Alexandre da Silva Santana, nascido no Rio de Janeiro no dia 10 de dezembro de 1979, o Babu. Que adotou esse nome como forma de protesto ao apelido racista de “babuíno” que recebeu na infância. Quem acompanha o cinema nacional há algum tempo com certeza já teve contato com alguma produção onde ele atuou, na sua filmografia já são mais de 40 filmes, e 20 produções televisivas, incluindo séries e novelas.

Para além dos fãs do cinema nacional, o nome de Babu passou a ser um dos mais comentados nas redes sociais nesses primeiros meses do ano, por ele estar no time de participantes do Big Brother Brasil 20. A edição desse ano do reality mesclou anônimos e famosos, compostos basicamente por influenciadores e youtubers. Babu vem sendo um protagonista nessa edição, uma das mais vistas e comentadas da história, e que está chegando ao seu final. Entre momentos de rejeição e momentos de maior aceitação pelo público, nessa reta final, Babu é tido como um dos favoritos a vencer o programa.

Babu nasceu na comunidade do Vidigal, e é cria do projeto de teatro Nós do Morro. A primeira aparição na televisão foi na “Malhação”, em 2001. O primeiro filme em que ele aparece é justamente uma das grandes obras da história do cinema nacional, “Cidade de Deus”, em 2002. Entre outras premiações e indicações, Babu ganhou duas vezes o Grande Otelo, maior prêmio do cinema nacional.

Além das oito obras listadas, Babu participou de outros filmes marcantes, mas com papéis de menos destaque, como em: Meu Nome Não é Johnny (2008), Rio Mumbai (2017), Redentor (2004), Praça Paris (2016), Não Se Pode Viver Sem Amor (2011) e Achados e Perdidos (2006), por exemplo, mas aqui listamos oito onde seu personagem é parte importante do enredo, em alguns casos fundamental na construção da narrativa. São oito ótimas e importantes obras para se conhecer melhor esse talentoso ator que é Babu Santana.

8 – Quase Dois Irmãos (2005)

Elenco do filme com a diretora Lúcia Murat (Foto: Taiga Filmes)

Na década de 70 no Brasil da ditadura militar, presos comuns e presos políticos dividiam a mesma galeria na penitenciária da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Por lá se encontraram Miguel (Caco Ciocler) e Jorge (Flávio Bauraqui). O primeiro, um deputado, intelectual de classe média que foi preso por problemas políticos, o segundo, filho de sambista, preso por cometar alguns assaltos. Uma vez encarcerados, nasce uma amizade, sempre levada por boa música. Anos depois acontece o reencontro, Miguel agora é senador, e Jorge acabou se tornando um dos líderes do comando vermelho, que passaria a dominar o tráfico de drogas. A história é contada através das famílias dos dois, já que seus pais eram amigos nos anos 50, um jornalista e um sambista, em uma época em que a juventude carioca descobria o samba de Cartola e Nelson Cavaquinho, e porque mais tarde, a filha de Miguel, visita um baile funk e acaba se apaixonando por um dos garotos que trabalham para o comando, e consequentemente para Jorge. Mas a história é contada também sob a ótica política e musical, pois tem como pano de fundo a política no Brasil dos anos 50, e a música foi o fator que aproximou os dois nos tempos de carcere. Um filmes extremamente premiado mundo afora, com um ótimo roteiro, sendo quase uma aula de sociologia debatendo sobre a relação entre classe média e favela, grande elenco e grandes atuações. Babu interpreta o personagem Pingão, um dos presos comuns que esteve preso junto com Jorge e Miguel.

7 – Maré – Nossa História de Amor (2008)

Babu como Dudu (Foto: Divulgação)

Um musical contemporâneo livremente inspirado em Romeu e Julieta. Resumidamente: Um amor impossível onde as duas pessoas que estão se envolvendo tem que driblar muitos impedimentos para conseguir vivê-lo. Mas no Brasil, na comunidade da Maré, não poderia ser assim tão simples. De um lado Analídia (Cristina Lago), moradora da Maré, um lugar marcado pelo tráfico e pela violência, que é filha de um dos chefes do tráfico no local, e que está atualmente preso. De outro Jhonata (Vinicius D’Black), MC da comunidade que sonha em gravar um disco, e é irmão de Dudu, personagem de Babu, que disputa o controle do tráfico na Maré com o pai de Analídia. Em meio a disputa das facções rivais, Analídia e Jhonata se encontram no grupo de dança da comunidade, um refúgio através da arte, que é comandado por Fernanda (Marisa Orth). Como musical, algumas cenas de música e dança acontecem, até mesmo como uma espécie de batalha entre os dois grupos rivais. Uma espécie de retrato do que acontece em muitas comunidades brasileiras, onde a violência é corriqueira, mas muitas ONGs e projetos sociais aparecem como possibilidades artísticas. Pelo papel, Babu recebeu o prêmio especial do júri no Festival do Rio em 2007.

6 – Mundo Cão (2016)

Santana (Babu) e Nenê (Lázaro) medindo forças em um dos grandes momentos do filme.
(Foto: Globo Filmes)

O filme é estrelado por Lázaro Ramos e Babu Santana, e eles são monstruosos! Atuações impecáveis. A trama acompanha Santana, personagem de Babu, um homem tranquilo, pai de família, casado com Dilza (Adriana Esteves), e que trabalha no centro de controle de zoonoses de São Paulo, recolhendo cachorros de rua, em uma época em que a lei que proíbe o sacrifício de animais abandonados ainda não havia sido sancionada. Um certo dia, ele captura um rottweiler raivoso, e seu dono só aparece para buscá-lo dias depois, quando já era tarde demais. O dono em questão é Nenê, personagem de Lázaro, um ex-policial corrupto que faz fortuna de formas questionáveis. Nenê então trama sua vingança, em um plano que envolve o sequestro do filho Santana, que acaba se afeiçoando pelo seu sequestrador. Uma trama cheia de reviravoltas, derivadas de um roteiro muito bem amarrado. Um thriller carregado de suspense que fala sobre a eterna discussão do fraco versus o forte, disputa de poder, e um senso de revanche muitas vezes bestial.

5 – Café com Canela (2017)

Ivan (Babu) e Violeta (Aline) e o afeto, uma das marcas do filmes. (Foto: Divulgação)

Um filme delicado, de direção e fotografia muito competentes, mas que se sustenta principalmente pelas ótimas atuações do elenco. Destaque em vários festivais nacionais e internacionais, premiado e bastante elogiado mundo afora, principalmente por seu tato e sensibilidade. O filme é o primeiro longa do cinema nacional a ter uma mulher preta como protagonista. A mulher em questão é Valdinéia Soriano, que com brilhantismo interpreta Margarida, na qual a história é centrada. Margarida perde um filho e entra em profunda depressão e se isola do mundo, de tudo e de todos. Um certo dia, Violeta (Aline Brunne), uma ex-aluna de Margarida bate à sua porta, e então se inicia um processo de transformação. Margarida assume a missão de tentar devolver luz a uma pessoa que foi importante para ela na juventude, através de visitas, conversas e cafés com canela. Uma produção representativa, dirigido por duas diretoras baianas, Glenda Nicácio e Ary Rosa, foi inteiramente gravado no recôncavo baiano, conta com elenco de atores pretos, possui referências às religiões afro-brasileiras e ao cotidiano popular interiorano e a força da mulher. Na trama, Babu vive o médico gay Ivan, que também está em um processo de lidar com uma perda, fugindo de alguns esterótipos com os quais ele teve que lidar durante a carreira. Recentemente um monólogo dele viralizou nas redes, alguns minutos e uma atuação visceral. Um filme sobre afeto, força e retomada.

O sensível e preciso monólogo de Babu.

4 – Uma Onda no Ar (2002)

Os homens por trás da Rádio Favela. (Foto: Quimera Filmes)

O filme é baseado na história real da rádio favela, a “verdadeira voz do Brasil”, uma rádio comunitária que nasceu na comunidade Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, nos anos 80. Quatro amigos, Jorge (Alexandre Moreno), Roque (Babu Santana), Zequiel (Adolfo Moura) e Brau (Benjamin Abras), tem o sonho de espalhar sua palavra em um espaço que fosse verdadeiramente a voz da comunidade. E conseguem, a rádio se torna um sucesso e logo conquista os moradores por dar voz aos excluídos. Mas após realizar seu sonho, eles agora enfrentam o preconceito racial e a repressão policial e política para manter a rádio funcionando. Mais uma obra real, que mostra a difícil vida dos moradores de comunidades pobres, mas sem perder a leveza e a musicalidade, exposta através de seus carismáticos personagens. O filme foi gravado na comunidade onde tudo aconteceu na década de 80, usando cerca de 300 moradores como figurantes. Recebeu prêmios no festival de Gramado e no Festival Internacional de Miami.

3 – Estômago (2007)

Carpaccio no presídio. (Foto: Divulgação)

Outro filme extremante premiado do qual Babu fez parte. Tudo de forma muito merecida. “Estômago” é a flor da pele, real, cru, divertido e inteligente. Uma mistura sagaz de comédia e drama. Entre vários prêmios e indicações, no Brasil e mundo afora, foram cinco estatuetas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, o Grande Otelo, sendo uma delas, a de melhor ator coadjuvante para Babu. O filme acompanha Raimundo Nonato (João Miguel), um migrante nordestino na cidade grande buscando crescer na vida, ele arranja um emprego como faxineiro em um bar, mas acaba descobrindo na culinária sua verdadeira vocação. Tudo se complica quando ele se apaixona por uma prostitua do bairro, Iria (Fabíola Nascimento), e acaba preso e muda os hábitos alimentares do presídio. Babu interpreta o personagem Bujiú, colega de cela de Raimundo. Foi aqui que Babu recebeu seus primeiros prêmios, além de melhor ator coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, ele também foi premiado como melhor ator coadjuvante no Festival Internacional de Cinema do Rio, e no Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa.

2 – Cidade de Deus (2002)

Babu na pele do traficante Grande, o Big Boy. (Foto: O2 Filmes/Globo Filmes)

Um dos grandes produtos do cinema nacional na história, um marco. Dirigido por Fernando Meirelles, “Cidade de Deus” foi responsável por mudar o paradigma do cinema nacional, sendo único filme brasileiro até hoje a possuir quatro indicações ao Oscar, além de diversas outras indicações e prêmios ao redor do mundo. A história narra o crescimento do crime organizado na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, e gira em torno de Buscapé (Alexandre Rodrigues) um aspirante a fotógrafo, morador da Cidade de Deus, que desde de pequeno vivenciou a violência na região. Através da narrativa de Buscapé e de forma não-linear, com saltos temporais, se pode acompanhar a história do lugar através dos criminosos dali, do Trio Ternura até Zé Pequeno (Leandro Firmino), um ambicioso e sociopata traficante do local. Babu estreou no cinema em 2001, em um curta, seu primeiro papel em um longa-metragem foi em “Cidade de Deus”. Ele interpretou o personagem Grande, um traficante dono da boca de fumo que é tomada pelo até então Dadinho, no momento em que ele passa a ser Zé Pequeno.

1 – Tim Maia (2014)

“O Síndico”, por Babu. (Foto: Downtown Filmes)

Baseado no livro “Vale Tudo: O som e a Fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta, o filme é a cinebiografia de um dos expoentes da black music no Brasil, um dos ícones da música brasileira. Acompanha toda a trajetória do cantor, desde a infância pobre no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, passando pela emblemática viagem aos Estados Unidos, sem dinheiro, sem saber falar inglês, onde Tim descobriu um novo leque musical e foi preso por roubo e posse de drogas, fala dos amores, das inúmeras polêmicas, até sua precoce morte aos 55 anos. Passam pelo filme grandes nomes da música brasileira. Babu interpreta Tim na fase adulta, Robson Nunes é o interprete do cantor na juventude. Para o papel, Babu engordou 15kg e literalmente aprendeu a cantar, naquele que é o seu trabalho de maior expressão, o único até aqui onde ele interpreta o personagem principal da história. Pelo primor de atuação em “Tim Maia”, Babu foi premiado na categoria de melhor ator pelo festival de cinema do SESC, e venceu pela primeira vez na categoria de melhor ator o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.