O Medulla é uma banda muito querida por aqui. Na forma de sexteto e com uma dupla de vocalistas que são irmãos gêmeos, a banda surgiu no Rio de Janeiro em 2004, lançando seu primeiro disco no ano seguinte. Formada por Keops e Raony nos vocais, Allan Lopes e Dudu Valle nas guitarras, Rodrigo MJ no baixo e Daniel Martins na bateria.  Eles fazem rock alternativo com muita intensidade e com a sonoridade carregada de influências de gêneros como heavy, mpb, hip-hop, rap, e até pitadas de hardcore. Nas letras, eles tratam desde temas românticos e cotidianos, a temas como política, religião e prostituição. De forma muito poética ainda que simples, se utilizando de termos e expressões do linguajar popular brasileiro. Com algumas mudanças na formação através dos anos eles possuem uma discografia diferente, com apenas dois discos cheios e vários EP’s. Nada mais justo que uma banda querida, com sonoridade diferente, letras assertivas e com uma discografia fora do padrão para começar essa nossa série. 

A discografia sagaz comenta toda a discografia de determinada banda, lançamento por lançamento, na tentativa de recomendar essa banda ou artista para aqueles que ainda não as conhecia, com algumas curiosidades e comentando pontos que podem não ter sido percebidos por aqueles que já conheciam a banda.

O Fim da Trégua (2005, Sony/BMG)

O Medulla já começou com o pé na porta, com um disco que destacou a banda no cenário do rock alternativo, pela inventividade musical e pelos temas que abordam. Já a primeira faixa, “Munição na Mamadeira”, fala de forma direta, ainda que cheia de analogias, sobre o contato de crianças com a violência. Em “Circo”, a banda fala sobre o espetáculo das eleições, as promessas vazias feitas a cada quatro anos, as mentiras e enganações dos candidatos tratando a população apenas como número, os abandonando quando eleitos. 2005, nada mudou.

“[…] aperta a mão que eu te dou um doce, são poses, promessas e beijos na testa.”

A faixa seguinte, “Serrando a Grade”, fala com muita veracidade e sentimento sobre a calamitosa vida da população carcerária nesse país, gente amontoada, vivendo quase sempre em situações desumanas, fazendo com que o jovem que por muitas vezes cometeu um pequeno delito saia de lá, ou morto, ou com um verdadeiro ódio pelo mundo. “Salto Mortal” rompe com os temas político-sociais e fala sobre uma paixão furiosa com um sangramento quase palpável, quem disse que os anjos não choram por paixão.

Tecnicamente é preciso destacar as linhas de baixo, especialmente nessa primeira parte do disco, sutil e fundamental. Além da dobra de voz feita pelos irmãos Keops e Raony, as vezes acontecendo durante o refrão ou nas frases de mais impacto, e por vezes em belos contrapontos durante as estrofes, os dois quase que dialogando. A mixagem deixa as linhas de voz alta, para que se ouça com perfeição tudo que é versado pelos irmãos.

“Joaquim” é uma faixa que chega crítica e infelizmente verdadeira falando sobre os ladrões da fé, pastores e os ditos servos de Deus que se aproveitam dos seus seguidores apenas em nome do dinheiro. Pecado pago no cartão. Uma das melhores composições do disco, com uma guitarra rítmica deixando a linha de baixo mais alta e agressiva. Na sequência “Vírginia”, das mais bonitas e emocionais composições do registro ao mesmo tempo que possui uma letra triste e infelizmente realista. Todo o instrumental é aclimatado de forma mais densa, liderados por uma linha de violão rápida e dramática. A canção narra a história de Virgínia e fala sobre mulheres que sem outra alternativa entram para o mundo da prostituição, muitas vezes bem cedo, e muitas vezes empurradas para esse mundo por algum trauma na infância, no caso de Virgínia, abusada na infância por seu padrasto, porque “flores tem espinho pra enganar o coração”.

A faixa título “O Fim da Trégua” é composição de Fernandinho Beat Box e conta com os beats impressionantes do próprio durante a canção. Chega com uma guitarra base rítmica e traz o flerte da banda com o rap e hip-hop. É seguida por “Confetes e Serpentinas”. Rápida, eficaz, com uma guitarra pesada e belas viradas, falando de forma poética e sincera sobre o cotidiano sofrido do trabalhador braçal brasileiro.

“ser pedra é fácil, eu quero ver ser a vidraça”

Na sequência “Susi”, das faixas mais queridas desse disco. Bateria furiosa, guitarra esperta e dançante, faz analogia a boneca Susi que na faixa é uma boneca de vudu problemática que agora só quer “beber, f*der e fumar”. Composição de Chico Buarque, “O Velho” encerra de forma bonita e dramática um grande disco de estreia. Novamente com uma bela e fundamental linha de baixo. Conta a história de um cidadão que chega cansado ao final da vida, vendo seu fim, ele está arrependido pelas coisas que deixou de fazer durante seus anos de existência.

Um disco rápido, com menos de 35 minutos, que fala de forma simples ainda que poética sobre temas atuais e extremamente relevantes. Medulla sagaz, desde o começo.

Akira EP (2008, Independente)

Com Akira começa lista de EPs lançados em sequência pelo Medulla, foram quatro em um período de seis anos, e que ocuparam os onze anos entre o primeiro e segundo disco. Com a saída da banda de uma grande gravadora, começando a produzir e distribuir seus trabalhos de forma independente, a ideia da banda era realmente a de lançar quatro EPs em sequência com diferentes formatos. Akira possui apenas duas músicas, das mais simbólicas na discografia da banda. A primeira é “Gosto de Guarda Chuva”. Que começa com sombrias e saborosas distorções seguidas por uma mansa base de guitarra e o som dos pratos, as vozes entram e então a faixa explode, é o Medulla mostrando o seu melhor em um post-hardcore saboroso com gosto de guarda-chuva, introspectiva e nonsense, como a faixa que se segue. Uma troca de faixa que se abre com um acelerado solo de bateria em “Prematuro Parto Forceps”, onde se destaca a linha de guitarra com leves distorções e que conduz toda a faixa. Duas canções abertas as mais possíveis interpretações em um EP conceitual, rápido e bonito. Jogando álcool e fósforo na direção do seu portão sob a proteção de robocops para transformar o horizonte e desdobrar o origami.

Talking Machine EP (2009, Independente)

“O Novo” é uma das mais marcantes faixas da discografia do Medulla, e é com ela que se abre o Talking Machine. A letra fala sobre os desafios que podem ser encontrados quando encaramos algo novo. O novo pode amedrontar, desgovernar, desafiar, mas o novo é bom, e ele sempre vem, já disse Elis. O refrão é uma oração, cantado enfaticamente por Keops e Raony. No fim da segunda estrofe um trecho um tanto quanto rap versado em inglês pela cantora Anjella Grace chama o último refrão. Destaque para as perspicazes distorções de voz na saída de cada refrão. Essa faixa possui um dos videoclipes mais marcantes da banda. Assim como seu antecessor e tendo sido lançado apenas meses depois dele, Talking Machine também possui duas faixas.

A dupla de canções aqui se completa com “Gasolina, Gás e Prego”. Com um andamento intenso e surpreendente liderados pela ótima linha de guitarra, que também é responsável por ótimos solos. No meio da faixa, um trecho viajante que começa com um fala que parece estar sendo feita ao contrário acompanhada por uma singela e eficaz linha de guitarra. No fim, um vulcão musical cospe bateria, guitarra e baixo encerrando a faixa com uma verdadeira erupção instrumental. O novo pode te atropelar e as vezes é preciso dar meio passo atrás para dar impulso.

Capital Erótico EP (2010, Independente)

Com Capital Erótico começa a dupla de EPs mais marcantes da banda, juntamente com O Homem Bom, que vem a seguir. Ambos marcantes por conta das suas peculiaridades. Em Capital Erótico o Medulla rompe com a montagem de EPs com apenas duas faixas, aqui são quatro, além disso, duas músicas que possuem letras de cunho social poderosas, a primeira música deles em inglês e aquela que é a principal canção da banda, “Eterno Retorno”, que além da qualidade da faixa por si só, vem acompanhada de um videoclipe polêmico. Capital Erótico também chama atenção pelo formato no qual foi lançado, na forma de playbutton, uma espécie de botton/MP3 player com saída de fone. Usado por Lady Gaga e Fluorence and the Machine por exemplo, o Medulla foi a precursora desse formato no Brasil. O registro é aberto com “Movimento Barraco”, uma música que fala sobre o levante popular no que diz respeito a moradia, o direito de morar. A música fala sobre o tema com o uso sagaz de analogias e paralelismos, e de peito aberto, como bem faz o Medulla. No instrumental um andamento esperto, com a faixa acelerando e diminuindo o ritmo nos momentos certos, e nesses momentos de subida, Keops e Raony soltam a voz enfatizando o que é cantado.

Na sequência, ela chega, vindo feito um coice, como um beijo doce seguido por um carinho feito com raiva pouco antes do fim. “Eterno Retorno” não é apenas uma das melhores canções do Medulla, talvez a melhor, é uma das grandes composições do rock nacional das últimas décadas. É bonita, é verdadeira, é poesia. Fala sobre perder alguém de um jeito melancólico, quase que como se fosse sabido desde o começo que essa separação fosse acontecer. Há que se destacar a poesia em forma de notas musicais feita por Dudu e Allan com suas guitarras. O clipe da música remete ao nome do EP, e possui cenas quentes da relação de um casal. Alguns ajustes no clipe tiveram que ser feitos, ocultando algumas cenas para que ele pudesse ser exibido na MTV. Mas a versão original está no youtube.

“mas vem feito um coice / acabou-se o que era doce / o vento sempre leva o que trouxe / mais dia, menos dia, eu já nem sinto o cheiro dela / noite”

Em “A Fábrica” a banda fala sobre trabalhadores explorados no setor fabril brasileiro. Muitas vezes em trabalhos perigosos, arriscados que colocam em risco sua saúde. No final da letra se diz repetidas vezes a frase “smell like factory spirit”, em uma referência a um hino do grunge, a clássica música do Nirvana, falando sobre como esses trabalhadores chegam no seu limite, transpirando seu esforço, cheirando a cansaço. Uma faixa com uma métrica peculiar e muito bela, fundamental para a composição e com muito peso na bateria. A montagem do tracklist também deve ser exaltada, é incrível como uma faixa se conecta com a faixa seguinte sonoramente. Como “A Fábrica” e “Lose Your Money”, música que encerra energia e pegada um grande EP. Cantada em um belo contraponto vocal feito pelos irmãos, ora praticamente falando, ora fazendo um rap, ora de forma mais calma, quase um sopro, ora soltando a voz, com o ápice no marcante refrão. No fim da faixa e consequentemente fim do EP, todos solam juntos e mais uma vez a erupção final quase catatônica acontece.

O Homem Bom EP (2014, Independente)

O Homem Bom traz consigo a maior distância entre um trabalho e outro da banda, infinitos quatro anos. Expectativa criada, expectativa atendida. São três excelentes canções naquele que é considerado por muitos o melhor EP da banda. “Paralelo ao Chão” faz um caminho que passa por distorções, bateria e cordas até chegar nas vozes. Uma faixa elétrica, por opção da maravilhosa mixagem que conta com um excelente trabalho de sintetizadores. No refrão todo o peso necessário e intensas viradas de bateria. Os irmãos se complementam nos vocais, por vezes literalmente um terminando as palavras que o outro canta. Canção que consegue transcender com muito mais peso e energia toda a alternatividade característica da banda.

O mundo tinha menos luz antes de a gente conhecer “Perigo”, a segunda e irretocável canção do registro. Uma levada mais mansa como em “Eterno Retorno”. Com guitarras sutis no começo acompanhadas por uma discreta e fundamental linha de baixo. A letra é poesia, com jogos de palavras, frases com duplos, triplos ou múltiplos sentidos, seguidas por frases que dizem realmente querem dizer, é linda, é um perigo nunca mais ver o sol antes de conhecê-la. No fim as guitarras ganham peso e uma grande faixa se encerra. Muita gente considera essa a melhor canção do Medulla. Encerrando o EP, “Bom te Ver”. Que começa com um instrumental agressivo, mas logo se pacifica. A faixa conta com linhas de guitarra e baterias mais calmas e flerta com o afrobeat se utilizando de uma perspicaz percussão. O foco é na mensagem, na bonita e reflexiva letra, versado com fundamental veracidade por Keops e Raony que aqui por vezes têm suas vozes se abraçando por vezes duelando, e encerram a conversa de forma acelerada, é lindo de se ver. É sempre bom te ver.

MVMT (2014, Hearts Bleed Blue)

Depois de encerrada a série de EPs a banda mudou de gravadora. Como primeiro trabalho da banda com a HBB, eles lançaram o MVMT. O disco é um compilado dos quatro EPs com a adição de uma faixa inédita. MVMT é uma sigla para a palavra movimento, tudo é movimento, a banda é um movimento, os fãs são chamados pela banda de movimento, e por definição, o movimento não para. É um título simbólico e emblemático em se tratando de Medulla, além de ser um ótimo jeito de se ouvir todos os EPs em sequência. A música inédita nesse registro é “O Pé No Chão e a Mão No Sonho”, responsável por encerrar os trabalhos. A faixa chega com guitarras pra frente, pesadas e aceleradas, com muito peso em uma bateria rítmica e uma sutil e confortável linha de baixo, como se realmente se encerrasse aqui uma fase, a fase do Medulla independente e de seus EPs. Um poderoso encerramento. Sain e Digo Strausz participam nos trechos de rap. Satisfazendo essa fome de tudo no meio do túnel, na contramão. A canção termina cantando em coro: “Eu sou, eu sou, um pé no chão e a mão no sonho”.

Deus e o Átomo (2016, Elemess/Hearts Bleed Blue)

Com a cara de uma nova fase da banda e sendo lançado onze anos após seu antecessor, Deus e o Átomo é um conceito bem aplicado a um produto musical feito por quem sabe fazer música poeticamente. A banda passou por mudanças na formação, restando da formação original apenas Keops e Raony, com eles agora, Tuti AC no baixo e Alex Vinicius na guitarra e synth. No disco o músico Pedro Ramos, o Toledo, da banda Supercombo, foi o responsável por fazer a bateria, além de produzir o registro. O disco foi dividido em duas partes, a primeira parte Deus e a segunda o átomo. Ambas as partes começam com um interlúdio exatamente antes das faixas chamadas “Deus” e “Átomo”.

Abrindo o disco e consequentemente a primeira parte, “70×7”, uma poesia, versada com bastante sabedoria pelo rapper Síntese, pouco mais de um minuto de pura beleza. 70×7 é um conceito de infinito que aparece várias vezes na bíblia. Mas as pernas e sorrisos somos nós, pra onde nós queremos levar a vida. “Deus” vem a seguir, segundo a própria banda a ideia na letra é a de possivelmente humanizar o conceito de Deus, mais falando sobre pessoas de fé do que em um ser supremo em si, como bem canta o bonito refrão: “É difícil de entender/No meio da dificuldade/Essa força de vontade/Eu vi Deus em você”. Um instrumental extremamente orgânico, mais baixo, dando ainda mais respaldo as vozes e com belíssimos toques de batuque e percussão, especialmente na saída dos refrões. “Faça Você Mesmo” vem na sequência em uma parceria sublime com Marcelo D2, e chega dizendo que sempre há, e haverá, razão para lutar.  Beats eletrônicos quase que na forma de um trap rock suave, no fim da faixa eles se completam com a ótima linha de bateria. 

“Travesseiro Azul” chega sendo aplaudida, como ela merece, uma das mais belas canções do Medulla. Um absurdo o que fazem Keops e Raony nos contrapontos vocais, também carregada de sutis beats eletrônicos que propositalmente se confundem com a bateria. Um folk rock liderado por violão soando alto que faz principal linha do andamento nas estrofes, no refrão, explosões, de violão, guitarra, baixo, synths e bateria, enquanto os gêmeos cantam sobre a essência humana, sobre o que cada um sabe de si e onde pode chegar com aquilo que já possui essencialmente. Uma letra linda e necessária, como a da faixa seguinte. “Abraço” se abraça com a música anterior chegando de uma forma jazzística, outra preciosidade, aconchegante como o título sugere. Piano, teclado, baixo de jazz e guitarras bem tímidas, novamente um instrumental tranquilo e bonito chamando atenção para os versos. Feita em parceria com Martin, guitarrista da banda da Pitty. A ideia do refrão surgiu quando a banda fazia um show em Belo Horizonte e um fã apertou tão forte as mãos de Keops e Raony que os irmãos dizem que não sabiam se o rapaz só estava mesmo muito feliz em encontrá-los ou se existia a intenção de machucá-los.

“Um abraço, de tão apertado, sufocava / E eu me questionava se / Você quer me amar ou ferir / Você quer me partir ou partir”

“A Paz” encerra a primeira parte do disco. Segundo a própria banda, uma das mais fortes músicas do disco para eles. Ela fala sobre a polícia pacificadora do Rio, sobre a paz heroica que a mídia traz em nome de satanás. No fim da faixa alguns depoimentos de moradores do morro do Alemão que sofriam durante a operação policial de pacificação do morro. “Z”, o segundo interlúdio, versado por Edgar, abre a segunda parte do registro. A letra é uma descrição poética, feita de forma teatral, da definição de Edgar sobre o que é um átomo.

A seguir vem “Átomo”, que é Medulla puro, é frenética, acelerada, com várias surpreendentes mudanças de direção. Se aproxima da definição do que está entre um Deus e um Átomo, como cada um é um universo, é o Medulla conseguindo fazer poesia musicada enquanto fala de física quântica. Como um átomo, ou como o Medulla fazendo música, não se pode ver, mas se pode sentir. Foi a primeira música que a banda fez na nova formação. “Estamos Ao Vivo” é aquela faixa que se imagina fechando shows, com todo o movimento cantando o “oh oh, ooooh oooooooh” até não conseguir mais, e ela foi mesmo a música de encerramento de alguns shows durante a turnê do disco. É ensandecida, eleva o nível de frenesi da faixa anterior. Viradas inesperadas, instrumentos de sopro, vocais agressivos, rasgados e gritados, bateria e guitarras alucinadas. Dentro disso tudo uma letra sensacional com a banda atacando novamente temas sociais, falam sobre a tragédia de Mariana e um caso onde policiais alvejaram cinco jovens negros dentro de um carro no Rio.

“Separação” é um cisco no olho. Conta com a participação de Helena D’Troia fazendo um dos versos mais sinceros do disco novamente em uma pegada rap dentro de uma que tem principalmente momentos de leveza e fala basicamente sobre uma separação amorosa de um jeito mais moderno. São inúmeras viradas com o Alex sendo espetacular nos arranjos de guitarra. Um esquema de jogo de palavras é utilizado várias vezes com muita sabedoria pelos irmãos

“[…] O pra sempre é assim, uma hora chega ao fim

Mas eram duas, entende?

Cicatriz, fui péssima atriz a máscara mais infeliz

Moça bonita, cadê o sorriso no rosto? E a tua ginga?

Mudei jeito, amigo, gosto, não mudei de telefone p*rra!

Vai que ‘cê’ liga”

“O Segredo” é a faixa mais eletrônica do disco, com beats, programação e distorções ecoando, contando com a fundamental subida da guitarra no refrão e uma bela linha de bateria. No final as cordas ganham força e a faixa termina sendo cantada quase que por um coral, são muitas vozes afirmando que o segredo está na velocidade em que se puxa o esparadrapo, na velocidade em que se desfaz o laço. “Fim da estrada” chega ainda mais poética anunciando o fim. Na sua abertura uma viola de doze cordas soando grave ambienta a canção. Letra de Dudu, ex-integrante da banda, é pacífica, com a banda em um lugar sonoro bem mais pacífico, com fundamentais elementos de sopro, provando que somos só voz e pensamento.

A última faixa chama-se “Prosseguir”, um hardcore assinado pelo Medulla em parceria com o velho amigo Teco Martins, do Rancore. São três vozes cantando isoladas, mas que se complementam. Com um bom hardcore, peso na cozinha e guitarra frenética. É quase um chamado para algo novo. Um encerramento em altíssimo astral.

“Enquanto você for meu erro, é certo que eu insisto em prosseguir”

Um dos mais bem elaborados discos do rock nacional neste século. Orgânico, espiritual, humano eletrônico, plural. Uma obra completa, desde a sua conceituação a sua execução. Sublime do começo ao fim. No lugar musical existente entre Deus e um átomo, está Deus e o Átomo. Com algum Deus se conversa através desse disco no átomo do universo, através do ato façanhoso do Medulla em aqui unir esses versos.

“Um Leão Por Dia” – Single (2018)

Quase um ano e meio após o lançamento do disco, em maio de 2018, a banda chegou com mais material novo, um single com direito a um bonito e reflexivo videoclipe. No clipe, gravado na Cohab 1, zona leste de São Paulo, aparecem influenciadores e artistas da periferia, além da banda cantando em estúdio, em uma obra com edição e fotografia belíssimas, para se contemplar. Lucas Silveira produziu a faixa. Uma mistura esperta e quase sombria de indie-rock e trap. Beats, flows, sintetizadores e uma bela métrica. A mensagem é que se deve respeitar o leão que cada um tem que matar por dia, que se deve ter muito mais empatia, fala de superar, mas se você não sente, você não entende.

O Hiato

No fim de 2018 a banda se pronunciou através de suas redes sociais que entraria em hiato por tempo indefinido. Provando que o vento sempre leva o que trouxa, mas ainda se pode sentir o cheiro dela, do Medulla. A decisão foi tomada durante a turnê pela Europa que a banda fazia naquele ano, sob a justificativa que os músicos sentiram que gostariam de explorar novos territórios e se desafiar de formas diferentes.E assim segue sendo. Keops e Raony agora são uma dupla, tendo lançado esse ano uma das preciosidades da música brasileira em 2019, o EP Retirante. Com produção do ótimo Devasto Prod e com participações de Jaya e Diomedes Chinaski, é mais um romance musical eterno de fim de semana feito pelos irmãos. São seis faixas espetaculares. O single “Destino Cigano” conta com um bonito clipe onde os dois aparecem fazendo todos os instrumentos em um entrosamento impressionante. Os gêmeos, que são nascidos em Pernambuco, se conectam as suas origens através da temática do EP e ancoram a proposta musical no rap, eletrônica, afrobeat e MPB. Mensagens fortes em letras lindas e a prova de que se a ideia era explorar novos territórios, eles estão fazendo, e como sempre com muita sagacidade. Vida longa a dupla, e que o Medulla volte logo, pois é sabido que mesmo com o mundo em confronto, nós nos encontramos.