Prometo tentar não me estender muito… Se possível for. Se o Criolo me deixar.

“Um por rancor
Dois por dinheiro
Três por dinheiro
Quatro por dinheiro
Cinco por ódio
Seis por desespero
Sete ‘pra’ quebrar a tua cabeça num bueiro”

Criolo é de fato um artista incrível, um letrista absurdo. Um gênio do nosso tempo. 

Mês passado o clipe de “This is America” foi o clipe do mês aqui no site, era compatível com o momento. Apesar de ainda ser compatível com qualquer momento.

Eu fiz então, de forma muito natural, um link, esse link: O Criolo fez uma espécie de nossa versão de “This is America”, ao fazer a poderosa “Boca de Lobo”. Onde ele foi inacreditavelmente cirúrgico ao lançar a música no momento em que lançou. O clipe foi postado YouTube no dia 30 de setembro de 2018, em meio toda aquela chacina virtual, e às vezes física, que fora nosso processo eleitoral presidencial daquele ano. Todo aquele chorume político.

A recente lembrança de que: “This is America”

Mês passado os EUA explodiu em uma revolta carnal, baseada em uma exploração em muito tempo aplicada no povo preto. A morte de George Floyd, por sufocamento feita por um porco policial branco, em Washington, deixou de ser mais uma morte racista cotidiana, mais um número, e se elevou à categoria de inspiração, virou fogo! 

E assim levou as pessoas às ruas com a premissa utópica mas que se faz necessária de que seria possível de uma vez por todas fazer com que a humanidade entendesse que vidas pretas importam. Veio o #BlackLivesMatter. A ruas então ficaram chamas. Veio então a repressão policial, mais racismo, alguns vídeos que davam alguma esperança, muita gente branca passivo ou, gente branca organizando o feed do instagram com uma imagem preta, por conta do #BlackOutTuesday. Movimento esse, que foi  um dia dedicado ao apoio a comunidade preta mundial, silenciando os perfis para que as vozes pretas pudessem ser ouvidas. 

Um movimento que começou na indústria da música com a tag #TheShowMustBePaused, em prol de um dia em que os artistas deveriam se desconectar do trabalho e dessem ouvidos a comunidade preta. Que ouvissem, que consumissem artistas pretos.

A ideia veio das filhas das executivas pretas da Atlantic Records (aquela mesma, a do Led Zepellin). Em meio a tudo isso, mais uma vez, o povo da música se lembrou, assim como boa parte do povo em geral (muito bem lembrado, inclusive), do clipe de “This is America”, mega hit do Childish Gambino.


Um videoclipe histórico, cheio de referências históricas na cultura americana de massacres, tragédias contra o povo preto, ou o racismo no geral. Gambino reproduziu o caso de Dylann Roof, responsável pelo massacre de nove pretos em uma igreja da cidade de Charleston, na Carolina do Sul. Tem uma menção a Richard Pryor, humorista negro que batia de frente com as questões raciais e a violência policial. Tem referência bíblica, as armas sendo mais bem tratadas que os corpos pretos que elas assassinaram, e uma longa lista de referências, incrivelmente bem aplicadas, referenciadas e cantadas. Um gigantesco videoclipe, para uma excelente música. Com um título que poderia chocar aquele casal branco que saiu a calçada de sua casa, armados, apontando para os manifestantes que apenas passavam pela rua, afinal de contas, querendo ou não, this is america (isso, ainda é a América). #makeamericagreatagain.

A arte e a razão de Criolo, e o elogio mútuo que é essa conexão entre as duas obras

“Nem Pablo Escobar, nem Pablo Neruda
Já faz tempo que São Paulo borda a morte na minha nuca
A pauta dessa mesa ‘Coroné’ manda anotar
Esse ano tem massacre pior que de Carajá
Ponto 40 rasga aço de arrombar
Só não mata mais que a frieza do teu olhar
Feito rosa de sal topázio
És minha flecha de cravo
Um coração que cai rasgado nas duna do Ceará”

Esses dois trechos poéticos e encantadores colocados acima, lá no começo do texto, e logo aqui acima deste parágrafo, são trechos da música “Boca de Lobo”.

Eu apenas fui uma vez a um show do Criolo, ele era o headliner de um dia dos dias no festival Bananada, em Goiânia. #gynrockcity. Ele disse no começo do show que estava cansado, que tinha feito um show, ou gravado algum material mais cedo naquele dia, que tinha acabado de chegar de São Paulo, mas que iria fazer seu melhor. Falou palavras “encantadoras” sobre a organização do evento que ele tinha feito mais cedo, esbravejou mesmo, foi ótimo. E eu não tenho como descrever o quão sensacional foi esse show. Há menos de seis meses ele havia lançado o Convoque Seu Buda (2014, Oloko Records) mas todo mundo já sabia todas as músicas, e foi sensacional. Ele colocou uma camisa com a imagem do Bob em um pedestal e correu pelo palco, levantando o Bob, e dizendo pra gente “saúdem o rei”, nosso rei. Foi inacreditável, foi voltar pra casa com um sorrisinho bobo na cara.

“calar a boca dos ‘loki’
pois quem toma banho de ódio exala o aroma da morte”

Trecho da faixa “Esquiva da Esgrima”

E Criolo declama o seguinte trecho em “Boca de Lobo”:

“Poder ‘economicon’, ‘cocaine’ no ‘helicopteron’
Salário de um professor: ‘microscopicon’
Feito ‘papito’ de papel próprio
Letra com sangue do olho de Hórus
É que a indústria da desgraça pro governo é um bom negócio
Vende mais remédio, vende mais consórcio
Vende até a mãe, dependendo do negócio
Montesquieu padece, lotearam a sua fé
Rap não é um prato aonde ‘cê estica que cê qué’
É a caspa do capeta, é o medo que alimenta a besta
Se três poder vira balcão, governo vira biqueira
Olhe, essa é a máquina de matar pobre
No Brasil, quem tem opinião, morre.”

E de forma ainda mais pontual, ele prevê o caos que viria:

“A guerra do tráfico, perdendo vários ente
Plano de saúde de pobre, fia’, é não ficar doente
Está por vir, um louco está por vir
Shinigami, Deus da morte, um louco está por vir”

E ele veio, e o Criolo sabia que já era inevitável. O caos trazido pelo louco está instaurado.

E esse link é um grande e mútuo elogio entre as duas faixas e  entre os dois artistas, porém um pouco maior da parte do Childish, o Criolo é mais absurdo. Ainda que essa comparação não seja nenhum pouco necessária, o Criolo é mais papo reto, mais dedo na ferida, tem mais tempo de rua, e fala diretamente com todo o povo brasileiro, o papo serve para todos os brasileiros, uma pena que a imensa maioria ainda não ouça.

Uma letra e um clipe de quem sabe o que é viver em um lugar onde se vê “o kinect (controle sem fio) do Xbox” ser trocado por “duas bucha de 5 (referência a duas trouxas de cinco gramas da droga cocaína)”.

“Boca de Lobo”: Uma obra, um manifesto

As referências de Criolo no clipe são constantes, precisas e seguras, e elas rimam. Ele conseguiu denunciar criando uma obra potente e relevante, onde ele faz sua arte olhando para o nosso caos, para o nosso brasil. Ele normalmente constrói sua arte a parte daí, das suas vivências, das suas dores, de momentos presenciados.

Mas aqui ele se expande, ele explode, ele contempla todo e qualquer brasileiro que de forma recorrente se revolta com as injustiças desse país, e com o quão podre é a nossa classe política, o quão nefasta e genocida são os representantes políticos desse país, esses, por sua vez, democraticamente escolhidos pelo povo.

Nesse país onde lei de ficha limpa é apenas uma mureta, que se pode facilmente pular.

Uma Marielle Franco. Referência a vereadora morta no Rio, cujo caso ainda se encontra sem resolução.

Foto: Divulgação/YouTube

Parte do que seria essa “indústria da desgraça”, os abutres que lucram com a precariedade do sistema brasileiro de saúde pública, os que lucram com a morte do pobre.

Foto: Divulgação/YouTube

No mesmo plano, duas referências enormes. Primeiro, pode ser visto na roupa do enfermeiro, o número “55”, em alusão a “PEC do Teto”, mesmo número do projeto de emenda constitucional que criou um teto para gastos públicos e congelou gastos com saúde e educação. Segundo, o menino, que faz referência a outros dois meninos. A Marcos Vinicius da Silva, de 14 anos, baleado a caminho da escola, e ao garoto Sírio Omran Daqneesh, cuja foto dele, coberto de sangue e poeira após ataques no seu país, rodou o mundo àquela altura.

Foto: Divulgação/YouTube

Aqui, uma referência a indústria do petróleo, sugando o Brasil, e sugando vários outros países. Uma analogia ao “petrolão” e também ao lobby que o ministro de comércio do Reino Unido teria feito para defender empresas como a Shell. No clipe, se atentem para o detalhe no que está escrito na torre, a palavra “hell”, em alusão a própria “shell”.

Foto: Divulgação/YouTube

Uma referência à classe política e seus conluios safados com grandes empresas, as privatizações, aos porcos na lama, aqui, na lama da tragédia de Mariana. 

Foto: Divulgação/YouTube

Enquanto o museu nacional queima, um enorme tucano destrói um helicóptero que vira pó. Uma gigantesca analogia ao caso “helicoca”. O tucano, ave-símbolo do PSDB e o helicóptero, ponto principal no escândalo onde a polícia federal apreendeu cerca de 450 kg de cocaína no veículo que pertencia à família do senador Zezé Perrella. Este por sua vez, muito próximo do também senador pelo PSDB, Aécio Neves, proximidade essa que trouxe Aécio para o radar da polícia. Por enquanto, não deu em nada.

Foto: Divulgação/YouTube

E o Criolo não pára, ele é uma bomba incendiária, um molotov, queimando por todo o clipe…

Aqui, o clipe faz alusão ao ex-ministro Geddel Vieira Lima. Em 2017, o político teria guardado em um “bunker”, cerca de 51 milhões de reais em espécie. Rodou o mundo, a imagem do dinheiro em caixas de papelão e malas, encontradas num apartamento do ex-ministro em Salvador. Ele foi denunciado por lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Foto: Divulgação/YouTube

O morcego sobrevoando Brasília chega para finalizar a inacreditável obra do Criolo. Um afago à figura de Michel, que ainda carregava a faixa presidencial. Há quem diga hoje “saudades do meu ex… presidente”, não tem como julgar, olhando para o lugar desesperador onde estamos agora, fomos de péssimo para pior ainda.

Foto: Divulgação/YouTube

A letra é escrita por Criolo em parceria com seu fiel escudeiro Daniel Ganjaman, e Nave. O vídeo tem direção de Denis Cisma e foi feito de forma independente pela Oloko Records, selo de Criolo, em parceira com a produtora Saigon Filmes, em um trabalho totalmente voluntário e colaborativo. Assistam por completo essa obra de arte. Com olhos e ouvidos atentos. São muitas outras referências mais acontecendo, e que não foram citadas aqui.

Para nos ajudar a entender o tamanho do feito do Criolo, esse é o primeiro comentário no vídeo de “Boca de Lobo” no YouTube. Isso, é sobre o poder da música:

Prof. Deins Portela, 1 ano atrás

Olá, Criolo! Duvido que esse comentário chegue até você, mas ainda assim deixarei o registro. Sou professor de História. Tenho 30 anos. Nasci na Zona Norte de SP, Cachoerinha. Cresci na Vila Niva Galvão (região do Emicida). Atualmente resido no litoral norte de Santa Catarina onde, como descendente de índios e negros, vejo q Bolsonaro é deus pra homem branco. Sou muito atuante na internet em discussões que dizem respeito à educação e ativismo político. Todo mundo que me acompanha sabe que eu tenho o sonho de te conhecer pessoalmente e vou falar porque: VOCÊ ME REPRESENTA PRA CARALHO! Você é um dos poucos artistas hoje que alinha a nossa cultura e leitura de mundo periférica com a literatura e produção acadêmica. Você traz luz às mentes. Nunca vou esquecer de quando trabalhei sua biografia e a letra da musica Sucrilhos no EJA e uma senhora negra deu um depoimento no final do ano sobre como aquelas aulas e aquela música a ajudaram a lutar pela da liberdade em uma casa onde ela atuava como empregada doméstica e era constantemente maltratada, principalmente pelos filhos da patroa, que comiam queijo com goiabada, comida preferia dela, e faziam questão de deixar ela apenas olhando, fora as inúmeras vezes que disseram: “Tá olhando o que? A gente já te paga! COMPRA! ” Ela relatou, com lágrimas nos olhos, que minhas aulas e sua musica a fizeram pedir a conta e colocar aquela família na justiça. Eu espero que continuemos a ter uma mínima liberdade para que artistas como você possam chegar até nós. Não sei como ficarão as coisas no país. A molecada tá completamente alienada e apoiando qualquer proposta autoritarista das elites. Brother, se o bicho pegar por aqui, saia do país. Precisamos de caras como vc vivos e atuantes para que a mensagem se espalhe. Sua produção é divina, literalmente. Sua arte é resistência e transformação. Amanhã mesmo, as 7h30 da manhã, este clipe será apresentado em uma sala de aula. Assim será até as 17h15. Salve.

Esse é o sentimento. Esse é o poder. Talvez eu tenha me feito entender melhor agora, com esse comentário.

Esse não é nenhum tipo de texto musicalmente patriota, do tipo, consumam os artistas daqui, eu já faço isso o tempo todo, e tento influenciar pessoas a fazerem o mesmo, mas se o texto funcionar com esse propósito, também me contempla. Olhem as referências do Criolo, os artistas com os quais ele cola, explorem as proximidades artísticas dele, a banda, esse absurdo de banda que o acompanha, e quem ainda não fazia isso, passem a perceber mais esse homem, esse artista, esse gênio.

Esse texto foi feito muito mais na forma de desejo, desejo de que venham mais Donalds Glovers/Childishs Gambinos com suas vozes ecoantes e suas ideias verdadeiras e contundentes, que venham muitos outros Criolos, com seu papo reto, com sua poesia, ambos, com sua música, com sua arte, sendo relevantes historicamente, concebendo obras poderosas, todos os corpos vivos do universo agradecem.