Listamos todas as músicas  da mais influente banda de rock da história que possuem o nome de alguma pessoa no título. Seja uma pessoa que realmente existe ou existiu, e inspirou a banda de alguma forma, seja um personagem inventado pelo compositor da música em questão. De qualquer forma, todas as músicas inspiradas por um personagem, cujo nome desse personagem inspirador aparece no título da faixa.

Com direito a uma playlist peculiar.

“Hey Jude” – (1968, Single)

Abrindo a lista, aquela que talvez seja a mais famosa, o maior single da história, que completou 50 anos em 2018. Mas “Jude”, na verdade era para ser “Jules”. Explicamos. A ideia da canção surgiu quando Paul voltava da casa de Cynthia e Julian, ex-mulher e filho mais velho de John, família que ele deixou para ir viver com Yoko Ono. Por isso a composição pode até soar simplória pois Paul realizou a ideia central da canção ao volante. A música seria para soar como um abraço em Julian, àquela altura com cinco anos, já que para o garoto Paul sempre foi um tio presente, uma figura paternal.

Conceitualmente a letra se confunde entre um discurso paterno e cuidadoso e um discurso romântico, pois àquela altura, Paul havia sido deixado pela noiva que o flagrou a traindo. Tanto que historicamente essa é a canção de Paul sobre a qual ele mais defendeu suas ideias para a criação da canção, tendo recusado os riffs de guitarra que George havia composto e conseguindo convencer os produtores a contratar uma orquestra para a segunda parte da música. Por isso que em um primeiro momento ela foi gravada em Abbey Road, mas a segunda parte teve que ser gravada em um outro estúdio, o Trindent, que comportava os quase quarenta músicos da orquestra que acompanham o quarteto na faixa. Paul contou anos depois que mudou de “Jules” para “Jude” por um motivo simplesmente musical, por achar que soa melhor. John chegou a dizer que é a melhor música de Paul.

“Eleanor Rigby” – (1966, Revolver)

Uma saborosa mistura de coincidência com a ação do subconsciente. É fato que existia uma lápide com o nome de Eleanor Rigby no cemitério da igreja de St. Peter em Wooltom, em Liverpool. Mas essa mulher que de fato existiu e morreu em 1939, tem, diretamente, pouco, ou nada a ver com a música. Paul conta que sentou ao piano para compor e a ideia de título que se passou por sua cabeça em princípio foi “Daisy Hawkins”, depois ele mudou para Eleanor, em homenagem a atriz Eleanor Bron. O próprio Paul algum tempo depois adotou o sobrenome Rigby, segundo ele inspirado em uma distribuidora de bebidas de Bristol, a “Rigby & Evans Ltd, Wine & Spirit Shippers”. Ele conta que estava atrás de um nome que soasse natural, e achou que Eleanor Rigby iria funcionar. Ou seja, uma personagem totalmente fictícia inventada por Paul.

Porém, a lápide em questão, estava em um cemitério que se localizava a apenas quatro quadras do local do primeiro encontro de John e Paul. John inclusive fez parte do coral da igreja que ficava ao lado do cemitério e costumava frequentar o local. Paul que também frequentou o local quando criança, admitiu anos depois que a tal lápide da real Eleanor pode ter agido subconscientemente fazendo com que ele adotasse o seu nome. Coincidentemente, a música se encaixa perfeitamente com o que seria a vida das mulheres inglesas no pós-guerra, e com a verdadeira Eleanor, que trabalhava como uma espécie de capoeira, e poderia sim ter sido inspiração para a canção como uma “lonely people”, como canta a canção. Que preciso e coincidente encaixe. Por isso, o cemitério e a lápide que só foram descobertos na década de 80 ficaram tão famosos.

“Dear Prudence” – (1968, The Beatles)

Inúmeras faixas do Abbey Road e do The Beatles, o álbum branco, discos do ano de 1968, foram criadas durante a viagem da banda a Índia no começo daquele ano. Essa é uma delas. Prudence Farrow Bruns, irmã da atriz Mia Farrow, esteve no mesmo retiro de meditação que os Beatles em Rishikesh, ficando no quarto ao lado ao de Paul e George. A canção convida Prudence para ver o mundo, um convite para que ela saísse dos seus longos períodos de meditação. Além de outros membros do grupo de meditação, John também começou a ficar preocupado que elae pudesse estar começando a ficar deprimida, ou mesmo louca. Quando chegaram ao acampamento, a banda soube que ela já havia ficado três semanas sem sequer sair do quarto. A banda então fez essa preciosidade para ela.

“Dear Prudence, whon’t you come out to play / the sun is up, the sky is blue…”

“Lucy in the Sky With Diamonds” – (1967, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band)

Mesmo vindo do mais conceitual disco do quarteto, as iniciais LSD, não tem absolutamente nada a ver com a droga. John e Paul já negaram essa fantasiosa apologia algumas vezes, inclusive. Ainda assim a canção chegou ter sua reprodução censurada em alguns países. A inspiração para a psicodelia da letra veio de um desenho feito por uma criança, Lucy, de quatro anos, colega de Julian, que se desenhou junto com várias estrelas.

“Lady Madonna” – (1968, Single)

Gravada em Abbey Road durante a primeira semana de fevereiro de 1968, a música foi lançada naquele ano como single e tinha “Inner Light” como lado b. Segundo Paul, ele estava lendo uma revista africana quando viu uma foto de uma mãe amamentando seu filho e a foto tinha como legenda “Mountain Madonna” e então ele pensou, “não, Lady Madonna”. E foi essa mãe africana desconhecida na foto da revista que inspirou o título. A canção foi feita para ser uma espécie de homenagem a todas as mães, como uma celebração à maternidade.

“Doctor Robert” – (1966, Revolver)

Paul conta que por muito tempo durante as visitas dos Beatles aos Estados Unidos, eles ouviam falar sobre um certo médico chique de Nova Iorque que dava certas “vitaminas” a seus pacientes, e que era possível conseguir qualquer coisa com ele. A música então surgiu como uma brincadeira em torno desse sujeito, que, segundo Paul, matinha Nova Iorque chapada. O doutor Roberto em questão era provavelmente Robert Freymann, um médico alemão com consultório em Nova Iorque, que era conectado com a cena dos artistas da cidade nos anos 60. Segundo a filha do doutor Robert Freymann, John se tornou um de seus clientes famosos. O doutor era conhecido porque suas vitaminas eram na verdade anfetamina. Que inicialmente eram prescritas como antidepressivos, mas logo se tornaram droga recreativa para os jovens nova-iorquinos daquela época.

“Michelle” – (1965, Rubber Soul)

“Ma belle”. Ainda nos tempos de escola de belas artes, Paul frequentava as festas promovidas por seu amigo e orientador Austin Mitchell, em uma destas festas viu um estudante francês que ficava de canto com seu violão cantarolando canções em francês. Paul então começou a imitá-lo comicamente, o que fez com que ele criasse uma melodia a partir dessa brincadeira. Anos depois, John sugeriu que Paul compusesse uma letra para aquela melodia, pois precisavam de músicas para compor o disco e aquela melodia parecia promissora.

Devido ao cantarolar francês, Paul contatou Jan Vaughan, esposa de Ivan Vaughan, o amigo responsável por apresentar Paul a John.  Jan era professora de francês e o ajudou com a escolha das palavras, pois Paul sempre achou que a música soava francesa. Por conta do idioma, John escolheu um nome francês, Michelle. Uma das sugestões de Jan para rima com Michelle, foi “ma belle” (minha bela) e então Paul pensou em fazer uma canção de amor. Paul teve uma vizinha, Michelle Wickings, pela qual ele teve uma paixonite pré-adolescente quando escreveu sua primeira música. A canção  “I Lost My Little Girl” foi feita logo após ela ter se mudado para Paris. Por isso, dizem, que a escolha do nome Michelle não foi só por conta de ser um nome francês.

“Being for the Benefit of Mr. Kite!” – (1967, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band)

Em janeiro de 1967, a banda foi ao Knole Park, em Kent, para gravar o filme promocional de “Strawberry Fields Forever”. Perto do hotel onde eles estavam existia um antiquário, que John durante um passeio pela área visitou, quando viu um cartaz vitoriano de circo emoldurado e o comprou. O cartaz viria a ser do mais importante circo inglês antigo, o Pablo Fanque’s Circus Royal, impresso em 1843. A imagem orgulhosamente apresentava “mais uma noite sublime de temporada” e dizia que iria acontecer em benefício do senhor Kite. Além de anunciar as mais diversas atrações para a noite. O texto no cartaz era enorme, várias linhas de texto e muitas informações. O que John fez foi juntar todas essas linhas de texto na forma da letra da música adicionando algumas palavras e frases fazendo as conexões e rimas e adicionou alguns fatos na letra para melhor compor a música. Por isso a sonoridade de parque, a sonoridade circense da canção. Criada com a adição dos sons produzidos por órgãos, gaitas e metais.

John não sabia, mas a história conta que o Sr. Kite do cartaz era o famoso William Kite. Filho de dono de circo e que fundou o seu próprio por volta de 1825. Ele era um artista versátil especializado no trabalho equestre. Pablo Fanque também era famoso, artista de muitos talentos, ele foi o primeiro negro a ser dono de circo no Reino Unido, tendo circulado com seu circo por toda Europa e Rússia entre as décadas de 1940 e 1950. O Sr. Kite e o Sr. J. Henderson, que também era anunciado no cartaz, divulgavam a tal noite do circo de Pablo dizendo que essa seria uma “das mais esplêndidas já produzidas na cidade”. E naquela época, era comum que renomados artistas de circo ganhassem produções em sua homenagem, ficando com todo o lucro da apresentação.

“Rocky Raccon” – (1968, The Beatles)

O personagem Rocky Raccon, o cowboy sobre o qual a música canta, foi criado por Paul, ainda que a composição seja creditada a Paul e John, tendo George também contribuído com a letra. Inicialmente se chamaria Rocky Sasson, Paul mudou para Raccon por achar que soaria mais como um nome de cowboy. A música é uma sátira aos contos em baladas feitos por Bob Dylan e Johnny Cash, por isso o estilo blues western americano do som. O curioso é que essa faixa inspirou a criação do personagem Rocket Raccon dos quadrinhos da Marvel, o guaxinim falante de Guardiões da Galáxia.

“Lovely Rita” – (1967, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band)

Na década de 60 não era comum existirem guardas de trânsito do sexo feminino. Paul então ficou encantado com a expressão “meter maids”, que era como essas guardas eram chamadas nos Estados Unidos e logo começou a experimentar no piano com a sonoridade da expressão. E pensou primeiro no título “Rita Meter Maid” e depois em “Lovely Rita Meter Maid”, pois mudou de ideia, era para ser uma canção de ódio, mas depois decidiu amar a personagem criada, usando apenas Lovely Rita. Anos depois, a guarda de trânsito chamada Meta (lê-se “Mita”) Davis contou que multou Paul em Londres, que ele olhou para a multa que ela havia assinado por extenso e perguntou se ela se chamava mesmo Meta além de ter dito que seria um bom nome para música, inclusive perguntando para ela se ele se importava que ele usasse. Ele usou.

“Polythene Pam” – (1969, Abbey Road)

Também composta durante a viagem da banda a Índia no começo do ano de 1968, o título da faixa foi inspirado em Pat Hodgett, uma das primeiras fãs da banda, ainda dos tempos de Cavern, que era conhecida como “Polythene Pat”, pois tinha o assustador hábito de comer polietileno, que é um tipo de plástico.

“Martha My Dear” – (1968, The Beatles)

Martha era a cadela de estimação de Paul. Ela inspirou algumas canções dos Beatles diretamente, ou por estar presente em alguma história que inspirou alguma canção composta por Paul. Como na ótima história que inspirou a letra de “The Fool on the Hill”, ou ainda no fato de que no longo acorde final de “A Day in the Life” consta um som audível apenas para cães, talvez para Martha ouvir. Mas seu nome só apareça no título desta aqui.

“The Continuing Story of Bungalow Bill” – (1968, The Beatles)

A letra da música diz que Bungalow Bill foi caçar tigre com seu elefante e sua arma e em caso de acidentes, ele sempre levava a sua mãe. E essa é uma história real. A música é uma sátira de John e Paul sobre as aventuras de um rapaz americano chamado Richard Cooke III, conhecido como Rik, que foi a Índia visitar sua mãe Nancy, quando ela estava no retiro de meditação em Rishikesh, na mesma época que os Beatles lá estiveram. A canção narra a história de uma caçada, desaprovada por Paul e John, que Rik e Nancy fizeram enquanto eles estavam lá. Eles saíram de elefante e ficaram em uma árvore esperando por tigres, um deles apareceu e Rik atirou. John o criticou dizendo que não fazia sentido ele primeiro sair para atirar em animais e depois voltar para meditar e lavar a alma perante aos deuses.

Paul e John escrevam a letra ainda na Índia em tom sarcástico, criticando o acontecido e dizendo que matar é errado. O nome foi inspirado em Buffalo Bill, apelido de William Frederick Cody, lendário caçador e showman do velho oeste americano, representado em vários filmes e outras áreas da cultura popular. Paul adotou Bungallow, pois os alojamentos do retiro de meditação eram feitos em bangalôs.

 “Mean Mr. Mustard” – (1969, Abbey Road)

Mais uma que foi criada durante a viagem da banda para a Índia. Foi lançada no Abbey Road como parte do seu ótimo medley final junto com outras oito faixas, em parte dessa história narrada nesse medley, o senhor mostarda em questão era irmão de Polythene Pam. A ideia do personagem veio quando John leu uma matéria de um jornal local sobre um homem pão duro que guardava dinheiro em vários lugares para que ninguém o forçasse a gastar

O curioso é que a sequência original dentro do disco era feita por “Sun King”, “Mean Mr. Mustard”, “Her Majesty” e “Polythene Pam”, mas Paul ouvi a sequência e não gostou, pedindo para o técnico de som descartar “Her Majesty” da fita master. Muito bem instruído pela gravadora a nunca apagar nada feito pelos Beatles, o técnico em questão a inseriu no final do disco. Por isso que “Her Majesty” chega após um considerável intervalo, e é por isso também que o final de “Mean Mr Mustard” é feito com uma abrupta interrupção se conectando imediatamente com “Polythene Pam”, como acontece com todas as nove faixas do medley, mas nesse caso com uma continuidade harmônica ímpar, como se fosse apenas uma virada dentro de uma mesma faixa.

 “Julia” – (1968, The Beatles)

A canção que fecha o disco 2 do álbum branco é uma homenagem de John a sua mãe, Julia, que morreu atropelada por um policial bêbado quando John tinha apenas 17 anos, em 1958. Foi escrita durante uma visita dos Beatles à Índia em 1968.

Half of what I say is meaningless / But I say it just to reach you, Julia

“Maxwell’s Silver Hammer” – (1969, Abbey Road)

Dizem que é um dos motivos iniciais para a separação da banda. Além da constante presença de Yoko nos estúdios, já que ela e John haviam se acidentado na Escócia, e uma cama chegou a ser colocada no estúdio para que Yoko se recuperasse, a banda não gostava muito de toda a atenção dada a ela por John, nenhum outro Beatle gostou da ideia da música além de Paul, que a compôs. George teve que respirar o solo várias vezes, se cansando, Ringo odiava a ideia de tocar a bateria sem bater na caixa, com a baqueta na coxa marcando o tempo, só no refrão é que ele toca normalmente, e John se recusou a gravar, considerando apenas mais “uma ideia estapafúrdia de Paul”. Ringo disse anos depois que a gravação dessa música foi para ele o pior momento ao lado dos Beatles, que passaram três dias seguidos em estúdio para conseguir finalizar a faixa. A música foi criada para o The Beatles mas não foi gravada, foi então no ano seguinte e foi usada em Abbey Road. Apesar da melodia agradável, quase que de uma canção infantil, a música narra comicamente a história de um maluco homicida chamado Maxwell, que sai por aí com seu martelo de prata matando as pessoas. Apesar disso, Paul disse que se trata apenas de uma analogia, quando tudo está indo bem na vida, vem Maxwell com seu martelo e bang! bang!

Aparentemente Maxwell é mais um personagem fictício criado por Paul, mas o subconsciente pode ter agido aqui também. Anos antes da gravação da faixa, enquanto dirigia por Liverpool, Paul ouviu na rádio da BBC uma versão de Ubu Cocu, do dramaturgo Afred Jarray, que foi descrita como uma “extravagância patafísica”, o que impressionou Paul, segundo ele a melhor peça de rádio que já ouviu na vida. Ele foi então assistir a uma apresentação do espetáculo quando a peça esteve em Londres, que era estrelada por Max Wall. Paul havia se encantado com a ideia da patafísica, uma espécie de arte surrealista e ciência literária criada por Alfred Jarray. E disse que se inspirou em alguns conceitos e ideias para adicionar toques surreais a faixa. Por isso que Max Wall pode ter inspirado o Maxwell da faixa em questão.

“The Ballad of John and Yoko” – (1969, Single)

Ela é exatamente o que o título diz, uma baladinha de John e Yoko, sendo Yoko a musa inspiradora do título em questão. A canção fala sobre a lua de mel dos dois em Paris e sobre os eventos de seu casamento, que havia acontecido apenas dois meses antes do lançamento da faixa. Ela saiu como single, o último da história dos Beatles, tendo “Old Brown Shoe” como seu lado b. O curioso é que todos os instrumentos foram gravados apenas por Paul e John, George estava de férias e Ringo estava gravando o filme The Magic Christian. John escreveu, levou até Paul e pediu que eles gravassem logo, que não tinha como esperar o retorno dos dois, e assim o fizeram, com John fazendo guitarra, violão e percussão e Paul fazendo baixo, piano e bateria.