Produto original do canal Hulu, a série é uma adaptação do filme de mesmo nome, um clássico dos anos 2000 estrelado por John Cusack e com Jack Black, Todd Louiso e Katherine Zetha-Jones no elenco. Aqui, cria-se uma versão feminina e moderna da história, que é dirigida por Veronica West e Sarah Kucserka, e é estrelada com muitos olhares, rispidez, decepções, e até alguns sorrisos pela ótima Zöe Kravitz.

Foto: Divulgação/Hulu

Contém spoilers!

A história é contada através de Robyn Brooks, a Rob (Zöe Kravitz), uma hipster-cool girl que é dona de uma loja de discos no Brooklyn. A narrativa é construída através da sua vida amorosa, conturbada, mas para quem vê de fora, pode sim ser também um tanto divertida. Ela está lidando com um termino recente, com aquele que parecia ser o seu par ideal, Mac (Kingsley Ben-Adir). Confusa com o jeito que as coisas terminaram, ela revisita seus relacionamentos do passado tentando encontrar algum padrão para enfim saber o porque de ter sido rejeitada.

Ela então começa sua jornada de auto descobrimento através de cinco relacionamentos mal sucedidos. Essa jornada, faz o expectador ficar imerso, preso na série através do olhar de Rob, principalmente porque no caminho que ela faz, ela não o faz apenas passando por seus ex, tem muito de cultura pop na história, principalmente música, tem haver com os outros nichos da vida dela, e como toda essa carga de informações, desde o seu primeiro relacionamento, a moldou como a mulher que ela é agora.

Rob e Mac prestes a terem uma importante conversa.
Foto: Product Placement Blog/Hulu

Rob então começa a fazer contato com seus ex. O primeiro da lista é Kevin Banister, seu primeiro namorado, ela descobre que ele se casou com a mulher pela qual ela foi trocada; pela sua lógica então, ela não foi rejeitada, era apenas destino. Depois ela lembra de Simon (David H. Holmes), que se descobriu gay exatamente na época que eles saiam; para ela então, não houve rejeição, era apenas uma questão biológica. Simon se tornou um de seus melhores amigos e trabalha na loja com ela.

O próximo na lista é Justin, um comediante stand-up que leva uma vida conturbada e sem amor com sua mulher; Rob conclui que o termino foi o melhor que poderia acontecer nesse caso. E então ela chega em Kat Monroe, um de seus términos mais difíceis, uma das relações mais memoráveis, mas o encontro com Kat anos depois é apenas decepcionante.

Dentro dessa jornada, Rob parece ser uma mulher que tende a lidar bem com seus momentos de solidão, ela aparece ouvindo suas músicas sozinha, seu comportamento as vezes indica que ela pode ser uma pessoa insegura, capaz de se fechar para o mundo, ou mesmo para algum relacionamento saudável, mas acima de tudo, Rob é uma mulher complicada. E toda a complexidade da personagem é entregue de forma sublime por conta da atuação de Zöe.

Em alguns desses momentos de solidão da personagem, acontecem alguns diálogos de Robyn com o expectador, derrubando a quarta parede, interagindo diretamente com você. Recurso também utilizado no filme, que aqui é capaz de prender ainda mais o público, de aproximar as pessoas de Robyn. E é feito com a mesma dinâmica, a mesma capacidade de te fazer parte da trama, que outros produtos seriados ou filmes conseguiram fazer. Como Frank Underwood (Kevis Spacey) em House of Cards, ou como Yuri Orlov (Nicolas Cage) em O Senhor das Armas. Mais uma vez, e principalmente nesses momentos de interação direta com o expectador, Zöe Kravitz é brilhante.

Rob compartilhando conosco seus dramas.
Foto: Divulgação/Hulu

Ao final da sua jornada, a principal constatação de Rob é que Mac, foi o único que ela realmente amou. Enquanto vai à bares com seus amigos, lida com seus clientes na loja, liga e encontra seus ex, e tenta lidar com seus sentimentos por Mac, Rob acaba se aproximando do cantor Liam (personagem que no filme era Marie De Salle, uma bela cantora que também havia saído recentemente de um relacionamento, e que acaba sendo um pequeno, porém divertido affair de Rob, no longa, Marie era vivida pela mãe de Zöe Kravitz, Lisa Bonet). Mas o lance com Liam acaba sendo apenas isso, um pequeno lance.

Rob também se aproxima de Clyde (Jake Lacy), uma relação adoravelmente bem desenvolvida ao longo dos dez episódios da temporada, sendo eles pessoas de diferentes referências no que diz respeito a arte e cultura, um homem branco que pratica escalada e escuta Phish, banda com a qual ela brinca e critica (com razão) os longos e cansativos solos de guitarra.

Por conta de toda confusão que ela tem passado em relação aos sentimentos que nutre por Mac, Rob demora a perceber que realmente sente algo por Clyde, ou pelo menos se blindou para esse sentimento ao perceber que eles são de realidades diferentes. Mas Rob vai se dando conta que isso não é o que realmente importa, e o alento, para aqueles que gostariam de ver Clyde e Rob juntos (imagino que seja a maioria dos que assitiram a série), é que um dos diálogos mais famosos do longa é recriado com os dois, quando no episódio final, Clyde diz que existe 9% de chances deles ficarem juntos. Exatamente o que diz Laura para Rob no filme.

A perspectiva feminina criada aqui, em muito é um ganho em relação ao produto original. Tanto o Rob de Cusack como a Rob de Zöe, entendem que basicamente são uns idiotas, ou ao menos foram. Mas a Rob de Zöe é uma evolução. Por toda a complexidade da Robyn, uma mulher preta bissexual, que tem um pouco mais de tempo para construir seu personagem, dado o formato seriado, e que parece ser mais insegura em relação aos seus sentimentos, confusa, mas que acaba entendendo que é melhor valorizar aquilo que sente, em relação ao que se espera de um par ideal, no sentido de gostos e preferências compartilhadas, ou mesmo planos. A relação com Clyde termina sendo um dos melhores ganchos para a segunda temporada.

Rob e Clyde e David Bowie – The Man Who Sold the World, prensagem original, 1970.
Foto: Divulgação/Twitter

A MÚSICA

Como no filme, High Fidelity não se esforça para ganhar facilmente o coração dos amantes de música, cada episódio é um enxurrada de recomendações, e elas vem de todas as formas. A música está por toda parte, nos mais despretensiosos diálogos (como quando Simon diz que prefere ouvir o Creed do que sair naquela noite em questão com Rob, nesse caso uma contra-recomendação), ou quando eles montam os seus “top 5” em absolutamente qualquer tema, exemplo: “Top 5 músicas sobre masturbação (que ficou assim: “I Touch Myself”, do Divinyls, “Dance Whit Myself”, clássico do Billie Idol, “She Bop”, da Cindy Lauper, “Blister in the Sun”, da Violent Femmes e “My Ding-A-Ling” do mestre Chuck Berry), nos discos e posteres expostos na loja (o bonito azul da capa do Globin, do Tyler the Creator de um lado e do outro um grande poster do Notorius BIG), nas camisetas de banda (Cheap Trick conversando com o Wu-Tang), nos adesivos espalhados pela loja (onde vemos Run DNC ao lado de Lamb of God), mas principalmente na sensacional trilha sonora da série, que lista todas essas referências.

Cherise, Rob e Simon, desfilando simpatia e delírios musicais a cada novo top 5.
Foto: Phillip Caruso/Hulu

Além disso, os trechos escolhidos das músicas que compõem a trilha, muitas vezes saltam enquanto Rob tem um certo devaneio pertinente, ou faz algo, de forma que a trama cria uma conexão entre o estado emocional da personagem com a música que está tocando, para falar sobre o amor, a vida, através das composições escolhidas. Isso eventualmente acontece em grandes produções, mas aqui, por se tratar de uma série que conecta amor e música, isso é muito bonito de ver. Uma trilha realmente incrível e muito precisa.

Essa é a playlist oficial por ordem de aparição na série:

Nos primeiros episódios, Rob vai construindo uma playlist para Mac, e nesse processo ela nos conta sobre a delicada arte por trás da criação de playlists. Onde você pode contar o que sente sem dizer nada, pode usar da poesia feita por outra pessoas para expressar como se sente, além de uma série de regras que devem ser seguidas nesse processo criativo. Como ela diz: “Uma boa compilação, assim como muitas coisas na vida, é difícil de se fazer”. Concordamos!

A música é também um dos fatores que confere a agridoce complexidade à Rob da Zöe. No filme, Rob diz que a base de um relacionamento duradouro são os gostos em comum, filmes, livros e, principalmente música, importam, pois ele montou toda a sua filosofia de vida com base nessas coisas e assim, ele não consegue se imaginar com uma pessoa de gosto muito diferente, soando quase que de forma arrogante. Na série não, Rob acaba sendo muito mais que isso. Lógico que a arte, especialmente a música, são partes importantes da vida dela, como algo que ajudou a moldar sua personalidade, mas ela se deixa levar muito mais pelo sentimento no momento e pela continuidade, ou não, desse sentimento, do que o contrário. Como no caso da relação dela com Clyde, alguém com que em princípio ela não tinha muita compatibilidade, mas o tempo fez com que ela desenvolvesse um sentimento por ele.

A EVOLUÇÃO DO POWER TRIO

O power trio em questão é formado por Rob e seus dois fiéis escudeiros, os melhores amigos. No filme, temos John Cusack como Rob, Jack Black como Barry e Todd Louiso como Dick, mas no longa, a interação dos três não é tão bem aproveitada, eles são meros coadjuvantes, nem o humor perspicaz de Jack consegue fazer com que Barry brilhe. Na série eles são Simon e Cherise, e aqui sim, são muito importantes.

O trio na série é composto por Robyn, Cherise (Da’Vyne Joy Randolph) e Simon (David H. Holmes), e eles são sensacionais. Simon, um dos ex listados por Rob, que se descobriu gay quando eles ainda se relacionavam, é agora um de seus melhores amigos, trabalha na loja de discos de Rob e convive com ela diariamente. Eles gostam de pensar que ainda namoram, mas no sentido de serem parceiros. E Cherise é um caso a parte. Ela é cheia de si, cheia de opiniões, se faz ouvir e definitivamente, ela é ouvida. É o melhor alívio cômico da série, e encanta com sua cara de má, com sua personalidade forte e postura expansiva. Quando ela quer, ela se faz presente.

Cherise, Simon e Rob funcionando muito bem juntos.
Foto by: Phillip Caruso/Hulu

O três são a principal e grande mudança, para melhor, em relação ao longa, imaginando que a história agora é contada duas décadas depois do filme, a vida mudou, o mundo mudou. Rob deixa de ser um homem branco hétero sentimentalmente quadrado e passa a ser uma mulher preta complexa. Simon deixa de ser apenas um rapaz introvertido e aparentemente pouco atrativo, passa a ser parte real da trama, como um dos ex de Rob e agora seu amigo, ele é gay e na trama vive também seu romance. E o que era o Barry, de Jack, passa a ser a Cherise de Da’Vyne Joy, um primor, mulher preta do subúrbio que passou por muita coisa, que a vida moldou como um ser forte, e aqui, uma artista. Um dos melhores ganchos para a segunda temporada fica por conta dela, sua nova guitarra, e a vontade de fazer um tipo de música fora dos padrões, revolucionária.

Assim como Rob, esses personagens também ganham mais luz no formato seriado, tem mais tempo para serem desenvolvidos e agregar valor real à trama. Simon, inclusive, ganha um episódio inteiro para ele, dedicado também as suas desilusões amorosas, mas seu top 5 acaba sendo ocupado por um mesmo homem, Ben, com o qual ele vive uma relação perturbadora através de anos. Simon se mostra um homem sensível, sábio quando o assunto é música e aprendeu com o tempo a deixar as coisas ruins para trás e seguir, e é assim que ele começa a se envolver com Blake (Edmund Donovan), agora sim, em uma relação que parece ser promissora.

Cherise, Rob e Simon a caminho de um showzinho. Foto: Phillip Caruso/Hulu

UMA MELHOR ADAPTAÇÃO

Tanto o filme, lá de 2000, como agora no formato de série, High Fidelity se baseia no livro homônimo de Nick Hornby, que é também um dos produtores da série. Mas o produto do Hulu leva vantagem em relação a adaptação anterior, principalmente pelo formato, são dez episódios com pouco mais de vinte minutos cada, mais tempo para se conceber e construir tecnicamente o produto, para desenvolver os personagens, ou mesmo para se utilizar de trechos do livro, que por conta do formato de longa metragem, não couberam no filme.

Como por exemplo a passagem onde centenas de discos raros são oferecidos à Rob pela bagatela de 20 dólares, onde ela encontra um exemplar histórico do The Man Who Sold the World, disco do Bowie. Nesse caso, uma mulher (vivida por ninguém menos que Parkey Posey) resolve vender, praticamente doar todos os discos do marido, como forma de vingança por ele ter a traído. Rob então, diante de uma excelente coleção, fica receosa de comprar e vai atrás do cara para saber se ele realmente merece essa punição. Eis que ela o conhece, e comprova que ele é sim um babaca misógino, mas sua alma romântica não a deixa tirar um bem tão precioso de seu verdadeiro dono, ainda que este seja uma péssima pessoa, por incrível que pareça, péssimas pessoas também podem amar a música.

Outro avanço em relação a primeira adaptação, é o fato de acontecer uma espécie de atualização musical de duas décadas, espaço de tempo entre o filme e a série. Bandas, artistas e músicas que aparecem no filme como referência (Green Day era a grande novidade àquela altura), especialmente coisas dos anos oitenta, também tem sua vez aqui, mas na série, o catálogo é atualizado com o que aconteceu na música nos últimos vinte anos.

A verdade é que a série, por todos os motivos citados acima, faz uma espécie de atualização da adaptação, ela moderniza os olhares, as questões, confere novas cargas emocionais e cria uma complexidade gostosa e envolvente, e assim concebe um produto moderno em um formato novo. É muito mais fácil gostar dessa Rob, desse elenco, das reviravoltas desse roteiro, pois essa é a melhor versão de High Fidelity. Pois este é um produto que se reinventa sem sofrimentos, sem dores, diferente de muitas adaptações por aí. Acrescenta pluralidade, confere complexidade, e assim dialoga com os fãs do livro, com os fãs do filme e cria seus próprios fãs, une essas gerações e consegue se comunicar com todas elas, através do romance ou da música, mas principalmente, através de personagens com os quais é muito mais fácil de identificar. Afinal, amor e música, em todo mundo tem um pouco.