com músicas do sseu EP de estreia, o Supernova (2018, Independente). Os guerreiros do Araguaia lá estiveram, no palco e na plateia, vendo um trio muito qualificado e muito promissor encerrar com um direto e enérgico show, a edição de 2019 do Bem Ali.

Agora é esperar 2020 e a próxima edição do festival, que é logo ali, ou melhor, é Bem Ali.