Listamos os 25 melhores discos do ano no Brasil. Mais um ano em que montar uma lista com apenas 25 foi tarefa difícil, pois novamente a música brasileira rendeu grandes obras. Entre artistas estreantes, nomes históricos e discos dos mais diversos gêneros, não fizemos um ranking, apenas uma lista, mas elegemos o nosso preferido, apontamos o que foi para nós o melhor disco do ano. No mais, é agradecer por esse país ser lar de tantos artistas inventivos e criativos, e apreciar. Montamos inclusive uma playlist com uma música de cada um dos 25. Aproveite!

Baianasystem – O Futuro Não Demora (Maquina de Louco)

Se existe hoje uma banda nesse país que é capaz de absolutamente tudo e qualquer coisa, essa banda é a Baianasystem. Capaz, inclusive, de ver o futuro. Para nos contar que, ele pode não ser grande coisa, mas é urgente. Mais uma vez a maior banda do país na atualidade acerta, mais uma obra completa, daquelas que é difícil eleger uma música preferida. Destilando o seu hibrido musical multilinguístico característico, do jeito que só a Baiana sabe fazer, mistura em seu caldeirão de referências tudo aquilo que nós esperamos dela e entrega outra obra necessária. É um disco feito para dançar e contemplar, para pular e meditar, para acompanhar a energia do navio pirata ao mesmo tempo que faz pensar. O Futuro Não Demora é alinhamento preciso entre carnaval e discurso político afiado e mais do que nunca necessário. Em um ano onde vários e vários golpes de estado ao som da carabina foram vistos mundo afora, o disco pensa no futuro, mira no possível, mas acerta no agora, é contemporâneo, é didático, por isso é tão relevante.

As veias da América Latina continuam abertas, e sangram, por isso “Sulamericano” é single, por ser irretocável e atual, mas sim poderia ser um hino. Faixa que conta com a participação de Manu Chao. Aliás, grandes nomes participam do disco, em nove das treze faixas, especialmente artistas da cena da Bahia. Como Antônio Carlos e Jocafi, a Orquestra Afrosinfônica, Lourimbau, Samba de Lata de Tijuaçu e Vandal, além de BNegão, Curumim e Edgar. “Bola de Cristal” é um dos melhores exemplos aqui para o que é essa multidão de beats, ritmos e colagens, que caracteriza a banda e de novo aparecem com maestria. Um registro cíclico, um organismo vivo, colorido e pulsante, iniciado com “Água” e encerrado com “Fogo”, não falta e nem sobra, e no meio disso tudo, infinitas experiências sonoras. Passando por momentos onde a banda experimenta, apimenta e acerta no tempero, como em “Navio”, “Arapuca” e na mais divertida do disco, “Saci”. Surgindo com a pesada missão de ser o sucessor de Duas Cidades (2016, Maquina de Louco) O Futuro Não Demora é muito bem-sucedido. Se um dia a Baianasystem irá errar não sabemos, só o futuro pode dizer, mas o que esse futuro aqui diz é que isso é muito difícil de acontecer.

Dead Fish – Ponto Cego (Deck Disc)

“Preste atenção ao demagogo, há trinta anos nesse jogo, ele agora é a salvação, ele agora é a salvação / sem diálogo, nem projetos, dando graças ao ódio e ao medo / em meio à crise, autoritário opressor vem pra contagiar”

Quando Trump foi eleito, foi possível ouvir no meio musical que agora sim bandas com o discurso político direto ao ponto como o Rage Against the Machine iriam surgir novamente. Balela! A verdade é que nos últimos anos pouco se fala e se valoriza as bandas que fazem música com cunho social e político de forma furiosa. Então uma tragédia política foi eleita no Brasil também, e esse é o ponto de partida para a conceituação de uma obra de arte do hardcore brasileiro. Ponto Cego é o Brasil, politicamente um prédio em chamas com 200 milhões dentro. “Sangue nas Mãos” é um recorte político preciso do Brasil dos últimos anos. Babando como um cão raivoso indignado, a faixa fala de peito aberto, sobre a cumplicidade das panelas, sobre o grande acordo nacional e fala que foi em nome da família e de um torturador. Genial. Urgente e necessária. “Não Termina Assim”, aquela com as mais belas guitarras do disco, clama pelo fim dos dias de autoritarismo sendo bem otimista e critica as classes e pessoas manipuláveis. “Sombras da Caverna” é um soco no estomago com potencial de música chiclete do disco, é veemente ao criticar aos poderosos que querem manter pessoas submissas para seguir com seus privilégios. “Doutrina do Choque” abraça o punk e ataca o “predador neoliberal”, falando sobre a passividade da classe média e as inúmeras descabidas privatizações, o capitalismo do desastre. Tecnicamente irretocável, é o Dead Fish fazendo o que sabe, o trio parece mais entrosado que nunca e aqui soa um pouco mais melódico, com ênfase na voz. Ótima mixagem.

A parte final do disco é uma espécie de ato final de uma grande obra com a raiva e o teor crítico necessários. “Apagão” e “Janelas” falam sobre diversos absurdos legitimados por parte da população nos últimos anos. “Messias” é sensacional. A faixa começa com “bom dia grupo olha a notícia” em alusão ao derrame de fake news e ódio que ajudaram a eleger o atual presidente, a faixa é uma crítica aberta e necessária ao falso messias, sobre como a cegueira se tornou epidêmica, evidenciou a idiotice e instalou o caos. “Receita Para o Fracasso” poderia ser o hit tema do ex-presidente Michel, além de contemplar com louvor o caos do governo atual. E o disco se encerra com “Descendo as Escadas”, que é um desenho realista de parte da sociedade brasileira atual. Só mesmo uma banda com quase três décadas de vida, um histórico nome da cena hardcore nacional, poderia ter a fúria e a capacidade necessárias para nos dizer que chegamos ao ponto cego. Obra certeira, atual e fundamental.

Djonga – Ladrão (Ceia)

Ele já tá no terceiro e tem gente que ainda nem entendeu o primeiro. Três anos, três grandes obras. Esse é Gustavo, o Djonga. O meteoro do rap nacional. De Heresia (2017, Ceia) passando O Menino Queria Ser Deus (2018, Independente) e agora com Ladrão, ele passa de um quase desconhecido nome da nova cena do rap mineiro para um dos maiores nomes do rap nacional. Mais do que nunca: Abram alas pro rei! Como diz “Hat-Trick”, que abre o disco com a intensidade e veracidade nível Djonga. Ele segue fazendo rap dando a cara a tapa, sem medo de se posicionar, de forma crua e direta, o que importa é o que ele versa, o que suas letras dizem, em tempos de rap glamourizado e ostentação, Djonga é coragem. Mais vale a mensagem que os beats. Aliás, outra obra com instrumental e beats acertados, mixagem precisa em outro disco de Djonga com assinatura de Daniel Ganjaman na produção. Mas no final das contas, “playground de gente adulta é trampo”, verso de “Bené”, e Djonga faz o seu com a crueza e a retidão já características, e sem medo fala sobre sexo, relações pessoais, e expressa suas opiniões, por mais controversas que possam ser, sem papas na língua.

Mc Kaio na love song “Tipo”, Felipe Ret na ótima “Deus e o Diabo Na Terra do Sol”, que termina em grandioso estilo, e Doug Now e Chris MC em “Voz”, são as participações no disco. Como já é de lei em suas obras, Djonga mais uma vez coloca fogo em racista, são versos e versos assertivos dentro da temática, como ele bem sabe fazer. Em “Ladrão” ele versa sobre seu impacto na cena do rap/hip hip nacional atual, fala sobre agora por causa dele a carne negra vai se tornando a mais cara do mercado, dando voadora na cultura branca com a corda no pescoço, em referência ao clipe de “O Menino Queria Ser Deus” e manda um salve para os irmãos que nunca desacreditaram. Ladrão é um disco de retomada, que fala sobre gratidão e que apresenta uma clara conexão com suas raízes. Ele canta sobre o amor, fala da vida em comunidade e sobre família. O maior exemplo do cerne emocional conceitual da obra vem com “Bença”, uma bonita homenagem a sua avó. “Olhe pra suas nega véia e entenda / Que não é em blog de hippie boy que se aprende sobre ancestralidade”. Um mar de referências que vão de em mais um relato de Djonga onde só existem punchlines, uma atrás da outra. Ladrão é mais um degrau da subida Djonga rumo ao seu ápice, se reconectando com suas origens e com a forma mais pura e crua de fazer rap, demonstrando mais uma vez que hoje poucos possuem a habilidade de fazer rap, com destreza e lírica comparáveis a dele. O disco se encerra com de forma agridoce, quase que em contraponto a agressividade perspicaz de Gustavo, com um sample da clássica “Romaria” de Elis. Minas ainda é a terra do pão de queijo, mas definitivamente ela é agora a terra de Djonga, “gostoso igual”. Mais um preto que de jeito nenhum está passando a vida em branco.

Luisa e Os Alquimistas – Jaguatirica Print (Rizomarte Records)

A jaguatirica é um felino mamífero carnívoro de médio porte que ocorre em quase todo o continente americano. Rápida, de pelagem brilhante, possui hábito noturnos e caça armando emboscadas para suas presas. Fomos emboscados e jaguatirica de Luisa deu o bote, e ele é delicioso. A gente falou sobre a banda aqui, onde colocamos como um dos grandes nomes da cena potiguar atual. Luisa Nascim é mesmo impressionante. Das mais habilidosas artistas da atual cena. Junto com seus alquimistas musicais, presentearam o Brasil com um maravilhoso registro. O disco é um enorme caldeirão borbulhante, selvagem, brasileiro, enérgico, cheio de ritmos, colagens criativas e letras divertidas. Uma impressionante alquimia precisa de bregawave, brega-funk, afropop, arrocha, dub, rap, zouk e ragga. Um registro tanto brasileiro e latino quanto possível. Capaz de passear pelo mar do Caribe, entrando em ruelas a Jamaica, dançar na Colômbia e voar imponente pelos quatro cantos do norte e nordeste brasileiro. “Descoladinha” abre o disco cheia de cores e sabores e nos convida para a potente experiencia musical que se segue. “Tous Les Jours” possui partes da letra em inglês, francês, português e espanhol, com uma pegada afropop dançante. Em “Calor no Rio”, o tecnobrega explode e faz dançar.

A faixa homônima, feita em parceria com a Sinta A Liga Crew, Jessica Caetano e Jamila, é uma mistura eletrônica entre reggaeton e brega funk com uma letra que fala sobre o amor entre mulheres, respeito ao corpo feminino e resistência feminista. “Olhos de Tocha” impacta pelos beats bem colocados, distorções precisas e novamente chega dançante com um ótimo brega funk. A leveza vem com o eletrônico brega para dançar agarrado de “Furtacor”, das melhores faixas do disco. Apesar de todos os beats e da aptidão dançante do registro, é preciso destacar o vocal de Luisa, bonito e delicado. A alquimia perfeita em um disco que é o resultado de uma colagem criativa de gêneros latinos e tropicais feita com destreza e inventividade como raramente se vê. Que belo bote!

Alice Caymmi – Electra (Joia Moderna)

Alice evolui, cresceu, transcendeu, e chegou em Electra, seu terceiro disco de estúdio. Um registro que parece ser mesmo algo como se encontrar, como se ela já houvesse experimentado bastante, e aqui faz sua ancoragem musical. E esse porto seguro é impressionante. São dez faixas de releituras de grandes canções da música brasileira. Ela canta Maysa, Tom Zé, Tim Maia, Fagner, o pai, Danilo Caymmi, entre outros. O disco é aberto com “De Qualquer Maneira”, de Candeia, originalmente gravada em 1971, e promove uma festa regada a uma bela linha de piano que se abraça com a impressionante capacidade vocal de Alice. Por sinal, essa é a uma obra inteira de voz e piano. Impressionantes linhas de piano e um vocal espetacular, surpreendente a cada faixa. As dez músicas que compõe o disco foram gravadas em apenas dois dias ao lado do pianista Itamar Assiere. Demonstração da capacidade e de entrega, principalmente emocional de Alice. E felizmente essa emoção transparece e toca. E se derrama, como por exemplo em “Areia Fina”, da extinta banda Letuce, dramática, profunda, com um lindo solo de piano no meio da faixa.

A captação de voz é muito competente e ajuda a construir a paisagem emocional criada pelo disco, é possível ouvir os movimentos de boca, sussurros e a respiração de Alice antecedendo alguma frase de maior efeito, e como se o ouvinte estivesse ao lado dela e de Itamar em estúdio. Um registro dramático, sereno e sincero. Impactante. São instantes de mansidão que sucedem um abandono irreversível, é melancolia, medo, solidão e escuridão, ao mesmo tempo que é extremamente belo. Como na profunda “Mãe Solteira”, de Tom Zé. E sangra, de forma surpreendente cantando “Pelo Amor de Deus”, canção do terceiro disco de Tim. O registro se encerra com “Aperta Outro”, canção de Danillo Caymmi e Ana Terra de 1976, um samba refrescante que vai perdendo folego propositalmente até chegar ao silêncio e ao fim. Nana, tia de Alice, chegou a dizer que “a sobrinha não deu mel”, a gente discorda totalmente e só pode imaginar que ela tenha dito isso antes de ouvir Electra.

Emicida – AmarElo (Laboratório Fantasma)

Um disco que entra quase que instantaneamente para a lista de discos nacionais que são audição necessária. Impressionante, do começo ao fim. De “tudo que ‘nós tem’ é nós” a “se o gueto acorda, o resto que se fo*a!” com um horizonte musical em expansão entre um momento e outro. AmarElo é bonito, é brilhante, é solar, é necessário. Emicida usa samples com uma sagacidade louvável, conversando com seu filho, com o humorista Thiago Ventura contando uma história da sua quebrada no final de “Pequenas Alegrias da Vida”, na intro de “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)” um samba/rap que mistura beats com cuica e tamborim e que conta com a participação de Zeca Pagodinho ou mesmo deixando Belchior cantar. Um artista que segue em crescente, e impressiona por fazer isso a cada novo trabalho. Ele é uma crescente musical. Em AmarElo ele é sútil, carinhoso, romântico, é agressivo como muitas vezes é necessário ser nessa vida, é manso, bravo, sincero, canta a autoestima e a esperança, canta o amor. Um disco que é uma participação maravilhosa atrás da outra, com artistas fenomenais em todas as faixas, mesmo nas que Emicida canta só.

Entre essas participações, um impressionante momento dentro de uma obra impressionante. Primeiro Larissa Luz e Fernanda Montenegro, impecáveis, emocionais, quase surreais, em “Ismália”, já, uma das mais profundas e relevantes canções de Emicida, são seguidas por Dona Onete, Jê Santiago e pelo rapper português Papillon, em “Eminencia Parda” quase que complementando conceitualmente a faixa anterior, mirando e matando a Klu, fechando o grande trio que constrói um grande momento, a faixa título, amarelo como ouro, iluminada, com um sample de “Sujeito de Sorte” de Belchior, com as participações de Majur e Pabllo Vittar. Um disco que é um superlativo musical em onze faixas, um verbo. Obrigado Emicida.

“Meto o terno por diversão/É subalterno ou subversão/Tudo era inferno eu fiz inversão/A meta é o eterno, a imensidão/Como abelha se acumula eu subo a telha eu pastoreio a negra ovelha que vagou dispersa/Polinização, pauta conversa/ATÉ QUE NOS CHAMEM DE COLONIZAÇÃO REVERSA!”

Bex – Clocking Days (Rizomarte Records/Tratore)

Disco de estreia de Rebeca Gibson, sob seu álter ego musical, Bex. Cantora, compositora, produtora e multi-instrumentista carioca radicada em Natal. Por conta da evolução tecnológica fica mais fácil a cada dia a produção e criação de música eletrônica, o que gera produtos cada vez mais pálidos e nada profundos no gênero, sem criatividade. Bex é uma luz fluorescente e jovial nesse universo musical eletrônico. Responsável por vocais, gravações de todos os instrumentos e produção do disco, ela faz um som que bebe de fontes como o urban jazz, R&B e hip hop e os trabalha aliados a alguns subgêneros da própria música eletrônica, como o lo-fi house e dub, de forma espontânea, sagaz e experimental. Junto a isso um vocal primoroso, melódico, sutil, arrastado quando deseja soar um pouco mais sombrio, por vezes melancólico, mas sempre muito acertado e bonito. Como por exemplo no single “Lately”, que fala sobre o afastamento de si mesmo por conta do abuso do consumo de álcool. O também single homônimo, lançado como previa do disco, ela fala sobre a monotonia do dia-a-dia, que resultam em inseguranças e questionamentos. O mantra “Despair”, traz beats assertivos e pontuais, e é capaz de fazer levitar.

A obra por inteiro é conduzida por um som criativo, cheio de diversas camadas até mesmo de voz, sonoridade moderna, aberto as mais diversas interpretações, capaz de provocar os mais diversos sentimentos. Existe beleza na dualidade, entre a complexidade das colagens e a sutileza dramática dos vocais. Um som cheio de alternância e possíveis caminhos, é pleno, repleto e contemplativo. Em um disco que pode ser dolorido, passional, sensual e melancólico. São apenas sete faixas e uma estreia poderosa de Bex, capaz de fazer flutuar, dançar e refletir. E que seja apenas o primeiro de grandes trabalhos feitos por ela.

Jaloo – ft (pt.1) (Elemess)

“ft” é a abreviação de “featuring”, o famoso “feat”, palavra em inglês que aponta parcerias. Ft de Jaloo é isso, uma parceria qualificada atrás da outra. Ele canta a cada nova faixa com um ou mais convidados especiais, são onze ótimos feats. “Dom”, que abre o disco é cantada em parceria com Karol Conká e Pedrowl, Gaby Amarantos na faixa seguinte, “Q.S.A.”, MC Tha aparece no maior hit do disco, das maiores canções da música brasileira no ano, a maravilhosa “Céu Azul”, Nave em “Doi d+”, uma espécie de sutil e entristecido trap amazônico. Na sequência Céu e Diogo Strausz aparecem na delicada “Sem V.O.C.E.”, JLZ colabora em “Atabaque Chora” que conta com um delicado e fundamental naipe de metais. Jaloo se junta a Lucas Santtana na releitura paraense, eletrônica e dançante de “Cira, Regina e Nana”, grande hino de Lucas. Os beats de funk aparecem na parceria com Lia Clark, em “Movimentá”. O Pará inteiro dança ao som da levada da guitarrada romântica em “Eu Te Amei (Amo!)”, feita em parceria com dois grandes ícones históricos da música paraense, a sensacional Dona Onete e Seu Manoel Cordeiro. Quase dizendo adeus “Say Goodbye” chega com uma roupagem eletrônica, em uma canção sentimental e dramática, single que havia sido lançado ainda ano passado. Encerrando o grandioso segundo disco de Jaloo, um “Último Recado”, apenas um recado em forma de poesia em parceria com Charles Tixier e pouco mais de um minuto.

Jaloo demonstra versatilidade, para passear entre gêneros agregando a eles com muita delicadeza e perspicácia toda a sua regionalidade. Demonstra sua capacidade de compartilhar a cada nova faixa, em uma nova parceria todo o amor, com melancolia, sentimento e paixão. Um disco que acima de tudo transparece sentimento, um desembocar emocional a cada nova canção, e que ensina que o sentimento deve ser compartilhado. O amor é um ft.

Fafá de Belém – Humana (Joia Moderna/Tratore)

Preciso e precioso. Que consegue ser dramático e sentimental e ao mesmo tempo belo. É preciso coragem e vontade de fazer o novo para se reinventar, mudar artisticamente, adicionar novos elementos à sua música e com isso fazer uma grande obra. Maria de Fátima tem essa coragem em Humana. Entre os nomes históricos da música brasileira, com quase trinta discos lançados e mais de quarenta anos de carreira, Fafá ousa abraçar a modernidade, em um disco mais eletrônico, reto, preciso. Grande destaque para o vocal, característico e marcante, que segue rasgado e contundente. Aqui, ela sussurra, fala baixinho, usa a voz de formal hábil e penetrante, e consegue o impacto. A tríade que abre o disco é um derramar de emoção, poesia e melancolia. “Ave do Amor” chega mansamente cantando que “somos lágrimas de toda hora”, com dramaticidade vocal quase teatral de Fafá, ótima bateria e um bonito piano. Drama, que diz muito sobre o que será a obra completa. “Revelação”, clássico eternizado por Raimundo Fagner, vem a seguir, recebida com uma naturalidade de uma versão preciosa, que carrega com uma dor quase palpável. Fecha o trio o single do disco, “Alinhamento Energético”, canção de Leticia Letrux. E chega com uma base instrumental jazzística, principalmente criada bateria. Aliás, o flerte com o jazz permanece e reaparece de forma muito bem colocada em vários momentos do registro. Um momento de respiro que aclimata todo o drama que vem a seguir.

Outras preciosidades ainda chegam, como “Eu Sou Aquela”, mais um diálogo com o jazz carregado por uma base instrumental fina e sutil em uma canção provocativa. Em “Não Queiras Saber de Mim”, um pop-blues português, Fafá é graciosa e delicada. Encera o disco uma versão limpa e sincera de um dos maiores clássicos de Lulu Santos, “Toda Forma de Amor”. Um disco que tem uma construção instrumental unificada criada por piano, guitarra, baixo e bateria, costurando arranjos que transmitem uma bonita sensação de intimidade e aconchego, fundamental para a aclimatação da obra. Humana passeia por várias fases da MPB, sendo ao mesmo tempo oitentista e atual, alcançando um equilíbrio perspicaz ao pesar o reflexo dessas diversas referências na obra. Fafá, aos 62, mais uma vez demonstra toda sua capacidade, dialogando com as mais diversas gerações através de canções que, mesmo sendo de diferentes épocas, falam a todos e a qualquer um.

Mariana de Moraes – Brisa do Mar (Dubas/Tratore)

Há quem diga que a herança genética é a única inegável. Neta de Vinicius de Moraes, Mariana lançou esse ano seu quinto disco. Uma obra acima de tudo brasileira. Com o sotaque tupiniquim, ela faz versões de nomes históricos da música nacional. Mariana canta Milton Nascimento, Maysa, o próprio Vinicius, Tom Jobim, Gilberto Gil, Djavan e alguns outros. Um disco poliglota, majoritariamente cantado em português, mas que possui canções também em italiano, como a rejuvenescida e deliciosamente dançante “D’improviso”, em inglês, na faixa bônus do disco, “Some Time Ago”, voz e piano em uma versão sentimental do cantor e pianista argentino Sergio Mihanovich e em francês, em “Suele”, produto de uma preciosa e rara parceria de seu avô com o poeta Pixinguinha. Há ainda uma versão de um samba quase desconhecido de Djavan, lançado em 1976, que ganha uma nova cara, sorridente e iluminado. E uma versão passional de “Preciso Aprender a Só Ser”, de Giberto Gil, lançada em 1976.

Mariana solta a voz para celebrar a música brasileira. Que é celebrada desde o título do disco, inspirado em uma canção de 1981, de João Donato e Abel Silva e interpretada por Nana Caymmi. Os sotaques brasileiros são vários, na música, e aqui, também. Com uma linguagem instrumental com base bossanovista, tem samba, choro, MPB e lógico, bossa, em um repertório precioso que resulta em um grande disco. Tudo isso levado pelo talento e graciosidade de Mariana, que aqui demonstra toda sua força e capacidade como intérprete. Um disco brasileiro, belo e que afirma que a linguagem da música é atemporal, e que o melhor da música brasileira merece muito ser celebrado.

Black Alien – Abaixo de zero: Hello Hell (Extrapunk Extrafunk)

O alienígena negro não erra. Capaz de se expressar de forma impactante em apenas vinte e seis minutos, em um emaranhado peculiar de referências e flows, em um disco que demonstra que aos 47 anos ele chegou ao seu auge criativo. Apesar de demonstrar aqui, que é possível sim que o auge mude e chegue em algum lugar no futuro da sua discografia. Apenas o terceiro disco solo de Gustavo de Almeida, Abaixo de Zero chega após a dupla de registros icônicos que foram a série Babylon by Gus, Volumes 1 e 2, o primeiro de 2004 e o segundo de 2015. E como se nada pudesse superar a grandiosidade dos dois volumes anteriores, muito se esperou de um novo registro de Black Alien, e ele veio, com a sobriedade urgente de um dos nomes históricos da música brasileira, em um registro potente, necessário e com o explorar de um horizonte que só mesmo alguém como Gustavo poderia fazer. Abaixo de zero é o primeiro disco sóbrio de Gustavo, que viveu entre clínicas de reabilitação e quase morreu vencendo seu hell pessoal que era a dependência química, assim ele brinda uma nova fase que abre suas possiblidades artísticas para o futuro, ele se permite e entrelaça trechos melódicos sublimes que formam uma obra completa.

“Aniversário de Sobriedade” celebra essa vitória em uma canção confessional, assume a culpa e inspira quem vive o mesmo inferno que ele, e que conta com uma linha de sax incrível no fim da faixa. Aliás, os metais são muito bem colocados durante todo o disco. Black alinha referências de forma quase inacreditável, a começar pelo single do disco “Area 51”, das grandes canções da música nacional no ano, referências múltiplas incrivelmente alinhadas, eloquência e sua característica lírica bereta, em uma faixa que ele fala sobre expurgar seus demônios com espertas e ácidas críticas a sua fase como dependente. Em “Cartas para Amy” ele mensura o peso da fama de forma provocativa, falando sobre artistas como Kurt, Nina, e a própria Amy. São dez composições ricas, entre pedradas e romantismos, de um artista versátil que segue vencendo, qualquer que seja a luta. Em um momento de rap comercial, com uma enxurrada de traps despropositados e um infinito uso de eletrônica, Gustavo usa o jazz, o soul e um hip hop noventista como base instrumental em uma linguagem clássica, honesta e direta. Sendo por vezes escrachada, por vezes metafórica, mas sempre muito verdadeira e poética.

YMA – Par de Olhos (Matraca Records/YB Music)

Indie pop oitentista romântico. Elétrico, com beats assertivos, por vezes dançante por vezes contemplativo e sutil, com vocal adocicado e encantador, guitarras sujas, sintetizadores nebulosos e linhas de baixo tão cremosas quanto sombrias. Assim soa o disco de estreia da paulistana Yasmin Mamedio, sob a alcunha artística de YMA. Diante de tanta urgência no universo musical, Par de Olhos é uma verdadeira vereda quase infinita de paz e nenhuma pressa, nenhuma urgência. Um passeio por diversas eras, um misto perspicaz de passado e presente em uma linguagem ímpar. Embriagado em fontes como o dream pop e psicodelia, o disco é um passeio em um jardim de ideias que ecoam através de muito bem costurados fragmentos de poesia. Poesias musicais sobre medos, angustias, inquietações e decepções. “Evaporar” abre o registro iniciando o passeio pelo sublime, com uma poesia levada pelo vocal adocicado de Yasmin. A faixa título vem na sequência, bela e viciante sem excessos, com uma atmosfera interplanetária criada por sintetizadores no início da faixa que logo abrem espaço para guitarras psicodélicas encaixadas de forma brilhante, e novamente, a voz é um deleite. Fantasmagoricamente, “Vampiro” se apresenta como uma confissão, com um romantismo refinado e quase sobre-humano: “Com você, eu ouvia até o silêncio”. “Sun and Soul”, feita em parceria com a banda sergipana Lau e Eu, uma das quatro faixas em inglês do disco, parece transportada diretamente de uma transmissão de uma rádio californiana nos anos 80. Sintetizadores e guitarras assertivas, delicadas, como a voz de Yasmin, contemplam a melancolia com uma beleza nostálgica. A pista de dança se abre de vez com a chegada da inebriante “Pequenos Rios”, onde se dança com a tristeza através de versos sobre um receio acerca de um rompimento amoroso e que são sustentados por beats inquietos.

Um disco que dialoga internamente, com faixas que se complementam, na lírica ou na melodia, para que no fim sejam dez faixas que são caminhos que se cruzam, mas que vão para o mesmo lugar, para no fim, formam uma unidade. Par de Olhos é um delírio pacífico, sem excessos e sem urgência. Não se perde em tentar surpreender, mas surpreende pela experiência que proporciona com a criação de um novo universo sonoro criativo. Par de Olhos é um abraço aconchegante em meio ao caos urgente. 

China – Manual de Sobrevivência para Dias Mortos (Independente)

“Fascista, cidadão de bem, tabacudo, vai tomar no c*!” – “Até dói ser tão realista / Saber que tanto cristão diz ‘amai a todos irmão’/ Mas calam se o preto é executado / Só abrem a boca se o preto é cotista”

China chega cru, reto, direto ao ponto. Um pé na porta que faz a transmissão de suas ideias sem a necessidade de florear, com a urgência política necessária no Brasil atual. Toda essa crueza poderia gerar pontos negativos a obra, é o contrário, em um momento onde se homenageia torturador, em meio a um chorume de tanto conservadorismo hipócrita e se pede a volta regimes militares, a clareza nas ideias aqui permite a fácil captação destas, e por isso essa crueza é um grande mérito. O pernambucano China bebe nas melhores fontes de sua terra, se utiliza do frevo e manguebeat, de mãos dadas com o rap, rock alternativo e hardcore para costurar seu emaranhado de referências com atitude punk. Destaque para a percussão no disco. Algumas participações especiais abrilhantam o registro. A poetisa Bell Puã está em “Moinhos de Vento”, poesia crítica em meio a guitarras contundentes que buscam expressar o caos. Em “Pó de Estrela” ele se junta a Uyara Torrente, em uma canção profunda e romântica, que resulta no momento de mais mansidão do registro. “Frevo e Fúria”, parceria com Andreas Kisser, encerra o registro. Beats, percussão e logico, guitarra efervescente, findando de forma contundente um ressonante produto.

São quase que duas partes dentro de uma mesma obra que por inteiro soa dolorida, atual e crítica. Na primeira, as ideias ligadas a sociopolítica e ao momento tenebroso brasileiro ganham vida através de fúria e pressa. Na segunda, resignação, um pouco mais de calma, como se fosse necessário também, respirar, recobrar a consciência para que se volte a luta. São muitos momentos ferozes, como alguém que não se cala, e alguns momentos emocionais, como esse mesmo alguém, que sofre, justamente por não se calar.

Larissa Luz – Trovão (Independente)

Como alguns nomes dessa lista, Larissa é hoje no Brasil audição necessária. Cantora, compositora e atriz baiana, diz que o disco é uma mistura de sinestesia, ancestralidade e música eletrônica. “Macumba pop”, como diz o texto de apresentação. Fato é que o disco é resultado de um mix bem feito de ideias. Uma ode aos ritmos afro, com percussão feroz, programação e beats contundentes. Vai do terreiro à rua com muita habilidade. Aqui, Larissa faz uma busca pela conexão com a natureza ao mesmo tempo que se utiliza da vida urbana, efêmera e acelerada. “Gira”, quinta faixa do disco e que foi lançada como single, talvez seja capaz de condensar as ideias de Larissa para a obra como um todo. São camadas eletrônicas conferidas por beats futuristas e percussão orgânica, aliados a guitarra de Chibatinha, do Àttooxxa, que faz a guitarra em todas as faixas, resultando em um êxtase transcendental que ela sim alcança: “bateu!”. Um time de respeito contribui com a obra. Além de Chibatinha e Rafa Dias do Àttooxxá, estão presentes Ellen Oléria, Lazzo Mutambi, Leiteres Leite, Gabi Rocha e Luedji Luna.

Trovão é o resultado de um criativo cruzamento de ideias, que passeiam entre África e ruas movimentados do Brasil. Um ambiente ritualístico criado por letras tematicamente poéticas e batidas muito bem trabalhadas, que podem ser tanto orgânicas, propositalmente tortas e perfurantes, com em alguns momentos são de total experimentação. Resultando em um instrumental peculiar que aliado aos versos de Larissa conferem a identidade bonita e simbólica da obra. Um disco enérgico, dançante, afro-hipnotizante como na maravilhosa penúltima faixa “Hipnose”. Trovão é Luz, e ecoou no céu da música brasileira com contundência, inventividade e destreza.

MC Tha – Rito de Passá (Independente)

Em seu disco de estreia, a cantora e compositora paulistana pede passagem, “abram-se os caminhos”, diz o interlúdio que abre o registro e se conecta naturalmente com a faixa seguinte, faixa-título e grande hit do disco. Com beats e sintetizadores simbólicos que anunciam o muito que ainda virá. Uma obra potente e sensível na mesma medida, por isso é também provocativo, pois gera uma experiência ambígua que toca no ouvinte de formas diferentes. “Coração Vagabundo” fusiona samba, axé e funk em uma canção romântica contemporânea, dançante e evolvente. “Onda” chega reforçada pela potência do Pará, aliada ao vocal de Jaloo e a guitarra de Felipe Cordeiro, em uma bonita faixa que é uma ode a entrega emocional sincera e ao prazer. “Oceano” chega como um momento de calmaria, introspectiva cantando sobre aflições. O clima solar é retomado na faixa seguinte, “Despedida” fala de forma agridoce sobre abrir mão de forma saudável de relações que já não mais fazem bem, por mais difícil que isso possa ser, flertando com regionalismos e as pistas de dança. Nas duas faixas finais ele retoma suas origens, com o seu funk “onde o som é grave e a letra é forte”, com “Avisa Lá” e “Comigo Ninguém Pode”, canção afirmativa que conta com um poema de Jaloo rasgando elogios a amiga nos segundo finais da faixa.

O funk nacional finca os pés no futuro através da atuação de Tha, costurando canções com uma mistura delicada e perspicaz de gêneros, juntando o funk com Soul, MPB, Axé e R&B, com pitadas fundamentais de regionalismos. Criando um som amplo, mas que reconhece suas origens.

Rincon Sapiência – Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps (MGoma)

Rincon muda o rumo da sua estética comparado ao seu disco anterior, o poderoso Galanga Livre (2017, Boia Fria Produções) e mete dança como nunca antes. A dança, com o movimento de break, surgiu como elemento importante na criação e impulsionar da cena hip-hop nos 70, antes mesmo do elemento música fazer parte contundente do movimento, que veio como uma evolução através das batalhas de rima. Rincon então vai nas mais profundas raízes do movimento para sustentar a conceituação do disco. Aliada a ela o caráter político critico permanece, além da conexão com a ancestralidade do continente mãe. A África está por todo o disco, colorida, dançante, criativa. Rincon inclusive conta com o talento de Famoudou Konatè, percussionista que é um dos grandes nomes do djembe, um tipo de tambor característico de Guiné-Bissau. Assim o Manicongo se utiliza de diversas formas dos beats e programação eletrônica, fazendo uso de experimentações no grime, funk carioca e pagode baiano, explicitado na ótima “Arrastão”, faixa feita em parceria com o Àttooxxá. Ele vai do Brasil de 2019 a África com a mesma velocidade de quem mete dança no passinho, e celebra esse passeio intercontinental através dos beats e de seus flows característicos, até mesmo das linhas de berimbau em “Real Oficial”. Rincon celebra a dança e o direito a dança, sobre a premissa de que quem não dança, dança. Ainda colaboram no disco Lellê, 3Duquesa, Audacia, Rael, Gaab e Mano Brown.

“Tô vivendo tipo meu cabelo / não pretendo ficar liso”.

Celebrando a cultura do MC, Rincon expande seu horizonte se permitindo ainda mais, experimentar para ele nunca foi um problema, mas o faz sem perder as características inerentes a sua arte e seu jeito cada vez mais versátil de fazer rap. Aqui ele trabalha com base no afrorap com a habilidade que só mesmo ele poderia fazer. O seu já clássico verso livre encerra o disco em alto nível com “Primeiro Volante”. Uma obra rica nos detalhes, pensada em cada beat e que por isso pode se tornar maior e melhor a cada novo audição, e sempre um convite para meter dança. Resultado do notório amadurecimento de Rincon.

Ana Frango ElétricoLittle Electric Chicken Heart (Risco)

Surpresa, riso, felicidade externada, novidade, fuga da mesmice, múltiplos gêneros conversando em uma confusão organizada. O que não se vê aqui é retidão. Cada nova faixa é uma curva fechada em uma estrada pavimentada com as mais diversas cores, acordes e sabores por Ana Fainguelernt. Nome verdadeiro da responsável por um dos grandes registros da música brasileira nos últimos anos. O disco é um verdadeiro exercício de descoberta, pouco menos de meia hora acaba sendo pouco para tanto sabor de novidade. E esse exercício permanece a cada nova audição. Toda vez que se revisita o disco ele soa como algo novo, um novo exercício de descoberta aberto a novas interpretações. Aparentemente a lírica pode ser confusa, com letras que mais complementam a lírica e a rítmica do que qualquer outra coisa, mas funciona assim, elas dizem o que querem dizer e a descoberta também está aí, nas possibilidades abertas por verdadeiras varandas que ninguém vai, desocupadas, construídas a cada nova frase. E construídas com versos que podem ser tensos como em “Torturadores”, mas na maior parte do disco são versos divertidos, sobre situações inusitadas, sobre o simples olhar para a cidade e o cotidiano, como em “Caspa”, um divertido samba cantado em coro que encerra uma maravilhosa obra. No fim, tudo que é versado se faz poesia de forma simples e mágica.

O vocal muito bem arranjado, peculiar e delicado de Ana recebe com aconchego um instrumental fenomenal. Composto por uma guitarra que pode ser empoeirada e linda quase que ao mesmo tempo, um baixo cremoso e uma bateria fundamental na rítmica do disco. Junto a eles os metais, que aqui é formado pelo trio de trombone, saxofone e trompete, e são um espetáculo à parte. Nove faixas é um registro com uma sonoridade peculiar de um indie rock/pop rock, que ganha um requinte particular e original ao se conectar fortemente com bossa-nova, samba e um pop setentista digno de Rita Lee. Little Eletric Chicken Heart é um registro experimental que sabe experimentar. Que parece ir de qualquer lugar para lugar nenhum, mas assim vai por todos os lugares, é um passeio descompromissado e feliz que sempre se quer repetir.

BRVNKS – Morri de Raiva (Sony Music)

Quando em 2016 Bruna Guimarães como BRVNKS lançou o EP Lanches (Independente) seu registro de estreia, ela logo figurou entre as artistas para se ficar de olho. Desde então foram vários e importantes shows e para o público a espera pelo seu próximo trabalho. Ele veio como um disco cheio, seu disco de estreia. Um disco cheio de sentimento, de diversos tipos. Melancolia, tristeza, ódio, raiva, mas nenhum amor. Aqui Bruna fala sobre suas experiencias de vida, relações, desilusões até mesmo ódio mortal, explicitado na deliciosamente frenética sexta faixa “I Hate All of You”. Um maravilhoso contraponto entre o vocal adocicado de Bruna e o que ela canta: “i hate all of you ‘cuse you’re so stupid / ‘cuse you’re so looser / i wish you’ll could die…”. São diversos momentos colocados de forma sincera e com o uso de algumas metáforas que explicitam musicalmente o universo particular de Bruna. Duas faixas do EP reaparecem aqui, “D’ont” e o hit F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B (Freedom Is Just a Name For What I Want You To Be)”.

São dez faixas e a impressão é que a temática confessional permeia todo o registro, mas com uma primeira metade do disco mais sutil, agridoce, com as guitarras ainda mansas, e com canções que ainda se derramam em melancolia, um bom exemplo é “Yas Queen”. A partir da quinta faixa a bateria se acelera, Bruna solta a voz e as guitarras se espalham. Quase que indo da melancolia a raiva. Um bom exemplo dessa segunda parte é “I’m My Own Man”, com solos rasgados e ótimas viradas de bateria. Indie rock com fortes influências de rock alternativo noventista e algumas boas pitadas de dream pop. BRVNKS parece ter encontrado sua sonoridade e a faz com bastante maturidade, e aqui a contempla com letras sinceras e divertidas. O disco se encerra com a ótima “Snacks”, quase que conversando com Lanches, contemplando o BicMac. Faixa onde BRVNKS mostra que ainda pode ter fome, e que assim seja, que essa fome musical continue e que ótimos registros como esse continuem chegando.

Jards Macalé – Besta Fera (Pommelo)

Como bem sugere a capa do disco, ele se trata de um conviver musical pacifico entre fragmentos de luz em meio a trevas contínuas. Do alto de seus 75 anos de idade, Jards Macalé é por si só um ato de resistência, o maior exemplo disso é a capacidade de explorar com uma ternura palpável os mais diversos assuntos atuais e dele extrair o suficiente para a produção de uma grande obra. Seu primeiro disco de inéditas em quase vinte anos. Em Besta Fera, Jards cria um ambiente sombrio, quase fantasmagórico passeando entre passado e presente. Aclimatando a poesia urbana crítica de Jards, “Vampiro de Copacabanda” abre o disco de forma soturna, como uma entidade que caminha nas sombras sob o sol do Rio, em meio a ruídos produzidos pela crescente guitarra que apontam para a sujeira que Jards coloca no disco de forma proposital. A partir de uma chuva torrencial de ideias um labirinto sonoro se forma, colocando o ouvinte de frente para o caos. Caos de um Brasil atual, abordado na forma de um borbulhar poético em “Trevas”. Uma melancolia depressiva é narrada como um dolorido ato de separação em “Buraco da Consolação”, uma ótima parceria com Tim Bernardes. Outra linda parceria chega em “Peixe”, uma conversa musicada ao lado de Juçara Marçal. A tríade de parcerias que contribuem no disco se encerra com Jards e Rômulo Fróes juntos no bom samba marcado pela cuíca “Longo Caminho do Sol”.

Construído com uma rítmica torta, feito para instigar, com sujeira proposital sob fortes influências de infinitas trevas, seguidos contrastes dentro de instantes de caos, sentimentos tristes, passional e sincero. Mas no fim, a saída do labirinto é encontrada. Se em algum momento ele parece se perder dentro da sua própria conceituação, isso não acontece. Até mesmo essa turbulência parece ser proposital. Tecnicamente impecável, Besta Fera é preciso, contundente, e por isso é tão verdadeiro.

“Nem quero que saibam o valor de minhas canções / Se boas ou más pouco me importa / Elaborei com muito calor / E nesse trabalho eu levo a flor…”

Elza Soares – Planeta Fome (Deck Disc)

Por muitos considerado o melhor do ano. Por mais gente ainda considerado o melhor de Elza dentro da sua sequência de lançamentos nos últimos anos. Desde A Mulher No Fim Do Mundo (2015, Circus) passando por Deus é Mulher (2018, Deck Disc). Fato é que Elza, do alto dos seus 82 anos, retomou de forma de brilhante sua carreira com seus últimos lançamentos, confrontou, se mostrou mais do que nunca uma verdadeira entidade da música brasileira, angariou um novo público, e Planeta Fome é mais uma prova de tudo isso. De forma sussurrante e poderosa, Elza avisa logo de cara: “Eu não vou sucumbir”. Acompanhada pelo instrumental da Orquestra Rumpillez e da Baiana System e por Virgínia Rodrigues na faixa de abertura “Libertação”. O interlúdio “Menino”, logo na sequência é uma lufada de ar poética antes de todo o derramar lírico e a reconexão profunda de Elza com o samba, gênero que a consagrou, marcas de um grande disco e que permanecem até o fim da obra. Além do samba Elza explora gêneros como o rock, rap, e experimenta, especialmente na utilização de elementos regionais. Com mais de 60 anos na ativa, incansável, Elza usa dessa experiencia para fazer música com artistas da nova cena nacional. BNegao e Pedro Loureiro participam na faixa “Blá Blá Blá”, acelerada, atual e com guitarras incessantes, sampleando com sagacidade a clássica “Me Dê Motivo” de Tim Maia. Rafael Mike é o parceiro da cantora em “Não Tem Mais Graça”, um dos grandes momentos do disco que brada: “A carne mais barata do mercado não tá mais de graça / O que não valia nada agora vale uma tonelada!”.

Um relato sincero e verdadeiro de Brasil, dos vários Brasis, feito na forma de poesia musicada e com a capacidade vocal de Elza Soares. Um disco profundo, amplo e contemporâneo como poucos. Os Brasis são vários e o momento não é o melhor. Um Brasil que por muitas vezes se diz conservador e age assim, mas por outro lado não perde a malandragem que lhe é característica. Elza sabe disso e assim canta. Usando os vários Brasis como ideia central conceitual. Uma ótima prova disso é “Comportamento Geral”, canção de Gonzaguinha que faz a conexão entre a meritocracia e o simples direito de tomar uma cervejinha. “País Sonho” chega na forma de um samba acelerado e elétrico, de forma otimista, como o brasileiro tem tido que ser cada vez mais e pede esperança através da luta. A faixa abre a parte final, a mais combativa e afirmativa do disco, as últimas quatro faixas do registro. Junto a ela “Pequena Memória Para um Tempo Sem Memória”, samba contestador, enrijecido e sombrio. A seguir vem “Virei o Jogo”, afirmativa como um milhão de sims. E por fim, “Não Recomendo”, distorções saborosas de guitarra, percussão efusiva e uma letra poeticamente poderosa e uma canção sensacional que sobe os créditos e encerra uma obra irretocável. Disco certo no momento certo. Novamente e mais firme que nunca, Elza acerta em cheio.

“E vamos à luta!”

Julio Secchin – Festa de Adeus (Independente)

“Se a vida é um sopro / Quero Vendaval / Se ainda for pouco / Quero Carnaval”.

Nada mais brasileiro que vários dias de festa, como a nossa maior celebração de todas, o carnaval. Festa de Adeus não chega em tom de despedida, como se dissesse adeus, pode soar melancólico sim, mas acima de tudo ele faz muita festa, faz um carnaval. O carioca Julio Secchin traz uma obra que é um carnaval a cada nova faixa, é celebração, é uma mistura acertada entre contemporaneidade e nostalgia. Acima de tudo, o disco é um passeio por vários gêneros brasileiros, tem MPB, axé, bossa, samba e funk, estejam eles ressaltados por faixas inteiras ou aparecendo com alguns elementos dentro de alguma canção. “Tem pouco fevereiro pra muito carnaval”, com essa frase o disco é aberto e a festa começa, com “Quero um Carnaval”. Um início extasiante na forma de axé minucioso e ensolarado, com marcantes instrumentos de sopro e uma maravilhosa percussão, além do vocal manso e característico de Secchin. A faixa-título do disco vem na sequência, em tom romanticamente dramático, a faixa flerta com alguns momentos de Chico Buarque e Caetano, brasilidade no batuque e uma letra de entrega que canta a dor de uma despedida, ainda que essa seja libertadora. A conexão com a música baiana e seus batuques se faz também em “Boi Tolo”, naipe de metais incrível, percussão pulsante e mais uma canção romântica dançante. São versos de profunda entrega sentimental, românticos, intimistas e agridoces, mesmo que esses venham acompanhados por batidas perfurantes, são ritmos conversando entre si de forma iluminada e graciosa. Sempre com cordas afiadas, metais bem colocados e um instrumental fundamental na aclimatação conceitual da obra.

“Pra Que Ser Tão Normal” chega singela e mais sensível a cada novo verso. A beleza lírica emocionada e intimista se acentua na faixa seguinte. “Me Acorda Antes de Partir” é uma bossa minimalista, com um romantismo desiludido narrado em versos com refinamento poético perspicaz, e é uma ótima prova de que a brasilidade mirada na base conceitual é sim alcançada. Mas o limite sonoro empregado em Festa de Adeus só é alcançado na derradeira canção, “Arco-íris Preto”. A prova de toda a capacidade criativa de seu autor é explicitada em uma faixa com melodia turbulenta, cheia de ruídos animalescos, metais que crescem e diminuem a todo momento e uma letra que descreve de forma crua e atual a cidade do Rio de Janeiro e alguns de seus personagens, um leve rompimento com o restante da obra e um encerramento em alto nível criativo. Pouco menos de vinte e cinco minutos e um disco minucioso, a ser descoberto a cada nova audição. Um disco para se saborear, seja dançando, sorrindo, seja apreciando a poesia cantada por Julio em seu precioso disco de estreia.

Liniker e os Caramelows – Goela Abaixo (Independente)

Liniker não perde o tom. E aqui seu tom é de saudade, de melancolia, mansidão e compreensão, ou a falta dela. “Brechoque” é o interlúdio que abre o disco, com a força e a urgência necessária em pouco mais de um minuto, onde Liniker à capela compara o amor a roupas de brechó, e de forma criativa e instigante abre o registro preparando o ouvinte para o que se segue. O que imediatamente se segue é “Lava”, uma das melhores faixas do disco, uma mistura de ritmos que remetem ao norte com uma letra onde extravagância e simplicidade conversam e se entendem. “Beau”, faixa gravada na Alemanha, mistura idiomas em uma narrativa cheia de metáforas sexys, como Liniker bem sabe fazer, pitadas de tango em meio a uma sonoridade que flerta com as raízes da black music. O disco cresce em uma sonoridade que mistura R&B, Soul, MPB e ritmos latinos com eficiência e sabedoria. “Bem Bom”, feita em parceria com Mahmundi é harmonicamente envolvente, com destaque para os sempre presentes instrumentos de sopro, a canção narra a vontade de se estar junto, como uma paixão quase magnética. “Calmô”, a mais hipnótica das canções do disco é uma ode a momentos de paz e a uma palpável saudade, é segurar a mão de alguém e estar tranquilo, é uma saudade que ainda que derive de uma ausência, não castiga, porque só é sentida pois se trata da falta de algo importante, da falta de algo que já se sabe que gosta. Poesia capaz de fazer o ouvinte passear. É um abraço demorado em um reencontro.

Saudade, aliás, é um sentimento que permeia todo o registro. Sempre tratado como o sentimento ambíguo que é, que aqui por vezes é visceral, e por isso é um fardo, mas as vezes se trata de uma boa lembrança que resulta em um sorrisinho de canto, sendo assim leve. A espinhosa e dolorida “Claridades”, composição do maravilhoso Giovani Cidreira, chega ao som do piano, com todo o peso da mais dramática canção disco, que fala sobre o fim de um relacionamento, Liniker brilha e assim emociona. “Amarelo Paixão” é marcada por um instrumental inventivo e muito bem construído, límpida e sutil no início com um diálogo singelo de guitarra, violão e piano, no fim cresce, um solo de flauta ganha vida e o drama se encerra após um grito. Mas Goela Abaixo também é cru e direto, sem perder o tom intimista e a ternura, como em “Intimidade” e “Gota”. Canções confessionais onde o desejo é posto de forma prática, ainda que a poesia esteja ali. Por fim “Goela”, encerrando o diálogo construído em 13 faixas. Juliana Strassacapa, Josyara, Ayiosha Avellar, Grasiselli Gontijo, Linn da Quebrada, Natália Nery, Mel Gonçalves, Tássia Reis e Lina Pereira se juntam a Liniker e como um coral encerram a obra cantando sobre respeito e carinho às mulheres em uma canção apaixonada. Um disco carinhoso, cuidadosamente bem recortado e montado na forma de uma obra preciosa, o ápice criativo de uma ótima banda que acompanha uma artista que sabe o que faz, e que por isso nunca perde o tom.

Céu – APKÁ! (Slap)

Sucessor do merecidamente elogiado Tropix (2016, Slap) APKÁ! chega com Céu experimentado no eletrônico como ela nunca antes havia feito. E o faz com a doçura que lhe é peculiar. Ela fala sobre política, de um jeito cuidadoso e sutil ainda assim reativo, mas fala principalmente sobre o amor, um amor carinhoso, de mãe. Já que Céu se debruçou em questões familiares, especialmente no nascimento do seu segundo filho como ideia central da conceituação do disco, sendo “AKPÁ!”, inclusive, o som da primeira palavra dita pelo seu filho Antônio. O disco é um convite a um passeio, em um universo peculiar criado por Céu, sem pressa, sem urgência. São sintetizadores trabalhados lindamente criando sonoridades cósmicas e atmosféricas, cordas empoeiradas que conseguem remeter a momentos de romantismo já reproduzidos em obras de décadas anteriores. São melodias simples e beats tímidos que soam como um leve aceno, o tom de melancolia e contemplação permeia toda a obra. Céu apresenta canções de profunda entrega emocional, como as ótimas “Corpocontinente” e “Off (Sad Siri)”, onde canta sobre saudade e uma ausência que já demora, e assim soa melancólica e até mesmo triste. Mas também existe a entrega romântica e esperançosa como se soubesse que essa ausência logo acabará, como exemplo a agridoce e leve “Rotação”, com sintetizadores trazidos de plutão.

Céu é versátil o tempo inteiro e cada nova canção parece uma viagem por um novo terreno ainda inexplorado. São beats assertivos, que podem ser perfurantes, dançantes, românticos e contemplativos. O caráter político é mais fortemente explorado no pop rock eletrônico de “Forçar o Verão”, ainda que essa força venha com a doçura característica de Céu. A versatilidade se faz até mesmo na pluralidade dos artistas parceiros de Céu no registro. “Make Sure Your Head is Above” é composição de Dinho, do Boogarins, a preciosidade “Pardo” é um presente de Caetano Veloso à ela, que conta com a voz sutilmente colocada de Seu Jorge no vocal de apoio, além da parceria com o duo de música eletrônica Tropikillaz em “Eye Contact”, uma delícia roboticamente intimista encarregada de encerrar em grande estilo o registro. Céu se mostra poderosa, das maiores forças da nova MPB, mas como ela mesma disse, a MPB ficou pequena para essa nova cena. E por isso agora é preciso desconstruir, reconstruir, criar e inventar com perspicácia, e ela assim o faz. Melancólica, doce e poderosa.

“Tão incansavelmente decidida / Afinal era só uma menina / De um Céu / Não sei qual Céu / Talvez, no inferno tivesse Céu…”

Teago Oliveira – Boa Sorte (Deck Disc)

Primeiro disco solo do vocalista da Maglore, Teago expressa em Boa Sorte toda sua vontade de explorar novas possibilidades sonoras, bem como sua capacidade de o fazer, tudo isso sem perder a essência musical construída como integrante da Maglore. Por isso mesmo acontece uma identificação logo nos primeiros minutos de audição, nada é estranho apesar de novo. O disco é construído em tom intimista, de vocação acústica, guitarras melódicas e contidas, assim ganhando destaque o vocal sempre acalentador de Teago. Um bom exemplo disso é a faixa “Superstição”, soando como um recorte sonoro em um silencio demorado, ela chega mansa e se vai do mesmo jeito, passa como uma brisa leve à beira do mar. O disco é uma mostra pessoal da poesia feita por Teago, entregando essa poesia como uma extensão intimista do que já conhecíamos dele no Maglore. São canções produzidas com carinho, como “Sombras no Verão”, a voz arrastada e acompanhada por um piano tranquilo, bateria e baixo rítmicos, mas sempre soando com mansidão. Teago se entrega sentimentalmente, versa sobre amor, relações fracassadas, saudade, pequenos conflitos e memorias pessoais, tudo feito sem pressa, não existe urgência na linguagem do disco.

A saudade é a cerne de “Longe da Bahia”, uma confissão sobre a paixão pela terra natal em tom nostálgico. O passeio entre passado e presente, conto e realidade é um elemento constante. Como em “Corações em Fúria (Meu Querido Belchior)”, um misto de lembranças pessoais com o atual momento político de Brasil, com citação direta a Belchior, um artista sempre ativo durante a ditadura. “Ano Passado Ela Morreu / Mas Esse ano Vai Brilhar”. Sonoridade empoeirada, intimista e convidativa, com um caminhar manso, mas continuo, com momentos soturnos, mas com muitos momentos solares, como exemplo a primeira e a última faixas, “Bora” e “Últimas Notícias”. Cordas afiadas e fundamentais, ótimas linhas de baixo, guitarras sutis e um artista que vai além do que já se conhecia dele, se permite e acerta.

#1 – Terno Rei – Violeta (Balaclava Records)

Melhor disco brasileiro do ano! O Terno Rei pintou a música nacional de violeta em 2019, e Violeta é uma obra de arte. O disco é um desabafo pop sedutor em onze faixas e pouco mais de meia hora. Sedutor do começo ao fim, fácil de digerir, fácil de, por Violeta, se deixar abraçar. Não por acaso é cantado com força logo na primeira faixa, em “Yoko”: “E Quero Me Jogar Nesse Azul / No Infinito Destes Braços / Pois Aqui Me Sinto Livre / Eu Aqui Me Sinto Em Casa / Eu Aqui Me Sinto Inteiro”. Sensação que pode descrever a experiência gerada pela audição do disco. Uma obra irretocável de uma banda que caminhou até chegar ao seu ápice criativo até o momento, que cresceu, mudou, mas não perdeu a essência, que consegue entregar uma obra muito mais pop que as anteriores o seu melhor registro. Às vezes mudar é preciso. Uma banda que já não tem medo de voar, que faz um indie rock/pop rock com pitadas de dream pop e que fala sobre o amor, questões existencialistas, relacionamentos, solidão, mas sem perder o sorriso, sem deixar de celebrar. Aliás, Violeta é um grande sorriso. Um disco que sorri com graça e abraça com aconchego.

Os tons de violeta vão mudando de uma faixa para a outra, as vezes mais forte, as vezes mais brilhante, de acordo com os recortes e as camadas que se apresentam a cada nova canção. Impressiona a capacidade de conduzir o disco com uma diversidade sonora tamanha mantendo a coesão da linguagem principal. Guitarras, baixo e bateria aclimatam a experiência de forma diferente a cada nova faixa com uma ótima mixagem que destaca o vocal e toda a poesia preferida por ele. A exceção de “Amor-Perfeito” o vocal é o elemento principal. “São Paulo” é uma homenagem a cidade onde a banda nasceu mesmo que versando sobre o fim dolorido de um relacionamento. “Dia Lindo” é um dos grandes momentos de profunda delicadeza, guitarras sutis e bateria discreta sustentam a poesia romântica que é cantada. “Que eu nem sei mais meu nome / E de novo eu vou fugir de casa / Sobre o dia em que me deixou triste / Foi o dia em que tu decidiste ir”.

São momentos de nostalgia e momentos de desejo de mudança, momentos de entrega e momentos de encolhimento. A angústia e o amargor podem ser sentidos na ótima “93”, a nostalgia se sobressai em “Luzes de Natal”, bonitas e sinceras. O tom nostálgico também pode ser sentido nas guitarras vindas de algum lugar dos anos 80 da belíssima “Solidão de Volta”. “Roda Gigante” chega enorme quase que em tom de despedida, com a capacidade de descrever o quão inventivo pode ser o disco, são sintetizadores cintilantes, lindos e grudentos backing vocals e um belo solo rasgado de guitarra. Mas a despedida é feita com “Vento na Cara”, linda, precisa, o sorriso logo depois do adeus. Uma obra com uma entrega emocional linda, com comprometimento sentimental e poético, acima de tudo uma obra que entrega ternura, o que torna a apreciação gostosa e envolvente. Violeta é um ato musical de afeto.