Tendo estreado no dia 04 de agosto, Pico da Neblina é a nova produção brasileira original da HBO latin america. Dirigida por Quico Meirelles (filho de Fernando Meirelles) trás consigo a qualidade da produtora 02 filmes, premiada e reconhecida internacionalmente e se ambienta em uma São Paulo ficcional onde a maconha foi legalizada para comercialização e consumo recreacional no Brasil.

Já a cena de abertura da série é politicamente provocativa, nela, os traficantes ironizam os deputados durante a votação da legalização, pois estes se utilizam de argumentos como “em favor da ética e da moral”, “em nome da família”, entre outros, enquanto declaram voto contrário a legalização. Segundo um dos produtores da HBO Latin America, a cena é um um paralelo com uma cena de outra produção da HBO, Boardwalk Empire, quando os chefes da máfia nova iorquina comemoram a criminalização do álcool nos EUA. No sentido de que vai ter sempre alguém fazendo muito dinheiro com a proibição de algo que é uma prática social recorrente.

Série bem produzida, ideia central muito bem desenvolvida e um enredo que prende quem assiste. Com apenas uma temporada, Pico da Neblina já demonstrou possuir vários méritos, sendo a originalidade talvez o maior destes. Uma série que é capaz de instigar, fazer refletir e que é capaz de gerar debates interessantes, relevantes e até mesmo fundamentais.

Outro grande mérito da produção é que ela se distancia das representações historicamente utilizadas em produções nacionais quando aborda temas como tráfico e vida em comunidades pobres. Ela acompanha um traficante, centralizando a narração da história através dele, e narra essa história de forma mais descontraída, sem deixar de abordar seus dilemas pessoais e sociais, mas se afasta daquilo que comumente vemos quando se fala de jovem negro de comunidade que convive com o tráfico e violência.

A produção ainda carrega méritos na parte técnica e de atuações. Efeitos visuais pontuais e agradáveis, montagem esperta e dinâmica e atuações muito sinceras e dignas, além de ter um personagem principal muito simpático e cativante.

Esse personagem principal é Biriba (Luis Navarro) filho de um lendário traficante da região, que começa a trama como um dos traficantes mais bem preparados e, portanto, mais rentáveis para a biqueira de onde pega seu estoque. A pedido de Salim (Henrique Santana) gerente da biqueira e amigo pessoal de Biriba, ele é convencido a fazer um certo serviço para o tráfico que não termina como ele gostaria ou esperava. Mas ele não conta isso para Salim, pelo contrário, tenta inclusive apagar os vestígios nada agradáveis do resultado desse serviço. Por conta desse resultado, Biriba consegue dinheiro suficiente para sair da ilegalidade e montar um empreendimento cannabico, agora que a maconha é legal.

Para isso, se associa com um dos seus antigos clientes, Vini (Daniel Furlan, o Renan do choque de cultura) um empreendedor inexperiente que vive de insucessos em suas antigas empreitadas e que ainda busca o respeito de seu pai, um empresário bem sucedido, e que acha que com o negócio da maconha, aliado aos conhecimentos de Biriba, pode finalmente ser dono de um negócio de sucesso.

Na contramão de Biriba, Salim segue na ilegalidade como gerente da biqueira. Entre a saída de Biriba da ilegalidade e o começo de um novo empreendimento, o desenrolar do tal serviço feito por Biriba e a continuidade de Salim no tráfico, a série tem sua trama central desenvolvida em um emaranhado de histórias muito bem contadas e conectadas.

 Além do ótimo caminhar da trama central, a série possui outros importantes méritos. Um deles é o desenvolvimento particular de personagens afastados desse enredo central envolvendo Biriba, Salim e Vini. A evolução da história nesse sentido é bem feita e ajuda a prender o expectador. A família de Biriba, mãe, irmã e sobrinhas tem suas questões, como Vini lida com seus pais e com sua namorada dando pitaco no negócio, o envolvimento de Biriba com uma das suas clientes, a vida de Salim ainda na ilegalidade tendo que lidar com questões violentas do dia a dia do tráfico, a relação de Biriba com seu novo fornecedor, além de alguns outras histórias acontecendo em paralelo envolvendo personagens secundários. Tudo isso é muito bem amarrado aos personagens centrais, especialmente ao personagem principal.

Aliás, essa relação de Biriba com seu fornecedor rende ótimas cenas. Ele foi a última opção encontrada por Biriba e Vini para encontrar um fornecedor, é um senhor uruguaio que vive isolado em uma chácara, antissocial ao extremo, é profundo conhecedor da erva a ponto de quase as cultuar, segundo ele, é possível até mesmo ouvi-las. O humor felizmente está presente, especialmente nas cenas envolvendo Vini e Digão (Bruce de Araujo) amigo de Vini e contador da loja, gênio da contabilidade mas que parece fazer tudo no seu tempo, flutuando.

Em uma das marcantes cenas da série com teor político social envolvido, um repórter pergunta a Vini, jovem branco de classe média, o que mudou para ele após a legalização, com uma resposta simples ele diz: “Ah, mudou tudo né, agora eu posso andar fumando na rua, na praia, posso fumar no natal”. A mesma pergunta é feita para Biriba, que responde: “O preto pobre parou de ser preso por causa de um baseado no bolso, isso já é um grande avanço […]”.

Pico da Neblina não toma partido em nenhum momento acerca da legalização ou não da maconha. Disse Quico em entrevista, que a série não se posiciona a favor ou contra a legalização, apenas trás o assunto a tona, pois é um assunto importante e deve ser debatido. Entendendo ele, inclusive, que essa legalização é impossível nesse momento de Brasil.

A série tem no elenco o rapper e ator Dexter, a cantora e atriz Leilah Moreno, Teca Pereira, Maria Zilda Bethlem, entre outros. Dezoito atores da séries foram selecionados por Quico e Fernando entre 2600 atores e atrizes que atenderam um chamado feito pela internet para que novos atores enviassem vídeos caseiros. Um desses dezoito, foi Henrique, o Salim.

A primeira temporada possui 10 episódios indo ao ar semanalmente com uma hora de duração cada. O último episódio da primeira temporada foi ao ar no último dia 6 de outubro. A série vai ao ar pela HBO, HBO GO e HBO Inclusion, para mais de 70 países. Além de toda a América Latina e Caribe, chega aos Estados Unidos e alguns países de África e Europa.